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Plínio Fraga


Filme de Meirelles sobre papas peca por ausência dos irmãos Boff

Hopkins como Ratzinger e Pryce como Francisco em “Dois Papas" - Divulgação
Hopkins como Ratzinger e Pryce como Francisco em “Dois Papas" Imagem: Divulgação
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

27/12/2019 12h16

Faltam os irmãos Clodovis e Leonardo Boff, teólogos brasileiros co-formuladores da Teologia da Libertação, no excelente "Dois Papas", filme dirigido por Fernando Meirelles, disponível na Netflix. A obra com a trajetória eclesiástica de Bento XVI e de Francisco já foi indicada ao Globo de Ouro e está cotada para diversas categorias no Oscar 2020.

"Dois Papas", inspirado em histórias reais, traz Anthony Hopkins no papel de Bento e Jonhatan Pryce no de Francisco. Foi escrito por Anthony McCarten _ também roteirista de "A Teoria de Tudo", filme biográfico sobre o físico Stephen Hawking _ a partir de pesquisas bibliográficas e entrevistas conduzidas com a supervisão de Meirelles.

O diretor brasileiro deu um tom suave a dois personagens antagônicos seja na linha teológica seja no grau de empatia. O iracundo alemão Bento XVI aparece quase gentil. E um momento, por exemplo, tenta fazer graça para Francisco e se explica: "Estava fazendo uma pequena piada. Uma piada alemã, o que significa que não precisa ser necessariamente engraçada..." Em outro episódio, cutuca Francisco: "Talvez encontremos Deus na nossa jornada. Posso apresentá-lo a você!"

Já Francisco é visto com mais simpatia e responsabilidade. "Quando não há ninguém a culpar, todo mundo é culpado", afirma em determinado momento sobre desvios e abusos na Igreja Católica. "Gastamos tempo disciplinando quem discorda de nossa linha sobre divórcio, controle de natalidade, homossexualidade. Isso enquanto o planeta estava sendo destruído, enquanto a desigualdade cresce como um câncer", discursa o papa argentino.

No filme, é possível ver uma conversa curta de Francisco com um cardeal brasileiro, provavelmente inspirado em d. Cláudio Hummes. Mas, pela ótica brasileira, é lamentável que Meirelles tenha perdido a oportunidade de mostrar o papel do cardeal Joseph Ratzinger, tornado Bento 16 no pontifcado 2005-2013, na imposição do "silêncio obsequioso" aos dois teólogos brasileiros mais influentes no mundo.

Como responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé, titular da cadeira responsável pelo tribunal do Santo Ofício, famoso pela perseguição religiosa representada pela Inquisição na Idade Média, Ratzinger sufocou no mundo todo a pregação da teologia da Libertação, acusando-a de ser mais fiel a Marx do que a Cristo. Além dos irmãos Boff, puniu o teólogo que os inspirou, o peruano Gustavo Gutiérrez.

Leonardo Boff conta que foi próximo e colega de estudos de Ratzinger. Certa feita, o cardeal alemão apresentou o frade brasileiro ao papa João Paulo II: "Este é um jovem teólogo latino-americano, um pouco selvagem". Boff emendou: "Venho da Floresta Amazônica, sou um selvagem por causa disso".

Em setembro de 1984, Ratzinger convocou Boff ao Vaticano para questioná-lo sobre o livro "Igreja, Carisma e Poder", obra que na visão do cardeal confrontava a cúpula da Igreja e pregava a revolução marxista. Colocou Boff, então, sentado no assento que foi ocupado pelo astrônomo Galileo Galilei, quando questionado pelo Vaticano sobre seu apoio à tese de Copérnico de que a Terra girava em torno do Sol.

Como narram os livros de Carl Bernstein e John Allen Jr., o monsenhor que levou Boff ao Vaticano fez tantas restrições e dirigiu tão perigosamente que o brasileiro gracejou: "Pretende também usar algemas?"

Ao sentar-se frente a frente com Boff, Ratzinger disse em tom irônico: "O senhor fica muito bem de batina. Deveria usá-la mais vezes", disse ao frade, que preferia roupas informais.

A principal reclamação do cardeal alemão foi de que Boff interpretara os termos redenção e salvação, na Bíblia vinculados à vida eterna, como libertação econômica e política _ numa década em que quase a totalidade da América Latina sofria com ditaduras. Boff respondeu que o marxismo era apenas uma ferramenta intelectual que colocava o sofrimento do pobre em evidência. Defendeu que a pobreza não era apenas uma situação econômica, mas também uma vivência ética, mística e teológica.

Ratzinger venceu o embate com os teólogos da Libertação, fazendo valer a supremacia dos conservadores no controle da Igreja por quase quatro décadas, só ameaçada com a ascensão de Francisco em 2013. Essa história ainda está para ser filmada.

Plínio Fraga