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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que veto do STF a missões evangélicas em aldeias revolta conservadores

Cerimônia na região da aldeia Awara, na Amazônia  -  ANTONIO SCORZA / AFP
Cerimônia na região da aldeia Awara, na Amazônia Imagem: ANTONIO SCORZA / AFP
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

05/10/2021 04h00

Desde 24 de setembro, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), vem ocupando as redes sociais das lideranças evangélicas conservadoras, dos pastores da bancada evangélica da Câmara dos Deputados e está na mira da Anajure (Associação Nacional dos Juristas Evangélicos).

Barroso determinou que, em razão da pandemia da covid-19, missões religiosas não podem entrar em terras onde estão povos indígenas isolados e de recente contato. O ministro reafirmou os termos de uma decisão tomada por ele no ano passado e ratificada pelo plenário da Corte, que já impedia a entrada de terceiros em áreas com indígenas isolados e determinava a instalação de barreiras sanitárias para evitar o ingresso de pessoas estranhas nesses locais.

Não é preciso muito esforço para compreender a razoabilidade da decisão. Até porque, a decisão busca impedir a entrada de novas missões e não compromete ou pede a retirada dos grupos que já estão instalados na aldeia.

Mas, por trás de toda indignação dos evangélicos conservadores, há muito pouco interesse nos indígenas.

A presença das missões religiosas em comunidades indígenas é —queira ou não— uma herança direta da colonização e, em muitos aspectos, mantém a sua estrutura colonial.

O fato de haver missões que estão há décadas em aldeias interfere pouco no fato de que essa presença, embora apresentada como "cuidado e cooperação", faz dela uma "posse". E a trata como tal.

É verdade que, na ponta, muitos missionários não têm essa noção. Individualmente, eles estão há tantos anos envolvidos com as aldeias em que trabalham, que o caráter de "evangelização" se dilui na relação pessoal. O missionário é muitas vezes alguém "da aldeia", um intérprete, um parceiro, um colaborador. Mas ele não é "a missão".

No Brasil, as missões "transculturais" são parte fundamental da lógica de arrecadação de ofertas e contribuições financeiras. Em muitas igrejas, os "cultos especiais de missões" ganham mais forças e estimulam mais contribuições quando a igreja apresenta suas investidas em povos de lugarejos pobres no continente africano ou o trabalho com povos indígenas.

Em muitas denominações evangélicas, a situação precária do missionário na ponta, às vezes passando necessidades junto com a própria família, contrasta com a vida confortável e de altos salários da diretoria das agência missionárias.

Gordas arrecadações de ofertas sustentam executivos nos quarteis generais, e apenas uma pequena parte do dinheiro arrecadado na igreja chega aos missionários para que eles tenham o básico. Via de regra, missionários são responsáveis por conseguir o seu próprio sustento, por meio da figura do "mantenedor", que costuma enviar recursos direto para o missionário.

A reação de muitas lideranças evangélicas conservadoras no Brasil com a decisão do ministro Barroso é emblemática da mentalidade colonial e de superioridade moral do fundamentalismo religioso."

A nota da Frente Parlamentar Evangélica, por exemplo, diz que a decisão "consiste em verdadeira perseguição e uma tentativa de impedimento das atividades missionárias junto aos povos indígenas do Brasil". A nota da bancada evangélica também define a decisão como "anticristã".

Seria admirável se o amor da bancada evangélica pelos povos indígenas se manifestasse com mais frequência diante das violações causadas por grileiros e garimpeiros, que cotidianamente usurpam terras indígenas, envenenam rios e matam lideranças indígenas que ousam denunciar perseguições.

O deputado federal Eli Borges (Solidariedade-TO) disse que Barroso trava "uma batalha contra os evangélicos. O deputado federal Marco Feliciano (PL-SP) afirmou vivermos uma "implacável perseguição religiosa" no Brasil.

Outro crítico foi o pastor Marcos Coty, que é diretor da editora Jocum (Jovens com uma Missão), uma das maiores agências missionárias do mundo, fortemente presente no Brasil desde a década de 70 e com a maior presença em meio a aldeias indígenas

Coty passou todo o dia 24 de setembro compartilhando postagens de outras lideranças conservadoras que condenavam a decisão de Barroso e a definiam como desrespeitosa e antirreligiosa. Não parecia ser o líder religioso debochado que zombou do cacique Raoni quando o indígena contraiu covid.

O exemplo de Coty é emblemático. Não há qualquer zelo com a integridade indígena. É fundamentalismo religioso puro, onde a religião é o que realmente importa. Genocídio indígena, perda de terras, assassinato por garimpeiros, grileiros e latifundiários não interessam. O que incomoda mesmo é atrapalhar a evangelização e a consequente arrecadação financeira para isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL