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Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

CPI da Covid e risco de pedalada deixam Bolsonaro emparedado

Bolsonaro está nas mãos dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (P-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) - Flickr/Palácio do Planalto
Bolsonaro está nas mãos dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (P-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) Imagem: Flickr/Palácio do Planalto
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

09/04/2021 07h34

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) precisará dar um salto triplo carpado para sair do emparedamento que a Câmara e o Senado prepararam para ele com ajuda do Supremo Tribunal Federal.

Vamos por partes, como diria o esquartejador.

O emparedamento preparado pela Câmara está na questão dos vetos ao Orçamento de 2021 aprovado pelo Congresso. Foram propositadamente subestimadas despesas e furado o teto dos gastos públicos.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, alertou Bolsonaro, publicamente, que só tem um jeito de o presidente não se tornar passível de crime de responsabilidade: vetar todo o texto do Orçamento no que se refere às despesas subestimadas e aos gastos nela baseados - e substituir tudo por um Projeto de Lei do Congresso Nacional (PLN).

O problema é que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), não aceita essa hipótese. Obrigaria o centrão a renegociar toda a distribuição de emendas dos parlamentares acertadas entre os congressistas, com cada um de seus integrantes tendo que abrir mão de um naco já conquistado da grana pública.

Lira advertiu: "Acordos têm que ser cumpridos."

Na cara dura, o presidente da Câmara lembrou que processos de impeachments no Parlamento só andam se ele der a largada. Propôs a Bolsonaro: cometa o crime que, se entrarem com pedido de impeachment, eu mato no peito e engaveto.

Ou seja, o presidente da República ficará até o final do mandato dependendo da boa vontade de Arthur Lira em manter a gaveta trancada.

O último que falou em "matar no peito" foi o atual presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux. Ele disse o mesmo ao então chefão do PT, José Dirceu, para obter a indicação do ex-presidente Lula e se tornar ministro da corte. Dirceu acreditou e deu no que deu.

Já o emparedamento preparado pelo Senado é mais direto: a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid.

Teve uma mãozinha do STF na pessoa do ministro Luiz Roberto Barroso. Foi ele quem determinou que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), instaure a CPI, que já tinha número regimental de assinaturas dos senadores para iniciar os trabalhos.

Como já disse uma velha raposa da política, o ex-presidente da Câmara Ulysses Guimarães (MDB-SP), e repetiu outra raposa, o ex-presidente do Senado Jader Barbalho (MDB-PA), a gente sabe como as CPIs começam, mas não sabemos como elas terminam. Podem murchar, mas podem virar um monstro fora de controle.

Sabemos apenas que, quando o governo está forte, em geral as CPIs perdem força e rumo. Mas quando os governos estão fracos, aí elas tomam corpo e a encrenca cresce. O ex-presidente Fernando Collor de Mello, por exemplo, teve seu impeachment deflagrado pela CPI do PC Farias. Na época, o então poderosíssimo Antonio Carlos Magalhães disse que mataria no peito.

Pois é, Bolsonaro está sendo emparedado pela Câmara e pelo Senado e com um Supremo Tribunal Federal hostil a seu mandato. Tudo isso em meio à pandemia do coronavírus que pode ultrapassar 500 mil mortos; a economia fora de controle; desemprego em disparada; e entrando nos últimos anos de seu governo.

Será que ele sai dessa?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL