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Thaís Oyama


Bebianno, que amava o capitão

Bebianno presidiu o PSL, foi advogado e coordenou a campanha de Bolsonaro - Rafael Carvalho/governo de Transição
Bebianno presidiu o PSL, foi advogado e coordenou a campanha de Bolsonaro Imagem: Rafael Carvalho/governo de Transição
Thaís Oyama Thais Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Thais Oyama

Colunista do UOL

14/03/2020 16h22

Gustavo Bebianno e Jair Bolsonaro tinham pouco em comum.

Bolsonaro é do interior de São Paulo e seu pai sustentava a família fazendo obturações e extraindo dentes, mesmo sem nunca ter estudado odontologia.

Bebianno, nascido no Rio, era filho de um industrial que teve altos e baixos na vida, mas que, nos picos, fazia questão de mandar o filho adolescente para a Europa em voos de primeira classe da Varig.

Bolsonaro deve a sua formação ao Exército. Bebianno diplomou-se advogado pela PUC-RJ e fez mestrado em finanças pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.

O advogado aproximou-se de Jair Bolsonaro como tiete. Contava que o então deputado federal chamou sua atenção pela primeira vez, em 2008, quando, num discurso em plenário, elogiou "a pureza, a inocência e a alma de criança" do recém-chegado colega Clodovil Hernandez, que dizia ser um contraponto "às velhas raposas" do Congresso. Em 2014, Bebianno passou a enviar a Bolsonaro emails de cumprimentos em que se apresentava como seu fã.

Em 2017, ao saber que o então pré-candidato à Presidência estaria num clube de golfe no Rio, correu para encontrá-lo — antes, porém, lembrou-se de imprimir as mensagens enviadas desde 2014, e jamais respondidas, como prova da antiguidade de sua admiração.

Bebianno costumava dizer que o seu primeiro ídolo na vida tinha sido o lutador de boxe Muhammad Ali e o mais recente era o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas (cuja foto ele mantinha emoldurada numa sala de sua casa no Rio). Entre esses dois ídolos, dizia, houve pouquíssimos outros. Jair Messias Bolsonaro foi um deles.

A quem perguntava ao advogado os motivos de sua admiração, ele respondia que o impressionava o "patriotismo" do ex-deputado, a quem até o rompimento tratou como "capitão" (Bolsonaro o chamava de "Gordo" — Bebianno ganhou quase 20 quilos depois que o conheceu).

Durante a campanha, o advogado citava exemplos do que considerava serem provas do caráter do chefe, como a sua preocupação com o bom uso do dinheiro arrecadado pela internet. Contava que, em diversas viagens pelo Brasil, Bolsonaro e sua equipe dormiam no carro, em postos à beira da estrada. "Ele não queria desperdiçar dinheiro que achava que as pessoas podiam ter doado com sacrifício".

A devoção de Bebianno a Bolsonaro fez com que o advogado atuasse também para livrar o chefe da ação que a deputada Maria do Rosário moveu contra ele por incitação ao estupro —e que poderia ter inviabilizado sua candidatura. Foi Bebianno ainda quem montou a estratégia (neste caso, mal-sucedida) que visava a circunscrever o escândalo Queiroz a limites e a tribunais estaduais — ou seja, longe de Brasília, do STF e do presidente eleito.

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Bebianno ficou 47 dias no governo que ajudou a montar. Saiu de lá humilhado e a pontapés.

Fustigado por Carlos Bolsonaro, foi acusado até de ter tramado o atentado que vitimou o ex-capitão em setembro de 2018 — quem o avisou que essa suspeita circulava no palácio foi o vice-presidente Hamilton Mourão. Mesmo depois disso, o advogado dizia que, em alguns momentos, Bolsonaro ainda lhe "despertava amor".

Os rumos do governo preocupavam Bebianno. Há alguns meses, ele passou a repetir a interlocutores o que dizia ser seu maior temor — o de que "por um misto de insegurança, despreparo e maus conselheiros"—, Jair Bolsonaro pudesse ceder à tentação de uma ruptura institucional. "Ninguém ali (no palácio) conhece o Jair como eu", dizia.

Gustavo Bebbiano estava escrevendo um livro sobre a sua experiência na campanha e no governo. Pensava em chamá-lo "O Primeiro Traído". Era, claro, uma referência a si próprio. Mas que serviria para antecipar uma convicção: a de que, mais do que ser desleal para com um de seus primeiros aliados, Jair Bolsonaro, ao ascender o poder, traiu 57 milhões de brasileiros.

P.S.: Com a morte de Gustavo Bebianno na madrugada de ontem, podem vir à tona dois documentos com potencial de incomodar Bolsonaro. Um é a carta que Bebianno escreveu ao presidente quando foi demitido do governo. Ele a entregou ao amigo e ator Carlos Verezza com a recomendação de que a encaminhasse ao destinatário "no momento que achasse melhor". Outro é o dossiê com informações confidenciais que, diante das ameaças de morte que recebia, o advogado disse em entrevista à Jovem Pan ter preparado e enviado para locais seguros, inclusive no exterior.

Thaís Oyama