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Thaís Oyama


O significado do cotovelo de Pujol

O presidente Jair Bolsonaro estendeu a mão, mas militares o ofereceram o cotovelo no RS - Reprodução
O presidente Jair Bolsonaro estendeu a mão, mas militares o ofereceram o cotovelo no RS Imagem: Reprodução
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

01/05/2020 12h16

A cena aconteceu durante a chegada do presidente Bolsonaro ao Comando Militar do Sul, em Porto Alegre.

Ao estender a mão para cumprimentar o general Edson Pujol, comandante do Exército, o presidente da República recebeu de volta uma "saudação de cotovelo", como recomenda a etiqueta da pandemia. Bolsonaro não escondeu a sua surpresa.

E mais desconcertado ficou ainda quando viu o gesto de Pujol ser imitado pelo segundo general que ele tentou cumprimentar ao estilo pré-coronavírus. Antônio Miotto, que deixava o posto de Comandante Militar do Sul, ofereceu ao presidente o cotovelo no lugar da mão — como fizeram todos os outros oficiais em seguida e como não poderia deixar de ser, diante da "ordem" dada pelo comandante (apenas o vice Hamilton Mourão cedeu ao cumprimento do seu superior).

No Exército, a observância da disciplina e das regras hierárquicas vale inclusive para o mundo das redes sociais. No WhatsApp, por exemplo, há grupos de generais de brigada, generais de divisão e generais de Exército — e integrantes de um não se atrevem a dar pitaco no do outro.

O mesmo se dá entre praças, integrantes do baixo oficialato e comandantes de tropas. Com exceção dos grupos de WhatsApp dos comandantes de tropa, mais heterogêneos e mais receosos da exposição, os que reúnem as duas primeiras categorias (soldados, cabos, tenentes e capitães) mostram maciço apoio às posições de Bolsonaro, incluindo as mais radicais. A ampla maioria concorda com o presidente, por exemplo, quando ele sugere que Congresso, Supremo e governadores estão unidos num plano para tolher seu direito de governar.

Já Edson Pujol, além de número um do Exército, é também o representante maior da ala legalista — e majoritária— dos generais. É o grupo mais solidamente convicto do papel que o Exército deve ter no eventual aprofundamento de uma crise institucional: a Força não existe para sustentar o mandato do presidente, mas para garantir a Constituição.

O que o comandante do Exército fez ao se recusar a abrir mão das regras sanitárias vigentes, ainda que instado pelo presidente da República, não foi uma descortesia, mas uma alegoria que reflete a escolha que fariam os generais se tivessem de optar entre Bolsonaro e a Constituição.

Thaís Oyama