PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Thaís Oyama


Sergio Moro vive seus piores dias

O ex-juiz Sérgio Moro: entre o ódio da esquerda e o fel dos bolsonarismo raiz - Andre Coelho/Getty Images
O ex-juiz Sérgio Moro: entre o ódio da esquerda e o fel dos bolsonarismo raiz Imagem: Andre Coelho/Getty Images
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

10/06/2020 11h32


A vida já sorriu mais para Sergio Moro.

O ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro de Bolsonaro enfrenta dias difíceis e quarentena dupla. Além daquela a que estão sujeitos os brasileiros e boa parte da humanidade, ele foi proibido pela Comissão de Ética da Presidência de atuar como advogado por 60 dias.

No Paraná, sua terra natal, um grupo de advogados articula a impugnação de uma eventual inscrição sua na OAB local (Moro ainda nem fez a solicitação).

E, como se fosse pouco, movimentos como o 'Juntos pela Democracia' e o "Basta" mandaram dizer ao ex-juiz que não o querem em suas fileiras. "Entrarão todos, menos os fascistas. Moro, fora. É o limite", disse o jornalista Juca Kfouri, um dos articuladores do primeiro grupo.

Para quem, até ontem, era ovacionado nos salões e aplaudido nos aviões, é uma mudança e tanto.

Moro comandou uma operação sem precedentes de combate à corrupção no Brasil e, por causa disso, foi alçado por boa parte dos brasileiros ao até então depauperado pavilhão dos heróis nacionais. Lá ele se manteve mesmo depois de episódios com potencial ruinoso para a imagem de qualquer juiz - qualquer juiz que não fosse Sérgio Moro.

A divulgação ilegal de um telefonema entre os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, pela qual o magistrado pediu escusas, foi o principal deles. O episódio rendeu a Moro uma admoestação do Supremo e uma nuvem de desconfiança sobre a sua cabeça.

Em outubro de 2018, decidiu pendurar a toga e o manto da isenção para se colocar não mais a serviço da Justiça, mas do governo de Jair Bolsonaro, de quem aceitou ser ministro. Parecia ser um negócio bem melhor para o presidente do que para o ex-juiz — terminou se mostrando ruim para os dois.

Bolsonaro responde a um processo no STF por acusações que Moro lhe fez e o ex-ministro saiu do governo para cair na fogueira. Hoje, chamusca entre o ódio da esquerda, para quem sempre foi um agente da direita, e o fel do bolsonarismo raiz, que quer riscar-lhe na testa o epíteto de Judas.

Sem cargo, sem partido, sem palanque, Moro tem como única janela de visibilidade as palestras e entrevistas que tem dado (quando deixa claro o déficit de comunicação que podem causar duas décadas de uso da linguagem vetusta da magistratura).

Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF e relator do histórico julgamento do mensalão, deixou a Corte coberto de glórias e assediado por partidos políticos desejosos de lançá-lo à Presidência. Chegou a filiar-se a um, mas nunca se empenhou de fato em virar candidato. Agora, se quiser fazê-lo, muito provavelmente não conseguirá. O tempo erodiu o capital político do magistrado.

Moro ainda arregimenta multidões e mantém o apoio inabalável dos lavajatistas. Se as eleições presidenciais fossem hoje, seria o candidato com maior possibilidade de derrotar Bolsonaro.

Mas, para manter suas chances, precisa chegar vivo a 2022.

Thaís Oyama