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Thaís Oyama

Bolsonaro e Arthur Lira, um caso de amor

O presidente e Lira: Bolsonaro encontra o seu centrão - reprodução
O presidente e Lira: Bolsonaro encontra o seu centrão Imagem: reprodução
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

18/07/2020 12h36

Quando, na aurora do seu mandato, Jair Bolsonaro ainda entoava o canto da "nova política", seu articulador no Congresso era o deputado Ônyx Lorenzoni (DEM-RS).

Como o ex-capitão, Lorenzoni emergiu diretamente dos porões do baixo clero para a ribalta do poder. Estava longe de ser um parlamentar prestigiado ou com trânsito entre seus pares.

Mas possuía duas credenciais que, aos olhos de Bolsonaro, o qualificavam para o posto: havia sido um dos primeiros colegas a acreditar que ele poderia virar presidente da República e tinha relatado e defendido o projeto de lei que ficou conhecido como "As dez medidas contra a corrupção" (a luta contra a corrupção era então uma bandeira de Jair Bolsonaro).

Os seis meses que Lorenzoni durou como articulador político do governo renderam-lhe uma coleção de insucessos, a começar pela natimorta ideia de trocar a articulação com os partidos pela negociação com as "bancadas temáticas".

A performance valeu ao gaúcho o epíteto pouco honroso de "o Mercadante de Bolsonaro" - uma referência ao ex-ministro Aloizio Mercadante, articulador político de Dilma Rousseff que fez a ex-presidente acreditar que poderia governar sem o PMDB.

Lorenzoni foi então substituído pelo general Luiz Eduardo Ramos, velho amigo de Bolsonaro, logo classificado pelo raposal do Congresso como "muito educado, mas ingênuo".

Arthur Lira levou dez partidos para dentro do governo

Ramos nunca se consolidou no posto e agora balança de novo, já que o articulador de fato do governo atende pelo nome de Arthur Lira — e este pode ser chamado de tudo menos ingênuo.

O líder do Progressistas e uma das cabeças do Centrão é réu no Supremo em uma ação por corrupção passiva, nascida na Lava Jato. No mês passado, foi denunciado à Corte pela Procuradoria-Geral da República pelo mesmo crime, em outra ação iniciada na Lava Jato.

O deputado virou um dos principais interlocutores de Bolsonaro no Congresso desde que o governo resolveu dar uma banana para a ideia da nova política. Nos últimos dois meses, passaram de duas dezenas as nomeações feitas pelo bloco do qual ele é um dos líderes para cargos relevantes no governo.

Além da ausência de ingenuidade, o alagoano é conhecido pela maleabilidade que lhe permitiu compor a base de apoio de todos os três últimos governos —o da petista Dilma Rousseff, do emedebista Michel Temer e, agora, o de Bolsonaro— e por ser o herdeiro político do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. Ex-inquilino da Papuda, hoje em prisão domiciliar, Cunha foi condenado pela Lava Jato a 15 anos de reclusão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Desde que se aproximou de Bolsonaro, Lira levou dez partidos para dentro do governo, formando uma base de mais de 200 deputados - baita refresco para um presidente que começou a ouvir a palavra impeachment já no primeiro ano do seu mandato.

Lira e Bolsonaro estão puro amor.

O presidente não quer mais ingênuos do seu lado.