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Thaís Oyama


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Sem toga e sem partido, Moro perde fôlego nas redes

O ex-ministro Sergio Moro: enquanto ele pensa na vida, Bolsonaro só pensa naquilo - Andre Coelho/Getty Images
O ex-ministro Sergio Moro: enquanto ele pensa na vida, Bolsonaro só pensa naquilo Imagem: Andre Coelho/Getty Images
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

22/07/2020 11h29

Sem toga, sem cargo e sem partido, o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro está perdendo relevância nas redes sociais.

Julho ainda não terminou, mas Moro já registra uma queda 61% no número de menções ao seu nome no Twitter em relação aos trinta dias anteriores de junho.

O levantamento, feito com exclusividade para esta coluna, é da AP Exata. Ele traz o número de publicações com o termo "Sérgio Moro" feitas na plataforma a partir de uma amostra de 145 cidades em todos os estados brasileiros:

Eis a evolução:

  • Janeiro: 197 066
  • Fevereiro: 66 152
  • Março: 51 529
  • Abril: 604 241
  • Maio: 434 314
  • Junho: 111 724
  • Julho: 42 862 (até o dia 21)

A tabela indica que, neste ano, o pico de menções a Moro no Twitter se deu em abril, quando o ex-juiz pediu demissão do governo e acusou o presidente Jair Bolsonaro de tentar interferir nos trabalhos da Polícia Federal.

No mês seguinte, maio, as citações ao nome do ex-ministro ainda foram altas (434 314), mas despencaram em junho (111 724), e agora ficaram abaixo dos números registrados nos dois meses que antecederam a sua saída da pasta da Justiça (a consultoria atribui o alto número de citações ao juiz registrado em janeiro, 197 066, à sua participação no programa Roda Viva, da TV Cultura).

Oratória fria e inimigos poderosos: obstáculos para um eventual candidato Moro

Desde que deixou o ministério da Justiça, Moro repete em entrevistas que quer "participar do debate público", mas que não pensa, "no momento", em candidatar-se à Presidência da República ou a qualquer outro cargo eletivo em 2022.

Caso o momento mude, ou mude Moro de ideia, o ex-juiz enfrentará alguns problemas para se tornar um candidato competitivo.

A oratória fria e engessada que lhe legaram os anos na magistratura é um deles — não empolga e não funciona para o palanque.

Tampouco ajuda o ex-juiz o fato de seu nome estar associado a uma única bandeira — a luta contra a corrupção continua relevante, mas não sustenta sozinha uma campanha.

Por fim, há que se levar em conta a quantidade de inimigos poderosos que Moro amealhou ao longo da sua atuação na Lava Jato: políticos, empresários e também advogados — estes últimos são os que mais têm feito questão de mostrar publicamente seu desapreço àquele que foi o algoz de tantos e graúdos clientes da turma do primeiro time.

Bolsonaro a todo vapor

"Eu saí do governo e não posso voltar para a magistratura", afirmou Sergio Moro em entrevista no início deste mês. "Vou ter que me reinserir, vou ter que me reinventar", disse.

A opção a se "reinserir" e a se "reinventar" é cair no esquecimento, como ocorreu com o também ex-magistrado do STF e ex-presidenciável Joaquim Barbosa.

Enquanto Moro medita sobre o que fazer da vida, o presidente Jair Bolsonaro só pensa naquilo.

Por meio dos ministérios da Cidadania e do Desenvolvimento Social, Bolsonaro prepara-se para lançar um programa de ações dirigidas ao semiárido nordestino, por ora batizado de "Sertão Forte".

Não por coincidência, a região Nordeste tem a maior concentração das classes D e E, as maiores beneficiárias do auxílio emergencial de 600 reais distribuído pelo governo federal e hoje as principais responsáveis pela sustentação da popularidade do presidente.

Bolsonaro tem a máquina e está decidido a partir para a reeleição.

Moro, por enquanto, não tem nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Thaís Oyama