PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Thaís Oyama


Thaís Oyama

As três prioridades de Bolsonaro

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

20/07/2020 13h04Atualizada em 20/07/2020 18h03

Jair Bolsonaro não governa, é governado por suas ideias fixas.

Mas tirando essas ideias, muito caras para ele, o presidente pode se mostrar inquieto e dispersivo ao tratar de outros assuntos.

Se uma conversa o entedia, ele não leva mais do que alguns minutos para "entrar no modo off", como diz um interlocutor (costumam direcionar o presidente para esse estado assuntos como, por exemplo, a reforma tributária e o marco do saneamento básico).

Mas quem quiser garantir a atenção do ex-capitão tem alternativas.

Segundo assessores do Planalto, são três as pautas que mais entusiasmam Bolsonaro hoje no Congresso:

1. a manutenção da carteirinha digital para estudantes;

2. a dispensa da publicação de balanços de empresas nos jornais;

3. a votação da MP do futebol.

Em comum, os três assuntos têm, na visão do presidente, o poder de atacar ou enfraquecer seus "inimigos".

Alfinetada na UNE

A Medida Provisória da carteirinha digital, baixada em setembro no ano passado, permitiu aos estudantes tirar o documento pela internet e sem a intermediação de entidades estudantis. A carteirinha é usada, entre outras coisas, para garantir o pagamento de meia entrada para estudantes nos eventos do circuito cultural.

Quando a MP caducou, em fevereiro deste ano, Bolsonaro gravou uma live contrariado: "A UNE deve estar vibrando, vibrando".

A União Nacional dos Estudantes, uma das entidades que ganha dinheiro com a emissão da carteirinha, é historicamente ligada ao PC do B - inimigo figadal de Bolsonaro desde que ele era deputado. Mas o presidente não desistiu de acabar com a boquinha da UNE - a iniciativa virou projeto de lei e está à espera de votação na Câmara.

"Retribuição" a ataques da imprensa

Tampouco quando baixou a MP que dispensava empresas da publicação de balanços nos jornais Bolsonaro se preocupou em esconder suas motivações. Pela medida, os balanços empresariais, também uma fonte de renda relevante sobretudo para periódicos do interior, passariam a ser publicados sem custos no Diário Oficial.

Nas palavras do presidente, a iniciativa seria uma "retribuição" à maneira como a imprensa o tratou na campanha ("Toda a mídia o tempo todo esculachando a gente. Racista, fascista e seja lá o que for. No dia de ontem, eu retribuí parte daquilo que grande parte da mídia me atacou", disse em agosto do ano passado). A MP que desobriga as empresas de pagar jornais para publicar seus balanços também perdeu a validade, mas o presidente já disse que pretende reapresentá-la neste ano.

Futebol, dinheiro e TV Globo

A terceira pauta favorita de Bolsonaro no Congresso é a MP do Futebol, que entrou em vigor há pouco, mas ainda precisa ser apreciada pelos parlamentares para não perder a validade, como ocorreu com as outras.

A medida altera a forma como os times de futebol podem negociar os direitos de transmissão de suas partidas e é defendida por diversos clubes. Mas tem como pano de fundo a declarada guerra de Bolsonaro contra a TV Globo, principal afetada pela iniciativa.

Bolsonaro acredita que as três medidas são boas para o país - mas tem um prazer extra e perverso em saber que elas são sobretudo ruins para os seus "inimigos".

O confronto é a natureza e o combustível do ex-capitão, o que não é necessariamente apenas ruim.

Ainda que movida pelo gatilho do ataque (ou do "contra-ataque", como prefere Bolsonaro), a personalidade bélica do presidente poderia ajudar a impulsionar o seu governo, e o país, para frente.

A questão é que os problemas do Brasil são outros - e bem maiores do que as pequenas ideias fixas de Bolsonaro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Thaís Oyama