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Thaís Oyama

Paulo Guedes está cada dia mais parecido com Bolsonaro

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes: unidos na desorientação - SERGIO LIMA/AFP
Jair Bolsonaro e Paulo Guedes: unidos na desorientação Imagem: SERGIO LIMA/AFP
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

30/09/2020 11h23

Paulo Guedes chegou ao governo como o mago que transformou o estatista-corporativista Jair Bolsonaro em um liberal de nascença.

Aos poucos, foi ficando claro que a varinha de condão do ministro tinha poderes limitados.

Ela falhou, por exemplo, na tentativa de encantar o presidente com o projeto de reforma da Previdência - Bolsonaro fez corpo mole no processo, Guedes saiu dele insatisfeito e nunca se conformou com a derrota do seu plano de capitalização nos moldes chilenos.

Mais tarde, o Posto Ipiranga assistiu em silêncio ao governo dinamitar seu projeto de reformas. A administrativa, em especial, Bolsonaro empurrou o quanto pôde com a barriga. Já a tributária, quando finalmente saiu, acabou sem outra das obsessões de Guedes, a nova CPMF.

Com a pandemia e as ambições eleitorais do chefe, o ministro viu as burras do Tesouro se esgarçarem de vez. Em uma de suas derrotas mais doloridas, assistiu ao Congresso aprovar o projeto de ajuda financeira a estados e municípios com uma única contrapartida, a do congelamento dos salários do funcionalismo público até 2021 - regra que o próprio Executivo agora vive tentando driblar.

A tudo isso Guedes assistiu calado.

Diante do imperativo de criar o Bolsa-Família-do-Bolsonaro, porém, o ministro mudou de comportamento.
No lugar de apenas resignar-se, passou a agir de forma proativa para burlar os seus próprios princípios.

Tendo tomado pito público porque as primeiras alternativas apresentadas para financiar o programa "tiravam do pobre para dar ao paupérrimo", o ministro resolveu propor uma marotagem na forma de calote no pagamento dos precatórios.

O mercado, seu maior aliado, respondeu na hora e com um mau-humor tamanho que o secretário do Tesouro, Bruno Funchal, já fala em risco de rebaixamento do Brasil nas agências de classificação de risco.

Bolsonaro quer fazer sua omelete sem quebrar nenhum ovo.

E, para isso, o seu ministro da Economia já está topando qualquer coisa.

Começa a crescer a impressão de que a mágica deu errado.

A varinha de condão de Guedes não apenas falhou em converter Bolsonaro, mas está fazendo o mago ficar cada dia mais parecido com ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.