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Thaís Oyama

A boa vida de Ricardo Salles em Fernando de Noronha

Fernando de Noronha: o ministro já visitou o arquipélago três vezes desde que assumiu a pasta - iStock
Fernando de Noronha: o ministro já visitou o arquipélago três vezes desde que assumiu a pasta Imagem: iStock
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

30/10/2020 11h06

O ministro Ricardo Salles gosta de ir a Fernando de Noronha.

Já visitou o arquipélago três vezes desde que assumiu a pasta, sempre em missão oficial.

Esteve lá em julho de 2019 e em março deste ano. Na última quarta-feira, retornou às vésperas do feriado de Finados à região que é um dos pontos turísticos mais idílicos do Brasil.

Sempre que vai para lá, o ministro do Meio Ambiente aproveita o tempo entre um compromisso e outro para espairecer. Em março, visitou o arquipélago acompanhado do filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro, por sua vez acompanhado da mulher, Fernanda Antunes Figueira. Durante a estada, o grupo encontrou tempo para ir à praia, pescar e prestigiar um festival gastronômico na pousada Zé Maria.

Desta vez, como relatou a revista Crusoé, o ministro do Meio Ambiente terminou seu primeiro dia de trabalho num bar à beira-mar onde ficou por quase cinco horas tomando vinho branco com amigos — ocasião em que, segundo afirma, um hacker invadiu seu aparelho celular para chamar Rodrigo Maia de "Nhonho". A ação criminosa só foi percebida pelo ministro quando ele despertou na manhã seguinte. Ato contínuo, pediu providências à Abin para encontrar o responsável pela postagem feita por "alguém que usou indevidamente" sua conta no Twitter para provocar o presidente da Câmara, mencionando o apelido que seus desafetos bolsonaristas mais gostam de usar.

A comitiva do ministro em Fernando de Noronha inclui seus amigos Gilson Machado, Marcelo Álvaro Antonio e Jorge Seif — o primeiro, presidente da Embratur e sanfoneiro; o segundo, ministro do Turismo; e o terceiro, secretário da Pesca e presença assídua nas lives que o presidente Jair Bolsonaro faz às quintas-feiras, quando aproveita para falar de seu assunto preferido, a pesca de tilápias.

Salles tratou de levar ainda o presidente do ICMBio, Fernando César Lorencini, e mais cinco assessores, incluindo uma coordenadora de cerimonial, embora na alegre e informal Fernando de Noronha ninguém costume fazer muita cerimônia.

O grupo viajou em jato da FAB e ficou hospedado na Pousada Morena, famosa por oferecer uma das mais belas vistas da região. Tem piscina de borda infinita, banheira de hidromassagem no alto da montanha e diárias a partir de 1 840 reais, mas o preço básico já sai duplicado, porque a pousada só aceita reservas de no mínimo dois dias, o que talvez tenha convencido o ministro a prorrogar sua estada.

Até o episódio da terrível invasão hacker em seu celular, o ministro Salles planejava deixar a Pousada Morena só na segunda-feira, dia de Finados. A ideia era emendar um feriado no outro, já que, graças a um decreto de última hora expedido pelo governo, o feriado do Dia do Servidor, que cairia na quarta-feira, foi transferido para esta sexta.

Um dia antes de Salles embarcar para Noronha, a Justiça Federal adiou a análise do pedido para o seu afastamento do cargo. A petição foi feita em julho pelo Ministério Público Federal, que alega estar o ministro promovendo o desmonte das estruturas de proteção ao meio ambiente. "A permanência do requerido Ricardo Aquino Salles no cargo de Ministro do Meio Ambiente tem trazido, a cada dia, consequências trágicas à proteção ambiental, especialmente pelo alarmante aumento do desmatamento, sobretudo na floresta amazônica", diz o MPF.

A nova data para o julgamento do afastamento do ministro está marcada para 3 de novembro.

Salles só faz o que presidente Bolsonaro manda.

Assim, pouco irá mudar para as florestas, as restingas e os mangues se ele cair ou for afastado.

Talvez apenas a Pousada Morena se ressinta da sua ausência. Passear em Fernando de Noronha com dinheiro do próprio bolso sai caro para um desempregado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.