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Thaís Oyama

REPORTAGEM

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Da prisão, deputado diz à Câmara que só "aceitará" dois meses de suspensão

O deputado e ex-PM problema Daniel Silveira: ele terá de segurar sozinho o abacaxi que plantou - Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados
O deputado e ex-PM problema Daniel Silveira: ele terá de segurar sozinho o abacaxi que plantou Imagem: Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

18/02/2021 10h16

Por meio de dois colegas que foram visitá-lo ontem na carceragem da Polícia Federal no Rio de Janeiro, o deputado Daniel Silveira mandou um recado para o presidente da Câmara, Arthur Lira: só "aceita" no máximo dois meses de suspensão do seu mandato.

Silveira soube pelos visitantes que o comando da Câmara dos Deputados havia considerado gravíssimo o episódio em que ele se meteu ao divulgar um vídeo com ameaças e impropérios a membros do Supremo Tribunal Federal, corte em que estão penduradas várias excelências, a começar pelo próprio Lira, duas vezes réu no tribunal.

O deputado preso ouviu dos colegas que, mediante essa avaliação, líderes parlamentares se viam na obrigação de dar uma satisfação aos magistrados, e que essa satisfação implicaria a sua punição pelo Conselho de Ética da Casa.

Foi a partir daí que Silveira deu seu "ultimato": dois meses de suspensão e nada mais.

Não ocorreu ao deputado que o comando da Câmara não está nem um pouco preocupado com o seu destino e que ele nada tem a oferecer a seus pares numa eventual tentativa de acordo. Uma liderança parlamentar, informada sobre o "prazo" exigido por Silveira, afirmou: "Ah, é? Então vamos dar a ele a cassação. Não negociaremos com marginal".

Daniel Silveira chegou ao Congresso tracionado pela onda Bolsonaro, que em 2018 transformou o ex-nanico PSL na segunda maior bancada da Câmara.

Dos 54 deputados eleitos pelo então partido do presidente, 45 eram marinheiros de primeira viagem. Desses, 15 eram policiais ou ex-policiais, caso de Silveira, um ex-soldado problema da Polícia Militar, com 60 transgressões disciplinares no currículo. Um exemplo delas, segundo relato de um amigo: "Quando, em determinada época, o salário na PM começou a atrasar, o Daniel simplesmente faltava no serviço: 'enquanto o Estado não me pagar, não trabalho', ele dizia".

No STF, Daniel Silveira teve a prisão (mesmo com duvidosa fundamentação de flagrância) confirmada ontem por unanimidade.

Na Câmara, o que o seu comando mais quer é livrar-se do abacaxi que o deputado criou, não importando se para isso for necessário defenestrá-lo junto.

Daniel Silveira é doido de pedra e uma ameaça real às instituições. Assim como a extremista Sara Winter, espreitam-no o ostracismo e o abandono por seus pares.

E bobo dele se achar que o clã Bolsonaro virá em seu socorro.