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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que muda e o que não muda com Braga Netto e as trocas de comando militar

 Walter Braga Netto: como novo ministro da Defesa, o general é uma incógnita - ADRIANO MACHADO
Walter Braga Netto: como novo ministro da Defesa, o general é uma incógnita Imagem: ADRIANO MACHADO
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

06/04/2021 12h16

O Exército tem só 16 generais quatro estrelas na ativa.

Para efeito de comparação, o posto imediatamente inferior, o dos generais de divisão, tem 47 nomes; e o anterior, o dos generais de brigada, quase cem.

Para chegar ao seleto clube dos generais quatro estrelas, ou de Exército, passa-se por um filtro apertado. O candidato a integrante da elite da Força, além de ter de apresentar resultados melhores que os colegas nas avaliações a que os oficiais são submetidos duas vezes por ano, precisa cumprir certas exigências não escritas, mas não menos importantes. Algumas delas: ter experiência como instrutor em escolas da Força, ter servido em diversas regiões do Brasil, ser bem conceituado entre os seus pares e ter uma vida pessoal sem grandes turbulências (casamentos estáveis contam).

Sendo as exigências tão rígidas e imutáveis, é natural que os que passam pelo filtro sejam muito parecidos entre si.

Essa homogeneidade já rendeu piadas e lendas. Uma delas diz que, na época da passagem do regime militar para o democrático, Tancredo Neves, já escolhido pelos militares para conduzir a transição, procurou o então comandante do Exército do governo João Figueiredo, Walter Pires, para perguntar-lhe que general deveria escolher para sucedê-lo na Força. Pires teria respondido ao mineiro que escolhesse qualquer um. "Todos pensam igual", afirmou o militar (o resto da piada não interessa aqui, mas diz que Tancredo, por não acreditar em conselhos, acabou escolhendo para o posto Leônidas Pires Gonçalves justamente por ser ele o "menos igual" dos generais).

Paulo Sérgio Oliveira, substituto de Edson Pujol no comando do Exército, é um general quatro estrelas tão igual quanto o seu antecessor e os generais do Alto Comando - todos forjados nas mesmas escolas, adeptos dos mesmos princípios e promovidos ao posto pelos mesmos critérios.

Pujol caiu em desgraça junto ao presidente Jair Bolsonaro por ter se recusado a colocar o Exército a serviço do governo, no que teve o apoio de seu chefe imediato, o ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva. Nada indica que o general Paulo Sérgio, que agora substitui Pujol, pense diferente dele.

Do lado do Exército, portanto, é altamente improvável que a relação com o governo vá mudar a partir da troca de comando. Já do lado do governo, será preciso pagar para ver.

O ministro Braga Netto, que substitui Fernando Azevedo e Silva na pasta da Defesa, foi para a reserva em março do ano passado, depois de assumir a chefia da Casa Civil. É tido como mais carismático, mais "líder" e até mais próximo do Exército que o seu antecessor. Ainda assim, colegas do general, da reserva e da ativa, não põem a mão no fogo por ele. Sabem que Braga Netto deixou a farda do lado de fora do Palácio do Planalto e agora é um político. E de políticos não se espera que sigam cartilha alguma, apenas o rumo dos ventos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL