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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro chuta o pau da barraca porque sabe que assim anima a plateia

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

12/04/2021 12h21

Jair Bolsonaro sempre foi movido a confronto. Foi na base do grito que ele conseguiu visibilidade quando era deputado no Congresso, foi na radicalização contra o PT que se elegeu presidente e é a compulsão por tocar fogo no parquinho (ou atirar contra o "sistema", como preferem bolsonaristas) o que o ajuda a manter sua popularidade na casa dos 20% a 30% até hoje.

Bolsonaro não queria CPI da Covid nenhuma. Sabe que, alvejado Eduardo Pazuello, o próximo a entrar na alça de mira da comissão é ele. Mas, a partir do momento que a investigação se mostrou inevitável, resolveu fazer "do limão uma limonada", como disse na conversa divulgada pelo senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO).

A provável instalação de uma CPI destinada a investigar também a atuação dos estados e municípios no combate à pandemia — e não apenas os erros e desmandos do governo federal a partir da calamitosa gestão do ex-ministro da Saúde, o general Pazuello— já produziu o efeito concreto de reanimar a militância do presidente nas redes sociais.

Ela andava combalida e sem discurso depois da demissão do bolsonarista-raiz Ernesto Araújo e do afastamento dos três comandantes da Forças Armadas —que deixou nítido o distanciamento do presidente dos militares. Agora, se empolga novamente — a hashtag #VouPraGuerraComBolsonaro foi uma das que amanheceu em alta.

Nada como um inimigo para juntar a tropa.

Na conversa que o senador Kajuru teve com o presidente, um nome teve especial destaque, o do ministro do STF Alexandre Moraes. Kajuru ganhou os parabéns do presidente quando o informou de que já havia ingressado com pedido no STF para obrigar o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, a pautar a votação do afastamento de Moraes.

Em maio do ano passado, o antecessor de Pacheco, Davi Alcolumbre, foi fortemente pressionado pelo governo a submeter ao plenário da Casa um pedido de impeachment do ministro responsável por impedir a posse do delegado Alexandre Ramagem na diretoria da Polícia Federal e determinar a abertura do inquérito das fake news, que envolve aliados de Bolsonaro. Alcolumbre se negou a dar prosseguimento ao pedido.

Agora, Bolsonaro tem uma nova oportunidade de entrar em confronto com o STF em geral e Moraes em particular — e não parece disposto a desperdiçá-la. Ainda que sejam ínfimas suas chances de obter o que deseja, sabe que a gritaria por uma cabeça a ser pendurada no poste já fará o gáudio da galera.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL