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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Na contramão do mundo, Brasil será o saco de pancadas da Cúpula do Clima

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

19/04/2021 13h09Atualizada em 19/04/2021 15h41

Daqui a quatro dias, 40 líderes mundiais se reunirão para, a convite do presidente americano, Joe Biden, discutir ações conjuntas para preservar o meio ambiente.

No encontro, o Brasil estará representado por um ministro que há dez dias defendeu um grupo de madeireiros implicados na maior apreensão de toras da história do país.

Em dezembro do ano passado, a Polícia Federal impediu o embarque de 131 mil metros cúbicos de madeira em tora na divisa dos estados do Pará e do Amazonas — o equivalente a mais de 6.000 caminhões lotados de carga.

Na semana passada, Salles disse que a operação policial "demonizava" os madeireiros e o superintendente da PF na região, Alexandre Saraiva, foi defenestrado do cargo por criticar a atitude do "antiministro do Meio Ambiente", como o chamou o vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PL-AM).

A pauta ambiental é prioridade do mundo civilizado, o Brasil está na contramão dela e será espancado no encontro que começa na quinta-feira.

É certo que a política incendiária do governo Bolsonaro prejudica antes de tudo os brasileiros. O Acordo Mercosul-União Europeia — que na aurora da nova administração foi celebrado como um tratado com potencial para, em quinze anos, aumentar em 5% o PIB nacional— hoje está por um fio. É pule de dez que nenhum parlamento europeu irá votar a favor de um acordo que envolva o presidente brasileiro — o "BolsoNero" dos trópicos, o Idi Amin Dada da América Latina.

É certo também que a obtusidade de Bolsonaro em relação à irreversibilidade dos prejuízos causados pelo manejo irresponsável das florestas justifica a preocupação dos governantes do mundo com o risco de o Brasil emporcalhar o ar do planeta e contribuir para a extinção de recursos naturais dos quais bem mais gente, além de Bolsonaro e sua família, depende.

Mas a política de Bolsonaro não prejudica todo mundo —também ajuda muita gente.

O presidente brasileiro é hoje o que na diplomacia se convencionou chamar de "easy target" (alvo fácil) — em outras palavras, alguém fácil e bom de bater.

Nos Estados Unidos, no campo das relações externas, embora Joe Biden esteja muito mais preocupado com a China e a Rússia, além da Coreia do Norte e Irã, é preciso lembrar que sua eleição foi alavancada pela pauta ambiental e com ela o democrata pretende deixar sua marca de governo — assim, endurecer com o Brasil de Bolsonaro é a forma mais imediata de ele mostrar serviço.

Da mesma forma, Emanuel Macron, na França, só tem a ganhar quando ergue a voz contra as atrocidades ambientais do presidente brasileiro: recupera popularidade em casa, marca pontos juntos aos agricultores ressentidos com ele e ganha munição para enfrentar os Verdes, que impuseram uma fragorosa derrota ao seu partido nas eleições municipais do ano passado. Ao encarnar o Satã do meio ambiente, portanto, Bolsonaro legitima aqueles que por interesses outros, que não necessariamente ambientais, levam vantagem com a degradação da imagem do Brasil.

Assim, nesta quinta-feira, o Brasil que se apresentará na Cúpula do Clima não será só o já consagrado pária mundial. Graças a Bolsonaro e Ricardo Salles, ele será alçado, também e merecidamente, ao posto de saco de pancadas do mundo — um país daqueles bons de pagar o pato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL