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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Os mortos também falam: Bolsonaro pode ter feito 41 milhões de inimigos

Medeiros e Bolsonaro: dias antes de morrer, advogado acusou o deputado e o presidente pelas mortes da covid-19 - Reprodução
Medeiros e Bolsonaro: dias antes de morrer, advogado acusou o deputado e o presidente pelas mortes da covid-19 Imagem: Reprodução
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

26/05/2021 10h58

Em áudio que circula desde a semana passada na internet, o advogado José Roberto Feltrin, de 55 anos, chora: "Eu acho que eu não vou aguentar. Eu estou mal pra caramba. Tá feio, cara. A culpa é desse "capitão bunda suja" que não comprou vacina (...) Eu acho que eu estou com covid". Feltrin morreu da doença no último dia 18. Tinha sido assessor do deputado bolsonarista José Medeiros (Podemos-MT), a quem também responsabilizou pelo avanço da covid-19 no país.

Enquanto taxou a pandemia de "histeria" e "gripezinha", defendeu o uso de cloroquina, promoveu aglomerações e ignorou o uso de máscaras, Bolsonaro foi chamado de "negacionista".

Mas, desde dezembro do ano passado, quando a vacina chegou para boa parte do mundo e o Brasil ficou para trás, cada nova morte por covid-19 passou a suscitar a mesma dúvida: ela teria acontecido se a vítima tivesse tomado a vacina?

Ou, como disse o advogado Feltrin dias antes de morrer: "Esse cara vem sabotando essas vacinas desde o início. Já era pra ter vacina pra nós, para pessoas da minha idade, e não tem".

"Esse cara", claro, é Bolsonaro.

Um estudo recente publicado pela Proceedings of the National Academy of Sciences, revista oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, mostra que cada morte por coronavírus impacta em torno de nove pessoas.

Os pesquisadores incluíram na conta apenas familiares próximos da vítima - pais, irmãos, cônjuges e filhos. Caso levassem em conta o impacto da perda também em amigos, colegas e parentes mais distantes do morto (como primos, tios e sobrinhos), o número de pessoas atingidas por cada morte por coronavírus chegaria a pelo menos 90, afirma um dos autores do estudo, o sociologista e demógrafo Ashton Verdery.

Aplicada ao Brasil, a fórmula indica que as mais de 452 000 mortes por covid-19 registradas até o momento afetaram, em maior ou menor grau, 41 milhões de pessoas.

Isso é quase 20% da população brasileira.

Não por coincidência, Bolsonaro vive seu pior momento nas pesquisas de opinião. Segundo o último Datafolha, divulgado no último dia 13, a aprovação ao seu governo caiu de 30% para 24% desde março. É o índice mais baixo de todo o mandato do ex-capitão.

E isso porque a CPI da Covid, que o governo achava que "daria em nada", mal começou.

Os mortos também falam, e o que eles dizem é que a conta está chegando para Bolsonaro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL