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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fabulações de Bolsonaro trazem aos brasileiros, além de vergonha, prejuízo

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

21/09/2021 13h00

É fácil um presidente se convencer de que mentiras são verdades quando dessas mentiras depende a sua sobrevivência política.

No discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, Jair Bolsonaro mostrou estar convencido das próprias fabulações. Diante de uma plateia de líderes mundiais, o presidente afirmou, entre outras falas autocongratulatórias, que o Brasil, sob seu governo, teve "a credibilidade recuperada diante do mundo" e tornou-se "um dos melhores destinos para o investimento estrangeiro".

Se o presidente tirou isso da própria cabeça, é preciso perguntar onde estavam os assessores que tinham o dever de corrigi-lo e não o fizeram.

A crise de reputação do Brasil (que é o contrário de "conquista de credibilidade") é visível e gritante para qualquer um que tenha contato com estrangeiros, mas, em caso de dúvida, pode ser confirmada também por números.

Levantamento divulgado em fevereiro pela consultoria de gestão de imagem Curado & Associados mostrou que 92% de 1.179 textos publicados nos sete veículos estrangeiros mais relevantes do mundo ao longo de 2020 foram desfavoráveis ao governo brasileiro, cujo mandatário foi classificado como "incompetente", "vulnerável" e "irresponsável".

Isso é o exato oposto de ter a "credibilidade recuperada diante do mundo".

Da mesma forma, ao afirmar que o Brasil se tornou "um dos melhores destinos para o investimento estrangeiro", Bolsonaro só provou ser invulnerável à realidade.

O Brasil foi o país da América Latina que teve a maior queda de investimentos estrangeiros em 2020, segundo o Monitor de Tendências de Investimentos Globais divulgado em junho pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

A pandemia prejudicou os investimentos em todos os países da América Latina, mas foi o Brasil que levou o tombo maior — o que não surpreende, dado que nenhum vizinho tem um presidente com 136 pedidos de impeachment no Congresso e que, dia sim, dia não, ameaça suspender as eleições no país.

A instabilidade política é o melhor instrumento para afugentar investidores e, por consequência, a mais eficiente forma de autoflagelo que um governo pode se impor.

O baixo volume de investimentos faz a circulação do dólar diminuir, o que deprecia o real e empurra os preços para cima. A inflação alta força o aumento dos juros, que, por sua vez, aumenta o endividamento do país e o problema fiscal — novamente afugentando investidores.

Não ajuda a quebrar esse ciclo negativo e sem fim um mandatário que sobe ao palco da ONU para envergonhar seu país dizendo coisas sem pé nem cabeça.

Que Bolsonaro precisa de mentiras para sobreviver é sabido. Mas se resolveu usá-las diante do mundo com o propósito de "promover" o Brasil, tudo o que conseguiu foi provar que, como vendedor, é um ótimo presidente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL