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Vicente Toledo

A duas semanas da eleição, vitória de Joe Biden é cada vez mais provável

Vicente Toledo

O jornalista Vicente Toledo começou sua carreira em 2000 no UOL, onde foi redator, repórter, vídeo reporter, apresentador e editor assistente. Participou das coberturas especiais da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, das Eleições Presidenciais, em 2006, e dos Jogos Pan-Americanos de 2003, em Santo Domingo, e 2007, no Rio de Janeiro, dentre outros grandes eventos. Apresentou programas da TV UOL como a "Tabelinha", com Juca Kfouri, e o "Pit Stop", com Fábio Seixas. Após 12 anos como editor na Microsoft, incluindo passagens por Canadá e Estados Unidos, retorna ao UOL para contribuir com a cobertura das eleições presidenciais norte-americanas.

Colunista do UOL

20/10/2020 06h44

Faltando duas semanas para as eleições nos Estados Unidos, a vitória de Joe Biden sobre Donald Trump é cada vez mais provável. A média das pesquisas nacionais calculada pelo jornal "The Washington Post" mostra o ex-vice presidente com 11 pontos de vantagem sobre o atual presidente: 54% a 43%.

O candidato do Partido Democrata também lidera as pesquisas em estados decisivos para a disputa no Colégio Eleitoral, com caminho aberto para alcançar os 270 votos que garantem a Presidência. Mais que isso, a preferência por Biden tem sido consistente ao longo da campanha.

Trump tem que mudar a dinâmica da corrida em menos de 15 dias, mas é incapaz de fazer algo diferente do que o levou a vitória em 2016. E a decisão de continuar fazendo comícios para milhares de pessoas em meio à pandemia do coronavírus, pouco depois do próprio Trump e sua família contraírem a doença, não o ajuda em nada com os eleitores indecisos e independentes de que precisa para evitar a derrota.

Mas depois do que aconteceu em 2016, quando Hillary Clinton também aparecia como favorita às vésperas da eleição contra Donald Trump, o cenário atual não traz boas lembranças para os democratas. Dessa vez, porém, a chance de uma virada na reta final é mais remota.

Ataques a Biden não colam como contra Hillary em 2016

A principal e mais óbvia diferença entre as duas eleições é que Joe Biden não é Hillary Clinton. O ex-vice presidente é uma figura popular e carismática, enquanto a ex-primeira-dama tinha alto índice de rejeição. Segundo o site "Real Clear Politics", a parcela média do eleitorado que apoia Biden no mês de outubro é de 51.3%, enquanto Hillary Clinton tinha 48% nesta mesma época em 2016.

Joe Biden, candidato do Partido Democata à presidência, durante campanha no estado de Delaware - Kevin Lamarque/Reuters - Kevin Lamarque/Reuters
Joe Biden, candidato do Partido Democrata, lidera pesquisas a duas semanas da eleição nos EUA
Imagem: Kevin Lamarque/Reuters

O efeito prático disso é que os ataques de Donald Trump e seus aliados contra Joe Biden não têm o mesmo efeito que tiveram contra Hillary Clinton. A campanha do presidente não conseguiu encontrar um escândalo que colasse em Biden como os e-mails de Hillary em 2016.

Alguns ataques até saíram pela culatra, como a pressão sobre o governo da Ucrânia para investigar negócios de Hunter Biden, filho do ex-vice presidente, com uma empresa de gás do país. Trump sofreu impeachment por isso e só não foi afastado do cargo graças aos colegas republicanos no Senado.

Também não pegaram bem as críticas ao caráter de Hunter Biden, por seu histórico de problemas com drogas, e à capacidade mental de Joe Biden por sua idade avançada, afastando parte do eleitorado mais velho que votou em peso a favor do presidente em 2016.

Trump faz o contrário do que precisa para conquistar indecisos

Quatro anos depois, Donald Trump continua fazendo basicamente a mesma campanha, apesar de agora ser o presidente. Nem mesmo a infecção pelo coronavírus, que atingiu sua família e dezenas de aliados próximos, foi capaz de mudar sua estratégia eleitoral.

Ao continuar desafiando cientistas como o dr. Anthony Fauci, principal especialista em doenças infecciosas do governo americano a quem chamou de "desastre", e fazendo comícios para milhares de pessoas, potencialmente espalhando coronavírus por onde passa, Trump faz exatamente o contrário do que a maioria dos eleitores indecisos e independentes apoiam.

Dobrando a aposta, o presidente leva seus fãs ao delírio e agrada a quem sempre esteve ao seu lado, mas não apela para outras fatias do eleitorado que poderiam recolocá-lo na disputa. É uma estratégia que desafia a lógica. "Hoje é o dia de minhas duas campanhas em que mais confio na vitória. Nós vamos vencer. Eu não teria dito isso há duas, três semanas", afirmou nesta segunda-feira.

Ao mesmo tempo em que tenta mostrar otimismo, Trump já prepara o terreno para a derrota ou para contestar o resultado da eleição na Justiça. "O único jeito que vamos perder esta eleição é se ela for fraudada", disse sem nunca ter apresentado qualquer evidência de fraude eleitoral.

Entusiasmo do eleitorado, apesar da pandemia, favorece Biden

Enquanto isso, mais de 25 milhões de pessoas já votaram, pessoalmente ou pelo correio, com uma ampla maioria de eleitores do Partido Democrata. O alto volume de votação antecipada é uma boa notícia para a campanha de Joe Biden, que incentiva a participação em massa do eleitorado como forma de conquistar novos votos e ampliar sua base de apoio (o voto nos Estados Unidos não é obrigatório).

Na Pensilvânia, um dos estados mais importantes da eleição, mais de 500 mil eleitores democratas já enviaram seus votos pelo correio, contra apenas 116 mil republicanos. E as longas filas para votar em estados como a Carolina do Sul, Carolina do Norte e Geórgia, com grande população negra, indicam que regiões vistas como redutos republicanos podem estar ao alcance de Biden.

Mantida essa alta tendência de participação nas próximas duas semanas, Joe Biden certamente vencerá a eleição no voto popular por uma margem superior aos 3 milhões de vantagem obtidos por Hillary Clinton em 2016. O que não garante que ele será o próximo presidente.

Caminho de Biden para 270 votos no Colégio Eleitoral é mais fácil

Quem elege o presidente dos Estados Unidos é o Colégio Eleitoral, composto de 538 eleitores distribuídos pelos estados do país de acordo com sua população. O candidato que vence a eleição em um determinado estado conquista o apoio do número de eleitores correspondentes (com algumas exceções). Ganha a presidência quem alcançar 270 votos.

Como em muitos estados o eleitorado é predominantemente Democrata ou Republicano, alguns poucos estados em que não há clara preferência partidária ganham importância maior na decisão sobre quem será o presidente. Foi assim que Trump se elegeu em 2016, por 306 a 232, mesmo tendo 3 milhões de votos a menos.

O problema para Trump desta vez é que Biden vem se mantendo com folga na frente das pesquisas em muitos desses estados indefinidos. Segundo médias das pesquisas calculadas pelo site "Real Clear Politics", Biden tem sete pontos de frente em Michigan, seis em Wisconsin e quatro na Pensilvânia. A disputa está apertando na Flórida, mas Biden ainda aparece na frente. Trump também encostou na média no Arizona, mas a última pesquisa em ele apareceu liderando foi há dez dias.

Trump venceu todos esses estados em 2016. Só que Biden não precisa de todos eles para se eleger presidente em 2020. Uma combinação de vitórias em três deles provavelmente será suficiente para garantir o democrata na Casa Branca. Se perder na Flórida, com seus 29 votos no Colégio Eleitoral, Trump dificilmente será reeleito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.