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Wilson Levy

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ecossistemas de inovação e o desenvolvimento das cidades

Ecossistemas de inovação serão mais representativos de cidades inteligentes do que projeções "high-tech" - Getty Image
Ecossistemas de inovação serão mais representativos de cidades inteligentes do que projeções "high-tech" Imagem: Getty Image
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Wilson Levy

Wilson Levy é advogado, doutor em Direito Urbanístico (PUC-SP), com pós-doutorado em Urbanismo (Mackenzie). É diretor do programa de pós-graduação em Cidades Inteligentes e Sustentáveis (PPG-CIS) da UNINOVE. É conselheiro do CONPRESP, membro das comissões de Direito Urbanístico e de Direito Notarial e Registros Públicos da OAB-SP e membro do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo. Foi chefe de gabinete da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo.

Colunista do UOL

27/01/2022 23h41

As metrópoles brasileiras enfrentam desafios enormes e dos mais variados tipos. Do saneamento básico que não chega para todo mundo ao déficit habitacional, passando por mobilidade e desigualdade espacial, são muitos os obstáculos para se democratizar o acesso aos benefícios da urbanização.

É preciso urgentemente repensar as cidades, buscando modelos de desenvolvimento mais justos, sustentáveis e conectados a problemas reais. E isso não é uma tarefa exclusiva do Poder Público - e muito menos do mercado. A chance de sucesso nessa jornada aumenta quando os diversos atores do território jogam juntos, colaborando em projetos urbanos concretos.

Mas como fazer isso? Que experiências podem servir de inspiração? Como elas funcionam?

É aqui que entram em cena os ecossistemas de inovação, ambientes em que poder público, iniciativa privada, academia e sociedade civil colaboram para inovar e estimular o desenvolvimento local. Funcionando na lógica da sociedade em rede, eles facilitam a circulação de conhecimento e criam as condições, como atração de talentos, pesquisa, investimentos e validação de projetos, para que as ideias se transformem em realidade.

Experiências e aprendizados

Há diversas iniciativas desse tipo no Brasil, todas merecedoras de atenção. Uma das mais emblemáticas é a do Porto Digital. Criado no Recife no ano 2000, o parque tecnológico nasceu com o propósito de desenvolver uma nova agenda econômica para o Estado.

O projeto não veio de uma canetada do governador ou do prefeito. A preparação - e depois a gestão, até hoje - envolveu uma intensa articulação entre academia, indústria e governo, que atuam em conjunto nos programas de inovação.

A universidade foi protagonista. O histórico da UFPE na área tecnológica vem desde os anos 1960, primeiro com a criação de um centro de processamento de dados, depois com a oferta, na década seguinte, de cursos de graduação e pós-graduação em ciências da computação. Com essa base, a instituição estava bem posicionada para influenciar os rumos da política pública para o setor.

Passados mais de 20 anos, o Porto Digital é hoje um dos principais polos de inovação do país. O faturamento gerado pelas empresas instaladas no parque alcançou R$ 2,86 bilhões em 2020, um crescimento de 22% sobre o ano anterior, mesmo com a pandemia, e de 50,8% em relação a 2018. Hoje, mais de 330 empresas e 11 mil colaboradores atuam no local.

Mas os impactos do Porto Digital não são apenas econômicos - o parque tecnológico também serviu como um acelerador de desenvolvimento urbano. A opção por instalá-lo no Bairro do Recife, no então degradado centro foi justamente para ativar a região e, assim, preservá-la.

Só na década passada, o Bairro do Recife recebeu mais de R$ 90 milhões para projetos de renovação urbana, como o restauro de prédios que ajudam a contar a história da cidade. Hoje, a realidade lá é bem diferente - para melhor - se comparada àquela do início dos anos 2000.

Conexões para projetos urbanos

Outro exemplo, este mais recente, vem de Porto Alegre. Chamado de Pacto Alegre, esse ecossistema de inovação na capital gaúcha foi formado a partir da iniciativa de três universidades do Estado, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Unisinos e a PUC-RS, que em 2018 se uniram para lançar a Aliança para a Inovação. O objetivo é transformar Porto Alegre em referência no ecossistema global de inovação.

A partir de diversos encontros, foram definidos os macrodesafios que deveriam ser trabalhados, como Transformação Urbana, Imagem da Cidade, Qualidade de Vida e Modernização da Administração Pública. O passo seguinte foi abrir chamadas públicas para projetos da sociedade. Ao todo, já foram selecionados 39, com planos que vão de ações para incrementar o turismo no centro da cidade a iniciativas de digitalização de serviços públicos, educação e territórios criativos.

Um dos projetos em andamento tem como objetivo criar um polo de inovação no chamado 4º Distrito, uma antiga área industrial próxima ao cais da cidade que encontra-se deteriorada.

As discussões foram abraçadas pela Prefeitura, que apresentou à Câmara de Vereadores um projeto de lei, em dezembro de 2021, com uma série de medidas para dinamizar a região, como novas normas urbanísticas, benefícios fiscais para empresas de inovação que se instalarem no local, obras viárias e recuperação de espaços públicos.

Esses são apenas alguns exemplos de como a construção de pontes entre academia, poder público, iniciativa privada e a sociedade civil pode colaborar, na prática e de forma democrática, para a melhoria da vida urbana. É evidente que os desafios são complexos e isso é apenas parte da solução. Acompanhar os aprendizados dessas e de outras experiências, dentro e fora do país, nos ajuda a entender melhor como colocar o imenso potencial dos ecossistemas de inovação a serviços das cidades.

Clayton Melo é jornalista, mestrando em Cidades Inteligentes e Sustentáveis pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE) e Finalista do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes 2020. É cofundador da plataforma A Vida no Centro e embaixador, em São Paulo, do festival internacional World Creativity Day. Atuou em redações como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil e Meio e Mensagem e colaborou com El País, HuffPost e Carta Capital, entre outras publicações. E-mail: clayton@avidanocentro.com.br

Wilson Levy é advogado, doutor em Direito Urbanístico pela PUC-SP com pós-doc em Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É diretor do programa de pós-graduação em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da UNINOVE. E-mail: wilsonlevy@gmail.com