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Ciro promete criar 2 milhões de empregos em 2019

Leda Antunes

10/09/2018 04h00

Esta reportagem faz parte da série UOL Confere Promessas de Campanha, que vai verificar promessas feitas pelos presidenciáveis para checar a sua viabilidade. Nesta semana, serão descritas e avaliadas uma promessa de cada um dos cinco presidenciáveis mais bem colocados na mais recente pesquisa Datafolha sem Lula, divulgada em 22 de agosto. Saiba mais sobre esta série.

Nesta segunda, será abordada uma proposta de Ciro Gomes (PDT): a criação de 2 milhões de empregos no ano que vem.

O que o candidato prometeu

Embora não faça parte de seu programa de governo, Ciro Gomes (PDT) vem repetindo que seu governo irá gerar 2 milhões de empregos no primeiro ano de mandato. A promessa foi feita no debate da TV Bandeirantes, em 9 de agosto, e depois no debate da RedeTV!, no dia 17. Nas redes sociais, o candidato vem reforçando o compromisso.

Qual é o contexto

Em julho, 12,9 milhões de pessoas estavam desempregadas no país, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Outros 4,8 milhões de brasileiros já haviam desistido de buscar uma vaga no mercado formal. Sem falar dos mais de 30 milhões que trabalham na informalidade.

A construção civil foi um dos setores que mais perdeu postos. De 2014 até o final de 2017, foram fechados mais de 990 mil postos formais, de acordo com informações da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), com base em dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho, que contabiliza vagas no setor privado.

Como o candidato vai cumprir a promessa

No programa de governo, Ciro diz que a redução da taxa de juros e o equilíbrio das contas públicas são condições necessárias para a retomada dos investimentos no país, o que estimulará a geração de empregos. Cita também a criação de um programa emergencial, com ênfase nas áreas de saneamento e construção civil, para criar rapidamente novas vagas.

No debate na RedeTV!, o candidato afirmou que a geração de vagas seria estimulada pela retomada de obras paralisadas. Mas, no próprio programa de governo de Ciro, está escrito que essa reativação pode gerar cerca de 350 mil empregos. Ou seja, 17,5% da meta de 2 milhões de vagas.

Em vídeo de campanha, divulgado neste mês, Ciro diz novamente que os empregos serão gerados com a retomada de obras paradas - desde projetos bilionários, como a Ferrovia Norte-Sul, a projetos mais básicos, como escolas, creches e postos de saúde -- com investimento em saneamento e em habitação popular, por meio do programa Minha Casa, Minha Vida.

A assessoria do candidato não respondeu aos pedidos da reportagem para detalhar como funcionaria o programa emergencial de empregos e quais outras medidas seriam adotadas para gerar 2 milhões de vagas em 2019.

O que dizem os especialistas

O que Ciro Gomes prometeu aconteceu uma única vez no Brasil nos últimos 15 anos. Foi em 2010, último ano do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quando foram criadas mais de 2,5 milhões de vagas com carteira assinada, segundo o Caged. Naquele ano, porém, a economia brasileira cresceu 7,5%. No ano seguinte, quando a economia teve crescimento de 4%, a geração de emprego também desacelerou: foram abertos 1,9 milhão de postos de trabalho formais em 2011.

O cenário previsto para 2019 é bem diferente daquele de 2010, afirma Hélio Zylberstajn, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Salariômetro, da Fipe. Naquele momento, a economia mundial crescia fortemente e o Brasil se beneficiou. "O governo Lula promoveu o consumo", afirma Zylberstajn. Agora, segundo o professor, a recuperação do emprego deve acontecer pelo investimento em infraestrutura, mas não há, no momento, recursos públicos para fazer isso.

Em julho, o Ministério da Fazenda reduziu a estimativa de crescimento do país em 2019 de 3,3% para 2,5%. O FMI (Fundo Monetário Internacional) tem a mesma expectativa para a economia brasileira no ano que vem. No Boletim Focus, do Banco Central, que reúne projeções semanais de dezenas de economistas do mercado financeiro para os principais indicadores econômicos, a estimativa para 2019 também é de 2,5%, mas a expectativa é de uma revisão para baixo após o crescimento de 0,2% da economia brasileira no segundo trimestre deste ano ante o anterior.

O professor da USP avalia que não é possível criar 2 milhões de empregos apenas pelo avanço da construção civil, com a retomada de obras paradas. Para ele, é preciso que a economia cresça como um todo e em proporção três vezes maior do que a prevista para 2019.

Para cada R$ 1 milhão investido na construção civil, calcula o economista, são criados 16 empregos - oito diretos e oito indiretos. "Para criar 2 milhões de empregos, precisaria de um investimento de R$ 125 bilhões”, afirma. "Tanto para retomar as obras, como para criar um programa emergencial, voltado para saneamento e construção civil, precisa de dinheiro. E o que a gente sabe é que estamos com um déficit fiscal da ordem de R$ 140 bilhões" nas contas públicas, argumenta Zylberstajn.

A LCA Consultores prevê a criação de 900 mil vagas formais em 2019, se a economia crescer 3%. "Historicamente não há uma explosão de criação de vagas em momentos de saída de crise", diz o economista da consultoria Cosmo Donato. A recuperação do emprego deve se fortalecer a partir do ano que vem, após a definição do cenário eleitoral, mas acontecerá de forma gradual. O setor de serviços deve puxar a retomada. Em seguida, se houver aumento da oferta de crédito, serão criados empregos no setor de comércio de bens duráveis e na indústria. Para ele, outros setores, como a infraestrutura, que dependem de investimento público, podem ter uma recuperação lenta.

"Não há espaço para expandir os investimentos para impactar o mercado de trabalho de tal forma já em 2019", afirma, descartando a possibilidade de gerar 2 milhões de vagas em 2019. O cenário mais provável, segundo ele, é a criação destas vagas ao longo dos anos de 2019 e 2020.

Um levantamento feito pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), a partir de dados do Ministério do Planejamento, mostra que havia 2.796 obras paralisadas em 2017. Na avaliação de Marcelo Azevedo, economista da entidade, a retomada dessas obras teria um impacto positivo na criação de vagas, mas não seria suficiente para a recuperação da construção civil. A redução no consumo, o endividamento das famílias e os desdobramentos da Operação Lava Jato pesam contra o setor, diz.

Outro estudo, feito pela consultoria Inter.b, a pedido da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) e divulgado em junho, calcula que o país tem mais de 7,4 mil obras financiadas com recursos públicos federais que estão paralisadas e que seria necessário um investimento de R$ 76,7 bilhões para que elas fossem retomadas e concluídas.

Avaliação: Não dá pra fazer, segundo especialistas

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