Comandante da PM diz que tiros disparados de carro em manifestantes no Rio eram "gás"

Felipe Martins

Do UOL, no Rio

  • Reprodução/Facebook

    Suposto carro de polícia atirou contra manifestantes no Rio de Janeiro

    Suposto carro de polícia atirou contra manifestantes no Rio de Janeiro

O comandante geral da Polícia Militar do Rio de Janeiro, coronel Erir Costa Filho, afirmou nesta segunda-feira (15) que os tiros disparados de um carro não caracterizado registrado em nome da corporação contra manifestantes nos arredores do Palácio Laranjeiras, sede do governo do Estado, em protesto realizado no último dia 11, eram um gás não letal. Segundo o coronel, "não foi tiro letal, nem não letal", mas apenas "um gás disparado de uma carabina 12".

"Os manifestantes queriam agredir os policiais na viatura e, em resposta, os policiais fizeram o uso do gás na carabina para dispersar as pessoas. Não houve tiro", disse o comandante. No vídeo, no entanto, não se nota a presença de nenhum manifestante a uma curta distância do carro ou provocando os ocupantes do veículo no momento do disparo.

Em nota oficial, o comando da PM diz que já abriu uma averiguação e foi constatado na mesma que o disparo efetuado foi de armamento não letal. "O disparo foi de um lançador de munição não-letal calibre 12, de gás lacrimogêneo, não oferecendo risco de morte para a população."

Segundo o comunicado, estas são "informações iniciais, e a averiguação continua".

O especialista em armas Mario Viggiani Neto tampouco acredita na explicação do comandante da PM. Para ele, o mais provável é que o disparo tenha sido um disparo de fuzil. "Na imagem que eu vi ou foi um tiro de fuzil ou um tiro de espingarda 12. Pela intensidade da pólvora que saiu, o mais provável é que tenha sido um tiro de fuzil. Não tem como ter sido de festim", disse.

"Eu acho pouco provável um carro descaracterizado estar usando uma arma de borracha. Quem usa munição de borracha é geralmente tropa de choque que está fazendo controle de distúrbio civil. Policiais em viatura descaracterizada têm 99% de chance de não estar usando arma com munição não letal. Os que usam bala de borracha estariam fardados. Acho mais provável que tenha sido um disparo de fuzil. E, se for de calibre 12, foi munição real", completou Viggiani Neto, que é instrutor de tiros credenciado pela Polícia Federal e advogado criminalista.

Vídeo de manifestantes mostra disparo de carro que seria da PM

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB- RJ (Ordem dos Advogados de Brasil no Rio de Janeiro), Marcelo Chalreo, afirmou que o coronel é que tem que responder sobre a ação. "Eu estou horrorizado com o que eu vi. É um absurdo que exista esse tipo de ação no Estado do Rio de Janeiro. O comandante da PM tem que responder diretamente sobre este caso", disse.

Chalreo acredita que a ordem do disparo partiu de alguém superior. "Com certeza partiu de alguém com poder de comando, e isso precisa ser apurado. O vídeo mostra o que parece um grupo de bandidos agindo na cidade. Um total desrespeito. Eu estou chocado", afirmou.

Para o representante da OAB, a ação dos policiais é uma violação à democracia. "É um absurdo total. Uma falta de responsabilidade absoluta. A OAB está pasma diante desse fato", disse. "Não se pode admitir num estado democrático de direito a polícia agindo dessa forma. É abominável."

Protestos no Rio de Janeiro
Protestos no Rio de Janeiro

Chalreo informou ainda que vai encaminhar esta e outras denúncias de abuso policial nos recentes protestos ao Ministério Público. "Vamos pedir providências. Nós estamos separando estas e outras informações para encaminharmos ao MP. Esperamos que os policiais e quem ordenou essa ação sejam identificados e punidos", disse. "O que aconteceu foi um total desrespeito à cidadania."

Mais de 4.500 compartilhamentos

No vídeo publicado no Facebook, a Blazer na cor preto fosco para em uma rua de Laranjeiras, zona sul do Rio, e dispara contra as pessoas que caminhavam nos arredores do Palácio Guanabara, local do protesto que reuniu cerca de 500 pessoas contra o governador Sérgio Cabral (PMDB). Até as 15h30, o vídeo tinha 4.536 compartilhamentos na rede social.

Os próprios manifestantes anotaram a placa do veículo e, em consulta ao site do Detran, descobriram que a Blazer pertence à Polícia Militar. Ainda de acordo com manifestantes, o veículo teria disparado contra as pessoas que caminhavam pelas ruas do bairro.

  • Reprodução

Na página do Detran, o carro aparece como da cor branca. No entanto, é comum o processo de "envelopagem" do carro pela polícia na cor preto fosco.

De acordo com manifestantes, o veículo teria disparado contra as pessoas que caminhavam pelas ruas do bairro. Em outro vídeo, é possível ver a Blazer preta circulando em frente ao palácio durante o protesto.

Um dos manifestantes ouvidos pela reportagem do UOL, o astrônomo Loloano Silva, contou que, ainda durante aquela noite, precisou correr dos disparos do veículo.

"Quando a gente estava saindo da [rua] Pinheiro Machado em direção à praia de Botafogo, pois o [Batalhão de] Choque estava vindo em nossa direção, passou um carro preto pela rua. Saímos da frente pra deixar ele passar e ele parou. Abaixou os vidros e atirou contra as pessoas que estavam na rua", disse. "Deve ter efetuado uns dois ou três disparos."

"O bizarro é que todo mundo foi pego de surpresa, pois eles vinham como se estivessem em Botafogo e achamos que era um carro qualquer, nem ligamos, na verdade. Daí vieram os tiros. Só cogitei a possibilidade de serem de arma de fogo depois de assistir ao vídeo", afirmou.

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