"Acha que eu cheguei em casa e tomei um copo de sangue?", diz PM a juiz do Carandiru

Gabriela Fujita e Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • Andre Vicente/Folhapress

    Tenente-coronel Salvador Modesto Madia, réu no processo do massacre do Carandiru, em 1992, em foto de arquivo

    Tenente-coronel Salvador Modesto Madia, réu no processo do massacre do Carandiru, em 1992, em foto de arquivo

"O senhor acha que eu cheguei em casa e tomei um copo de sangue [para comemorar]?". A pergunta foi feita pelo tenente-coronel Salvador Modesto Madia, na tarde desta quinta-feira (1º), ao juiz Rodrigo Tellini. Madia é o último réu a ser interrogado no júri de 25 policiais militares acusados da morte de 73 detentos no terceiro pavimento do pavilhão 9 do Carandiru, em 2 de outubro de 1992.

Em uma hora e 20 minutos de perguntas feitas pelo juiz, o policial, que era tenente à época da invasão e comandou a Rota entre 2011 e 2012, negou a autoria das 73 mortes atribuídas a ele e aos outros 24 réus -- quatro deles, pertencentes a um grupo que estava sob seu comando na incursão ao pavimento.

"Aquele mar de mortos [os 111 presos do massacre]: o senhor pensa que não me chocou?", declarou ao juiz, ao comentar o que teria sentido ao chegar em casa após o episódio. Diante da insistência do magistrado sobre quem matou aquela quantidade de presos, enfatizou: "Não fui eu, não foram os meus homens". "Policiais militares mataram?", perguntou o juiz. "Não sei. Entrei 15 minutos e saí", respondeu.

Madia classificou o episódio como "a maior adrenalina que já passei na minha vida", recorreu por diversos momentos aos quase 21 anos decorridos do massacre para dizer não se lembrar de detalhes precisos sobre o fato. "Faz quase 21 anos, é muito tempo. Essa operação me marcou por uma série de fatores, mas não me lembro [de detalhes]", declarou. A certa altura, chegou a dizer o juiz em tom de brincadeira: "O senhor está superestimando a minha memória". O magistrado riu.

Policial tinha revólver e submetralhadora

De porte de um revólver calibre 38 e uma submetralhadora 9mm, no dia da invasão ao presídio, o ex-comandante da Rota admitiu ter efetuado disparos contra presos, já que, afirmou, "o barulho de tiros era cada vez maior" à medida em que os PMs avançavam ao interior do pavilhão.

"Efetuei disparos, não sei quantos", disse. "A situação era completamente atípica. E a notícia que tínhamos é que a coisa lá estava incontrolável, problemática, muito caótica", completou.

Em mais de uma oportunidade, Madia se mostrou incomodado com os detalhes do processo --sobretudo com aqueles colocados pela acusação e por testemunhas desde o júri de abril-- sobre a forma como teria ocorrido a incursão das tropas ao presídio e sobre a ação dos policiais lá dentro.

"Para um leigo, pode parecer atabalhoada a forma como entramos. Talvez um leigo ache que, por sermos militares, deveríamos ter entrado marchando. Mas aquilo não era uma situação de desfile militar; era uma situação real", frisou.

"Ouvi vários depoimentos, de todo tipo de gente. Ouvi que policiais perguntavam a presos [rendidos no pátio] quem estava ferido para metralhar, como se nazistas agiram no holocausto. Ouvi que policiais mataram presos a marretadas no elevador do pavilhão", citou. "Eu sei que não fizemos isso. Se alguém fizesse, todo mundo sabe da rigidez que é trabalhar comigo --eles [os PMs subordinados a ele] sabem que sou comandante para o bem e para o mal. Se tivesse ocorrido ali algum desvio de conduta, eu teria dado voz de prisão na hora", atestou.

Réu foi transferido do Choque dias antes de júri

Conforme o UOL noticiou nessa quarta-feira (31), Madia é um dos dois policiais réus do segundo júri do Carandiru transferidos do Comando do Choque da PM ao CPC (Comando de Policiamento da Capital). No Choque, o tenente-coronel era o comandante do 4º Batalhão de Policiamento de Choque, que abriga forças de elite da PM como COE (Comando de Operações Especiais) e Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais).

Além dele, a resolução publicada no "Diário Oficial do Estado" no último sábado (27) pelo secretário de Segurança Pública, Fernando Grella, também transfere do Choque, mas do 1º BPChoque, o major Marcelo González Marques, que foi interrogado ontem e integrava a equipe de Madia na incursão ao pavimento.

Segundo júri

O segundo júri do massacre é realizado quase quatro meses após a primeira leva de PMs julgados, em abril deste ano, quando 23 foram condenados a 156 anos pela morte de 13 detentos que estavam no segundo pavimento.

Neste júri, quatro de 25 réus já depuseram -- 18 deles permaneceram em silêncio durante o interrogatório e dois faltaram à sessão mediante apresentação de atestado médico. O primeiro a depor foi o coronel aposentado Valter Alves Mendonça, que era capitão na época do massacre e foi o responsável pela tropa da Rota --com 28 a 30 homens--, que dominou o terceiro pavimento do pavilhão 9.

Durante três horas de depoimento, o capitão deu detalhes de como foi a entrada no pavimento e afirmou que disparou contra os presos como "revide" a "clarões [de disparos de arma de fogo], estampidos e impactos no escudo" que ele disse que portava para se proteger.

"Eu não esperava a reação deles. Entrei para determinar que todos entrassem nas celas e preocupado em [não] tomar tiro", declarou.

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O coronel afirmou que estava armado com uma submetralhadora 9mm e um revólver e que disparou "sete ou oito" vezes durante os cerca de 15 minutos em que ocorreu a ação da Rota no pavimento, em situações de "embate" entre os detentos e os policiais militares.

"Acredito até que eu tenha usado o escudo para agredi-los. Usei a submetralhadora para golpeá-los", disse o coronel aos promotores, referindo-se a uma luta corporal entre PMs e presos.

Ao final de seu depoimento, Mendonça se emocionou ao lembrar que entrou para a corporação, em 1978, sob protestos do pai --que era soldado da Cavalaria. "Ele não queria que eu fosse", alegou. Além de ingressar na PM, foi para a Rota já no ano seguinte, 1979. "Trabalhar na Rota é diferente; vou dizer até que é um sacerdócio", comparou.

Maioria dos réus fica em silêncio

Após o coronel, 18 réus decidiram permanecer calados durante o interrogatório. Policiais militares da ativa, aposentados e ex-policiais se recusaram a responder as perguntas da acusação e do juiz, Rodrigo Tellini, alegando o direito constitucional ao silêncio e orientação da advogada do grupo, Ieda Ribeiro de Souza.

Apesar do silêncio, os promotores Fernando Pereira da Silva e Eduardo Olavo Canto fizeram perguntas aos réus e salientaram que, dentre eles, havia inclusive os que teriam sido feridos por presos do pavilhão durante a ação. 

O segundo réu que aceitou falar foi o major Marcelo González Marques, que, à época da operação que resultou em 111 mortes no Carandiru, era tenente.

Em quatro horas de depoimento, Marques contradisse informações de Mendonça, seu superior imediato durante a invasão do pavimento: ele negou ter visto presos mortos ou decapitados no pátio da antiga Casa de Detenção e também que armas teriam sido recolhidas por Mendonça de detentos nas celas.

Antes, o coronel dissera ter atirado diante de "clarões e estampidos" –mesmo sem ter visto, admitiu, armas nas mãos de detentos.

Também foram interrogados o tenente-coronel Carlos Alberto dos Santos, tenente à época do massacre, e o tenente Edson Pereira Campos, que era soldado na ocasião do "massacre do Carandiru".

O tenente-coronel Carlos Alberto dos Santos disse ser "humanamente impossível matar 73 pessoas em 15 minutos de operação". O tenente Edson Pereira Campos também negou responsabilidade sob as acusações da promotoria e disse ainda que ficou marcado pelo episódio.

"Desde então tenho sido discriminado. Sou rotulado de ter participado de um massacre."

A expectativa do juiz era encerrar ainda ontem o interrogatório dos réus. A sessão que começaria às 10h, entretanto, teve início já perto do meio-dia.

Partes do processo serão lidas hoje

Hoje, além da leitura de partes do processo –tais como depoimentos já colhidos no processo ao longo dessas duas décadas --, defesa e acusação podem recorrer também à exibição de material em foto e vídeo para reforçar as teses que serão apresentadas no dia seguinte, nos debates.

A previsão dada pelo magistrado na segunda-feira (29), primeiro dia de júri, era que a leitura da sentença ocorresse até a noite de sexta ou madrugada de sábado (3). Se condenados, os PMs podem pegar 876 anos de reclusão –equivalentes à pena mínima de 12 anos para cada um dos 73 homicídios.

Além do júri atual e do realizado em abril, estão previstos ainda para este ano mais dois julgamentos pelas mortes ocorridas no quarto e quinto pavimentos do pavilhão 9. Em ambos, foram mortos 18 detentos.

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