Morte entre líderes do PCC não é inédita; racha da facção seria drástico para Estado, dizem analistas

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

  • L.C. Leite/Folhapress

    Nos últimos três meses, quatro líderes do PCC foram assassinados: Birosca, Gegê do Mangue, Paca e Cabelo Duro

    Nos últimos três meses, quatro líderes do PCC foram assassinados: Birosca, Gegê do Mangue, Paca e Cabelo Duro

Em três meses, quatro homens, até então apontados como intocáveis na cúpula do PCC (Primeiro Comando da Capital), foram assassinados por determinação da própria facção criminosa. As mortes geraram grande alarde e viraram tema na opinião pública. No entanto, não é a primeira vez que o crime organizado de São Paulo mata seus criminosos renomados. Sempre que há um indício de ruptura dentro do grupo, aquele que está gerando discórdia é assassinado.

A estratégia da facção beneficia a gestão de segurança pública, dizem analistas, uma ruptura do grupo poderia levar ao aumento do índice de homicídios nas ruas e a considerada "paz" no sistema penitenciário poderia parar de existir.

Em dezembro do ano passado, o líder máximo do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, cumpria o seu último mês --de um ano-- no regime de isolamento. Pouco antes de ele ser liberado do regime, seu amigo pessoal Edilson Borges Nogueira, o Birosca, foi assassinado dentro da penitenciária de Presidente Venceslau, onde vive a cúpula da facção paulista.

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No enterro de Birosca, houve grande presença de amigos e explosão de fogos. Dentro das prisões, a morte do criminoso, que havia sido expulso da cúpula do PCC porque sua mulher brigou com outras mulheres de presos dentro de um ônibus, não foi bem recebida. O MP (Ministério Público) apontou que a morte de Birosca poderia ter ocorrido a mando de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, principal líder da facção em liberdade desde fevereiro de 2017.

No último dia 15, Gegê do Mangue e o número 2 da facção em liberdade, Fabiano Alves de Souza, o Paca, foram torturados e mortos em Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza (CE). A Promotoria aponta que a principal linha de investigação liga a morte deles ao assassinato de Birosca. Junto a isso, a facção teria notado um rombo no orçamento, que teria sido provocado por Gegê e, consequentemente, por Paca. Ambos viviam juntos. No enterro deles e na prisão, diferentemente da reação à morte de Birosca, houve silêncio. 

Divulgação/SAP
Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, do PCC

Um bilhete encontrado na Penitenciária de Presidente Venceslau aponta que Gegê do Mangue e Paca foram assassinados a mando de um braço direito de Marcola. O motivo: roubo. No entanto, a investigação apura, também, a hipótese de os criminosos terem deixado o bilhete de propósito, a ser encontrado por agentes penitenciários, para que essa fosse a versão do crime que eles queriam que viesse a público.

Uma semana depois da morte dos dois, outro líder da facção, ligado a Gegê do Mangue, foi assassinado com tiros de fuzil em um bairro de classe média alta da zona leste de São Paulo. Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, comandava a facção na Baixada Santista e era "afilhado" dentro do crime organizado por Gegê. Contra ele, havia um mandado de prisão expedido pela Justiça do Ceará no mesmo dia de sua morte. Ele era suspeito de ter participação no assassinato de seu "padrinho" e comparsa no Ceará. 

Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo
Cabelo Duro foi assassinado em frente a um hotel na zona leste da capital paulista

Mortes entre os integrantes

Mas não é a primeira vez que o PCC manda matar integrantes da alta cúpula da facção. A última vez, relevante, foi em novembro de 2005, quando o número 2, Sandro Henrique da Silva Santos, o Gulu, e outras seis pessoas foram mortas em dois dias. Gulu e seus aliados foram assassinados sob a suposição de que poderiam tentar tomar a frente do chamado partido do crime, no momento em que a facção iniciava seu processo de expansão de São Paulo para outros Estados.

"Em novembro de 2002, quando o Marcola assumiu a liderança do PCC, junto a ele tinha o Gulu --o grande traficante da Baixada. Os dois eram as duas lideranças iminentes. Depois dos sete mortos, o irmão de Gulu foi assassinado, a mãe teve de fugir e Marcola saiu fortalecido como o principal nome do PCC", relembra o pesquisador Bruno Paes Manso, do NEV-USP (Núcleo de Estudos da Violência da USP). 

Rogério Cassimiro/Folhapress
Marcola teria mandado matar número 2 do PCC para que não houvesse brecha de ele ser passado para trás à frente da facção

"Quando houve um desacerto de contas, ao que tudo indica, ele [Marcola] fez uma limpa estratégica para continuar fortalecido na liderança. É um capítulo importante na história de segurança e crime organizado. Com isso, o Marcola virou o cara do PCC", afirmou o pesquisador.

Para a socióloga Camila Nunes Dias, professora na UFABC (Universidade Federal do ABC) e estudiosa do sistema prisional e PCC, sempre que há um conflito interno, a facção elimina o integrante a fim de manter a unidade do grupo. "Em toda sua história, a facção tem mantido esse tipo de atuação. Tem evitado a divisão, o racha. Até hoje, sempre que houve um conflito interno, eles eliminavam o foco da discórdia", afirmou.

Segundo ela, a morte dos últimos quatro líderes em três meses pode ser porque há um conflito interno e, com isso, a facção elimina o problema, assassinando. Caso contrário, poderia-se gerar uma ruptura no crime organizado.

"Nesse caso, haveria mais consequências drásticas", analisa. "Se pensarmos consequências, dentro e fora das prisões, seria muito difícil ao Estado", complementa. Para ela, com uma ruptura, o índice de homicídios poderia subir e a considerada "paz" no sistema penitenciário poderia parar de existir.

Preocupação para o Estado

O professor de Gestão Pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Rafael Alcadipani aponta que, com uma possível ruptura da facção, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) poderia ter complicações em sua candidatura à Presidência da República, neste ano.

"Pode mostrar que a política de segurança dele não deu certo, e, num cenário de sucateamento da polícia investigativa, com problemas de efetivo na PM, pode haver combinação explosiva no ano que já não está fácil em termos de segurança pública", diz. 

Eduardo Knapp/Folhapress
Para especialistas de segurança pública e sistema prisional, o conflito atual pode ser pontual. Caso a facção venha a se dividir, a segurança do Estado ficaria em xeque

Para Alcadipani, "as cenas que ocorreram em São Paulo e no Nordeste são típicas de facções criminosas muito bem organizadas, lembrando Narcos [seriado da Netflix, sobre a vida do narcotraficante Pablo Escobar]".

Já para a diretora do FBSP (Forum Brasileiro de Segurança Pública) Samira Bueno, o conflito interno que ocorre dentro da cúpula do PCC pode se expandir a outros Estados do Brasil. "A julgar pela estrutura de comando da facção, e que nos últimos anos ela expandiu sua atuação para muito além de São Paulo, me parece que isso pode afetar não apenas as dinâmicas do crime e em especial dos homicídios em São Paulo, mas também em outros Estados", afirmou.

"Gegê e Paca estavam morando no Ceará. Todo mundo sabe que o PCC também já estaria atuando no Rio, na Rocinha, que vai sofrer a intervenção do governo federal. Todas as mortes e disputas no sistema prisional desde 2016 também estão relacionadas a essa expansão da facção. Se a cúpula está se matando, me parece bastante factível pensar que alguns acordos podem ser quebrados e novas disputas surjam", analisa a especialista.

Apesar das análises, o governo de São Paulo diz não temer consequências dos assassinatos entre membros do PCC. O secretário de Segurança Pública estadual, Mágino Alves Barbosa, afirmou nesta sexta-feira (23) que o que houve entre integrantes da facção foram "desentendimentos" e que as mortes "não inquietam" a segurança do Estado. Disse ainda que não vai acontecer uma "guerrilha" em São Paulo.

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