Comerciantes têm acesso a imóveis interditados perto de desabamento e reclamam de prejuízo

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

Comerciantes vizinhos ao edifício Wilton Paes de Almeida, no largo do Paissandu (centro de São Paulo), conseguiram apenas nesta terça-feira (8) acesso parcial ao local onde trabalhavam para a retirada de objetos. O edifício pegou fogo e desabou na madrugada do último dia 1º, e, desde então, cinco imóveis na região estão interditados pela defesa civil.

Entre os prédios interditados há residenciais e comerciais. Um deles é o edifício Paissandu, de frente para o prédio que desabou. A edificação chegou a ser atingida pelo incêndio e é monitorada 24 horas, com um equipamento a laser, a fim de se constatar risco de desabamento.

Há 20 anos comerciante no local e há 54 morador da vizinhança, Fernando Cruz Costa, 56, contou que nem havia ainda se recuperado financeiramente do quinto assalto à mão armada apenas este ano quando teve o estabelecimento --onde vendia perfumes e outros cosméticos-- afetado pela tragédia da semana passada. Costa contou que paga R$ 7.000 mensalmente de aluguel.

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Fernando Cruz Costa, 56, dono de loja de cosméticos no centro de São Paulo

"Tive que contratar uma equipe particular de engenheiros para fazer uma ancoragem na laje e tentar liberar a mercadoria", relatou. "Minha vida está lá dentro. Nem sei se a mercadoria está ou não queimada", completou. Costa teve acesso para retirada de documentos e outros objetos apenas hoje.

"De assalto a gente se levanta, se recupera. Agora, não sei nem se vão liberar o prédio onde construí o sustento meu e da família", afirmou.

Vizinho de frente da ocupação no Wilton Paes de Almeida, Costa reclamou de mau cheiro e mosquitos constantes oriundos de lá. "Tinha muito material de reciclagem que coletavam e separavam ali mesmo", citou.

"As telhas estavam todas quebradas"

Dono de uma loja que produz kits hospitalares em um prédio também interditado na vizinhança, o microempresário Anderson Pereira, 41, conseguiu entrar hoje no estabelecimento e retirar a máquina que é uma das principais ferramentas de trabalho dele.

Pereira contou que paga R$ 1.500 mensais de aluguel e estima um prejuízo de R$ 20 mil com a semana toda sem poder trabalhar no local. Ele teve 15 minutos de acesso ao prédio.

"Meu comércio ficava no segundo andar; entrei e as telhas estavam todas quebradas. Como o prédio onde eu estava tem seguro, vou procurar a Justiça para ser ressarcido", declarou.

"Construíram uma favela dentro do prédio"

Já o cabeleireiro José Martins, 59, está com o salão onde é empregado com outros 17 funcionários interditado, mas está fazendo um bico em um salão próximo.

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Cabeleireiro José Martins, 59 anos

Martins também conseguiu só hoje entrar e retirar a instrumentação de trabalho. "Imagine ficar uma semana sem conseguir entrar e retirar suas ferramentas para o ganha pão? Perdi uns R$ 8.000 desde semana passada", estimou.

O cabelereiro afirmou que "era ótimo" o movimento no salão e disse que nunca teve problemas de segurança similares aos do empresário vizinho, assaltado cinco vezes em quatro meses. Mas ele contou que, por ter tido um amigo que morou por um tempo na ocupação que veio abaixo, entrou lá algumas vezes e ficou "assombrado" com o que viu.

"A questão da moradia deles era irregular, mas isso nunca me afetou. Mas é fato que construíram uma favela dentro do prédio. A impressão era horrível. Eu digo isso porque morei até os 18 anos em uma comunidade. Era precário, mas dentro desse prédio era superprecário", destacou.

Os moradores relataram que a defesa Civil estimou em 15 a 25 dias período de interdição dos imóveis. Entretanto, esse tipo de medida está sujeito ao encerramento dos trabalhos do Corpo de Bombeiros no local do desabamento. Na última sexta (4), comando da operação previu pelo menos outros 15 dias para conclusão das buscas.

Até esta terça-feira, foram resgatados o corpo de Ricardo Pinheiro, 37, e fragmentos ossos similares aos de um adulto e de crianças. Até a tarde, eram sete pessoas ainda desaparecidas.

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