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Marcola não se arrepende de seus crimes, aponta avaliação psicológica

Em foto de 2006, Marcola chega para prestar depoimento na CPI do Tráfico de Armas - Rogério Cassimiro/Folhapress
Em foto de 2006, Marcola chega para prestar depoimento na CPI do Tráfico de Armas Imagem: Rogério Cassimiro/Folhapress

Aiuri Rebello, Luís Adorno e Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

09/03/2019 04h00Atualizada em 09/03/2019 12h29

Resumo da notícia

  • UOL teve acesso ao prontuário médico do líder do PCC na prisão
  • Avaliação psicológica afirma que ele não demonstra arrependimento por seus crimes
  • Marcola não tem características de problemas mentais como sociopatia, diz relatório
  • Criminoso sofre de insônia e já teve episódios de ansiedade e instabilidade emocional

Considerado por polícia, Justiça e Ministério Público o líder da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), Marco Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola, 51, não demonstra se arrepender por seus crimes. É o que mostra um relatório de avaliação psicológica feito na cadeia em 2014, quando o preso estava no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado, um regime punitivo de isolamento) e enfrentando episódios de ansiedade, instabilidade emocional, grande emotividade, estresse e "ideação suicida". O UOL teve acesso ao prontuário médico do criminoso atrás das grades. 

No RDD, o preso fica isolado 22 horas por dia na cela por períodos de até um ano e passam por acompanhamento para identificar distúrbios psicológicos. Marcola está há 20 anos preso, ficou 1.415 dias na solitária e tem pena para cumprir até 2276.

Marcola e outras 21 lideranças da facção criminosa foram transferidos para presídios federais de segurança máxima em três locais diferentes no mês passado em uma grande operação com participação do Exército e da Polícia federal. 

"Com relação à sua inserção criminal, [Marcola] expõe com certa naturalidade os vários delitos praticados e seu envolvimento em fugas, rebeliões e com o crime organizado, também", afirma o relatório feito após uma conversa de uma hora e meia com o detento, no parlatório. Apesar disso, "não verbaliza sentimentos de arrependimento e de irreprobabilidade para com operacionalizações criminosas, fugas e rebeliões", conclui a profissional.

Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola

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Segundo a avaliação psicológica, a situação emocional que o detento se encontrava no momento da avaliação pode ter sido causado pelo RDD. Em suas conclusões, ela afirma que Marcola demonstra capacidade de estabelecer ligações afetivas com outras pessoas, fato evidenciado pela sua preocupação com os filhos, e que utiliza de racionalização constante para defender-se psiquicamente. Marcola está em seu segundo casamento e tem quatro filhos.

A capacidade de estabelecer vínculos afetivos indica que Marcola provavelmente não possui patologias como sociopatia, caracterizada pela incapacidade de sentir empatia pelos outros e estabelecer vínculos afetivos reais. 

A existência do prontuário médico de Marcola foi revelada pelo site Ponte Jornalismo.

"Impetuosidade, obstinação, crítico e pragmático"

Na mesma avaliação psicológica, Marcola conta que teve uma infância difícil com a morte de sua mãe, aos nove anos de idade. Foi criado por uma tia até os 12 anos, quando fugiu de casa e virou morador de rua. Parou de estudar na sétima série do Ensino Fundamental. Começou a usar drogas -- cocaína e maconha, que afirma ter largado há 20 anos -- e a praticar pequenos delitos. Foi seu início na vida do crime, que culminaria com sua primeira prisão, cinco dias após fazer 18 anos de idade -- ele completou o Ensino Médio e fez outros cursos na prisão.

Marcola se considera um autodidata e afirma com orgulho que gosta muito de ler e estudar por conta própria. Após a entrevista, o relatório afirma que ele apresenta "discurso coerente com indícios de nível intelectual e cultural acima da média, vocabulário mais elaborado e estado emocional de tensão e demonstrando conflitos internos" durante o encontro. 

"Indivíduo com características de impetuosidade, obstinação, orientação para o concreto e articulado. Eloquente, crítico e pragmático. (...) Não utiliza gíria, evidenciando grande controle racional", afirma o relatório sobre sua personalidade. 

O líder do PCC relatou ainda que pratica ioga e exercícios físicos para manter a forma, buscar equilíbrio e controlar a ansiedade.
 

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Dor no joelho e nas costas 

O prontuário médico do chefe criminoso ainda traz outras informações sobre a saúde dele. Marcola tem insônia e sofre de dores crônicas no joelho e nas costas, na região lombar. 

Na cadeia pegou micoses, desenvolveu uma gastrite e chegou a fazer acompanhamento psiquiátrico com uso de remédios controlados contra crises de ansiedade. De acordo com as informações, não faz uso continuado de nenhum remédio, não possui doenças crônicas nem doenças contagiosas. 

Preso em Porto Velho desde o dia 13 de fevereiro, Marcola ficará em isolamento pelos primeiros 60 dias na unidade. Quem faz a segurança na área externa do presídio onde ele está trancado é uma tropa especial do Exército

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