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Cotidiano

"Aqui para ajudar": quem é o homem que ajudou idosa a atravessar enchente

Marcela Leite e Taís Vilela

Do UOL, em São Paulo e no Rio

11/04/2019 04h00

Depois das fortes chuvas que deixaram 10 mortos entre segunda (8) e terça-feira (9) no Rio de Janeiro, o vídeo de um homem ajudando uma senhora a atravessar a rua tomada pela água viralizou e gerou discussão na internet. Quem levou a idosa pela mão foi Varlei Rocha Alves, 50, o Capoeira, guardador de carros há 20 anos no bairro de Copacabana, zona sul da capital.

Já viu aquela pessoa prestativa, que você precisou estou ali para te servir? [...] Eu estou aqui para ajudar
Varlei Rocha Alves, o Capoeira

Nas imagens, Capoeira aparece colocando caixotes de feira e criando uma ponte improvisada para que a idosa atravessasse a rua sem molhar os pés. A crítica dos internautas, no entanto, é de que a mulher nem teria olhado para o homem que a ajudou e nem olhou para trás ao chegar ao outro lado da rua.

"Não importa saber o que eles sentem, o que importa é que estou ajudando e estou me sentindo bem", afirmou em entrevista concedida ontem ao UOL ao se referir às falas das redes sociais.

O guardador de carros Varlei Rocha Alves, que ajudou uma idosa de 86 anos a atravessar a rua durante temporal no Rio de Janeiro - Taís Vilela/UOL - Taís Vilela/UOL
O guardador de carros Varlei Rocha Alves
Imagem: Taís Vilela/UOL
Ainda segundo ele, a idosa teria dado "uma caixinha" e agradecido. "Ela me agradeceu e me deu uma moedinha, só que eu virei rápido para ajudar outra pessoa que estava precisando. Foi nessa hora que 'nego' pensou que ela não me agradeceu", explicou.

"Foram várias senhoras que eu ajudei. Todas as senhoras de idade e que não sejam de idade que estavam passando, eu tive cuidado para não cair na água. Até senhores."

Eu sinto amor em ajudar o próximo e não olho a quem, que seja branco, que seja azul, que seja amarelo, eu ajudo qualquer um

Houve quem fizesse uma analogia à época da escravidão, chamando a atitude da idosa de racista, já que Capoeira é um homem negro. "Eu não acho nada (de racismo), não tem nada a ver isso. Estava ajudando ela e qualquer um que estava ali, não foi só ela, era um atrás do outro", respondeu. "Todos que precisarem passar na minha ponte vão passar para não cair."

A serviço das "madames"

Figura conhecida pelos moradores e frequentadores da região, Capoeira relatou que, além de tomar conta de carros, faz "o que as madames precisarem", ajuda em mudanças e a descartar entulho. Além disso, já chegou a atravessar enchentes com gente nas costas para que a pessoa não se molhasse.

"Quando eu chego a fazer um bem para uma pessoa, eu não quero saber se ela é de idade, se ela não é de idade, faço bem a qualquer um. Qualquer ser humano na Terra que precisar da minha ajuda eu estou ali para ajudar, só basta eu poder ajudar."

Em entrevista ao jornal Extra, a idosa que foi ajudada, Anuzia Corrêa, de 86 anos disse que, ao contrário da impressão dos internautas, agradeceu o guardador de carros. "Agradeci muito a ajuda dele. Dei R$ 4, queria dar mais. Nem o conhecia, mas ele foi o responsável por eu ter chegado em casa em paz", explicou.

Casa própria para Capoeira

Morador da comunidade de Costa Barros, na zona norte do Rio, ele vive com o filho Darlei Espírito Santo, 10, na casa da irmã, Claudilene Rocha - conhecida como Dinha -, e com os seis filhos dela em um barraco. Sua mulher morreu há oito anos.

O flanelinha, que já morou na rua, lamenta não ter um imóvel próprio. "Quando eu brigo com a minha irmã, quem tem que sair sou eu, que ela toma conta do meu filho. Durmo na pista, na praça, nos carros, durmo pelos cantos", contou. "É chato a gente morar no que não é nosso. [...] É uma vida triste, fazer o quê?"

Pensando no filho, Capoeira sonha em ter um cantinho só dos dois. "Meu sonho é ter uma casa própria para eu dizer 'meu filho, essa é a tua casa, o pai vai morrer, mas essa casa é tua", disse, emocionado.

Tenho vontade de ter tudo e não consigo ter nada, mas eu gostaria de dar tudo para o meu filho, tudo o que ele pede

Assim, administradores de uma página no Facebook organizaram ontem uma vaquinha online com a finalidade de arrecadar R$ 40 mil reais para que o flanelinha possa realizar seu sonho. Às 15h de hoje, o valor arrecadado já passava dos R$ 102 mil, com mais de 1.800 doações. "Eu não quero ter nada, posso morrer amanhã ou depois, morro feliz só em saber que eu deixei alguma coisa para o meu filho", afirmou Capoeira.

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