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PM diz que matou suspeito em Osasco em revide, mas vídeo contradiz versão

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

17/01/2020 13h33Atualizada em 17/01/2020 15h49

Resumo da notícia

  • PM diz que atirou em homem que "foi para cima" com arma de fogo
  • Vídeo, porém, mostra PM atirando nas costas de homem que estava correndo
  • SSP diz que circunstâncias estão sendo apuradas pela Polícia Militar
  • Suspeito teria tentado roubar um bar com comparsa; ambos foram reconhecidos por testemunhas

Um policial militar matou, com dois tiros nas costas, um suspeito de roubar um bar em Osasco, na região metropolitana, às 21h35 de ontem. A versão apresentada pelos PMs na delegacia, no entanto, contrasta com imagens que flagraram a ação.

De acordo com os policiais militares Alípio Pereira Rodrigues e Layrton Levi Gonçalves de Almeida, eles foram acionados para ir à avenida Getúlio Vargas para tentar evitar um roubo em andamento dentro de um bar.

A versão apresentada pelos PMs é que, ao chegar ao local, se depararam com dois suspeitos dentro de um Ford Fiesta vermelho. Durante abordagem, Sandro Alves dos Santos, 48, foi detido em flagrante com uma arma de fogo.

Ainda de acordo com a versão dos policiais, Ivan Alves Tuchtler, 50, que estava com Sandro, "partiu para cima" do PM Rodrigues com uma arma de fogo. Nesse momento, o PM afirmou na delegacia que "repeliu a uma injusta agressão com dois disparos".

Imagens feitas por pessoas que passavam pelo local no momento e que estão sob posse da Polícia Civil mostram uma versão diferente da apresentada pelos PMs Rodrigues e Almeida.

Pelas imagens, é possível ver um PM correndo com uma arma de fogo e atirando nas costas de um homem que também estava correndo. O homem cai no instante que é atingido. A Corregedoria da PM investiga se houve alguma irregularidade.

Os PMs afirmaram que preservaram o local dos fatos e que acionaram o SAMU, que socorreu Tuchtler até o pronto-socorro Rochedalle, onde não resistiu aos ferimentos.

O dono de um bar afirmou à Polícia Civil que os dois homens anunciaram assalto no local. Um estava com uma arma de fogo e o outro com uma faca. Outras testemunhas corroboraram com o depoimento.

Ambos foram reconhecidos como autores do roubo.

Compareceu na delegacia, ainda, uma mulher que afirmou que pessoas com as mesmas características, horas antes, a abordaram m uma rua de Osasco tentando roubá-la e estuprá-la.

"Mais um caso em que a versão apresentada pelos policiais não condiz com as provas que estão emergindo na investigação dos fatos. Casos assim corroem a confiança que as pessoas em geral possam ter com a foça policial", diz o professor de gestão pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Rafael Alcadipani.

"Ninguém quer ter uma polícia com membros que mentem. Que a investigação estabeleça a verdade dos fatos e que a Polícia Militar tenha um trabalho mais forte para lidar e enfrentar a letalidade policial. Essa é uma das urgências da política de segurança pública de São Paulo", complementou o especialista.

O ouvidor das polícias de São Paulo, Benedito Mariano, afirmou que instaurou procedimento interno. "Solicitei para a Corregedoria da PM avocar o caso e, também, afastar os PMs envolvidos", disse.

Em nota, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) afirma que "todas as circunstâncias relativas ao fato estão sendo apuradas pela Polícia Militar, que instaurou um IPM (Inquérito Policial Militar)".

Ainda segundo a pasta, "um dos autores do crime, de 48 anos, foi preso em flagrante. As armas dos PMs envolvidos no fato foram encaminhadas para perícia, assim como um revólver calibre .38 e uma faca, que estavam com os criminosos. O caso foi registrado pelo 10º DP de Osasco".

Os PMs foram afastados do serviço operacional e levados para acompanhamento psicológico. Segundo a PM, já foram ouvidas testemunhas e as imagens foram analisadas.

Segurança pública