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"Minha relação com Doria foi nenhuma", diz ouvidor das polícias substituído

Benedito Domingos Mariano, ex-ouvidor das Polícias de São Paulo, não foi recebido por Doria nenhuma vez - Rafael Roncato/UOL
Benedito Domingos Mariano, ex-ouvidor das Polícias de São Paulo, não foi recebido por Doria nenhuma vez Imagem: Rafael Roncato/UOL

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

18/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Ex-ouvidor das polícias compara como era tratado por Mário Covas e João Doria
  • Para ele, narrativa do atual governador incentiva aumento na letalidade policial
  • Benedito Mariano não foi reconduzido ao cargo e soube disso pelo Diário Oficial

O sociólogo Benedito Mariano foi o primeiro ouvidor das polícias Civil e Militar de São Paulo, entre 1995 e 2000, ao ser escolhido para o cargo pelo então governador Mário Covas (PSDB). Depois, foi nomeado em 2018 por Geraldo Alckmin (PSDB). E, apesar de ter o apoio das cúpulas das duas polícias, não foi reconduzido por João Doria (PSDB).

Para ele, há diferenças claras entre os três governadores do PSDB, que foram e são nomes importantes no tucanato paulista —o que tem se refletido em diferenças de planos de governo do partido. Enquanto há 25 anos São Paulo criava um órgão para controlar a atividade policial e reduzir a letalidade das polícias, agora o governo elogia ações com mortes de civis em supostos confrontos.

A diferença da política da segurança pública entre o PSDB de 1995 e o de 2020 também se mostrou no tratamento entre os governadores e o ouvidor. "Com Mário Covas, eu tive apoio irrestrito do governador. Eu almoçava no Palácio dos Bandeirante para propor melhorias às polícias. Com Alckmin, a relação era menor, mas tive respeito e respaldo. Com Doria, nenhuma", diz o ex-ouvidor, que atuou até 6 de fevereiro.

"Por ter sido escolhido por unanimidade na listra tríplice e por gozar de confiança e respeito das polícias, eu achava que tinha condições de ser reconduzido. Oito dias antes de acabar [o mandato], recebi a confirmação da cúpula de que meu nome seria orientado ao governador. Achei que estava encaminhado. Recebi com surpresa [a notícia da troca]. Foi uma deselegância absurda. Soube pelo Diário Oficial", afirmou.

Para o sociólogo, a ouvidoria defendia o contrário do governador: a diminuição da letalidade policial. Isso teria incomodado Doria. "Pedi alguns encontros com o governador. Não estive nenhuma vez com ele. Tive cinco audiências com o secretário da Segurança Pública, que sempre foi cordial. Com o governador não, não me recebeu nenhuma vez", complementou.

Rafael Roncato/UOL
Imagem: Rafael Roncato/UOL

Doria incentiva letalidade, diz ex-ouvidor

Benedito Mariano diz que o discurso de Doria "não contribui para diminuir a letalidade policial de São Paulo". "Evidentemente que havia um conflito entre a narrativa do governador, que homenageia policiais envolvidos em ocorrências com mortes, e a ouvidoria atualmente", afirmou.

"Situações simbólicas: o fato de condecorar policiais da ocorrência de 11 mortos em Guararema. Era confronto ao crime organizado. Em média, ocorrências desse tipo representaram 1% do total em 2017. Mas teve resultado de 11 mortes. Não se comemoram mortes. Depois de analisar todos os laudos, concluí que havia indícios de excesso em pelo menos quatro deles. Mortes sem resistência, com tiros dados à distância de um palmo", exemplificou.

Rafael Roncato/UOL
Imagem: Rafael Roncato/UOL

O ex-ouvidor indica que o discurso dos governos estadual e federal, de que, com maior letalidade, haveria mais segurança, é uma "falácia". "A boa polícia é a que chega antes, que evita o crime. Há um sucateamento da polícia judiciária, investigativa, com déficit de 12 mil policiais. Se não investe na polícia que investiga, acaba apostando uma polícia ostensiva", argumentou.

Para Mariano, o sucateamento, o baixo salário dos policiais e os discursos de Doria se refletem em casos de violência policial, a exemplo do PM flagrado agredindo uma grávida no interior do estado. "É preciso enfatizar o que já está previsto há anos sobre abordagens, para que não tenha abuso e agressão. Uma preocupação efetiva para diminuir as agressões. Se não acontecer isso, você pode ter um bom protocolo padrão de abordagem, mas casos como esse vão se repetir", afirmou.

A ouvidoria propôs um piso estadual para as polícias que elevaria em 35% os salários. "A base das polícias de SP é uma das piores. Nós fizemos uma proposta de 35%, o aumento foi de 5%. Não adianta falar que temos a melhor polícia e pagar o que se paga. Por fim, torço para que o novo ouvidor continue atuante e propositivo", acrescentou.

A reportagem informou à assessoria de imprensa de Doria sobre os posicionamentos de Benedito Mariano. A assessoria informou que o governador se reúne semanalmente com a cúpula das polícias Civil, Militar e Científica, e que a função da Ouvidoria é reunir informações para entregar para a Corregedoria.

Depois, a assessoria encaminhou uma entrevista que Doria cedeu ontem ao canal Globo News. Nela, o governador disse que a escolha pelo novo ouvidor "nem foi para punir, nem para prejudicar. Apenas um processo democrático de renovação. Eu acredito na renovação: é importante em todos os tribunais, corregedorias, é sempre melhor utilizar a inovação e permitir que outros possam exercer esse papel". "Nem insatisfeito, nem satisfeito, sou a favor do rodízio", complementou.

O pedido de entrevista com o governador do UOL não foi atendido.

Segurança pública