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PCC lava dinheiro no exterior com doleiros, nos moldes da Lava Jato, diz MP

Dinheiro apreendido em operação da PF contra traficantes, incluindo membros do PCC - Divulgação/Polícia Federal
Dinheiro apreendido em operação da PF contra traficantes, incluindo membros do PCC Imagem: Divulgação/Polícia Federal

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

01/07/2020 04h00Atualizada em 01/07/2020 09h18

Nos anos 90, dois irmãos italianos, acusados de integrar a máfia Camorra, estavam detidos em Taubaté (SP) com homens apontados como os principais assaltantes de banco de São Paulo. Esses ladrões aprenderam a se organizar, roubar e sequestrar e, pouco depois, formaram a maior facção criminosa do Brasil, o PCC (Primeiro Comando da Capital), seguindo a dica dos italianos de elaborar um estatuto com regras bem definidas.

Quase três décadas depois, operadores financeiros presos por meio da Operação Lava Jato tiveram contato direto em prisões do país com integrantes da facção. Assim como nos anos 90, o PCC se aperfeiçoou dentro dos presídios para obter mais lucro, aprendendo dinâmicas de lavagem de dinheiro. Ainda embrionária, mas já em atividade, a lavagem de dinheiro refinada é o que falta para o facção alcançar o status de máfia, segundo o MP (Ministério Público).

Em entrevista exclusiva ao UOL, o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), diz que "em questão de muito pouco tempo" o grupo terá operações bem estruturadas de lavagem de dinheiro. Atualmente, diz o promotor, o PCC já lava dinheiro nos moldes dos operadores pegos na Operação Lava Jato, com auxílio de doleiros.

Esse dinheiro está vindo via doleiro, assim como funciona na Lava Jato. O sujeito recebe o código internacional e esse código pode ser resgatado depois no Paraguai, na Bolívia, no Brasil, em São Paulo, onde esse doleiro tiver as suas ramificações.
Promotor Lincoln Gakiya

"O grosso do dinheiro do PCC, que é produto do tráfico internacional, não está vindo para o Brasil em espécie. Você imagina: se o PCC coloca de 1 a 2 toneladas por mês para a Europa —só o Fuminho [traficante brasileiro Gilberto Aparecido dos Santos] colocava no particular uma tonelada por mês—, imagine o volume físico de dinheiro para retornar ao Brasil? Teria dificuldade para voltar essa remessa de dinheiro ao Brasil", afirmou o promotor.

Segundo Lincoln Gakiya, "existe uma lavagem de dinheiro do PCC hoje nos países limítrofes, principalmente na Bolívia e no Paraguai, porque a gente sabe de compra de aviões e de fazendas, isso nós já temos conhecimento. Precisamos saber em que nível está essa lavagem. Mas é o que venho dizendo: era questão de tempo. E de oportunidade para que isso ocorresse de maneira segura".

Promotor Lincoln Gakiya - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Promotor Lincoln Gakiya
Imagem: Arquivo Pessoal

"O PCC já tentou lavar dinheiro aqui dentro, com imóveis, postos etc. Mas, cada vez que o indivíduo da facção que está em liberdade e resolve se arriscar e ir para um ramo de negócios para tentar lavar, se ele perder, se a polícia conseguir sequestrar esses bens, ele vai pagar, provavelmente, com a vida. É uma dinâmica que dificulta que o indivíduo que esteja em liberdade pegue o dinheiro da facção para aplicá-lo aqui dentro do país", complementou o promotor.

Ainda de acordo com ele, quando o dinheiro volta ao Brasil, os investigadores perdem o fio da meada da remessa. "Há indícios de que ela realmente ocorra. Quando essa lavagem estiver estruturada, aí a gente vai classificar o PCC como máfia. Atualmente, está num estágio pré-mafioso, mas é uma questão de muito pouco tempo para que isso possa avançar. E essa lavagem ser mais efetiva e concretizada", avaliou.

Há investigações em andamento no Brasil, com colaboração internacional, que tentam seguir o rastro do dinheiro da facção. O MPF (Ministério Público Federal) chegou a constituir uma equipe para investigar a ligação entre o PCC e a máfia italiana 'Ndrangheta. Secretário de Cooperação Internacional do MPF, Hindemburgo Chateaubriand Filho afirmou em maio deste ano que a nova equipe se fazia necessária para trocar informações de maneira mais ágil entre os órgãos competentes.

Conexão Santos-Gioia Tauro

Investigações europeias e sul-americanas já desenharam a ligação bem estabelecida entre o PCC e a máfia 'Ndrangheta. Segundo Gaetano Paci, procurador antimáfia de Calábria, "há muitas evidências de uma relação entre a 'Ndrangheta, que atua no cenário internacional, e narcotraficantes sul-americanos. Porque muitas cargas de cocaína partem precisamente de portos brasileiros, principalmente de Santos. Muitos desembarcam em Gioia Tauro, um dos maiores portos do Mediterrâneo e que é controlado pela 'Ndrangheta", diz.

De acordo com o coronel Francesco Fallica, adido policial italiano em Brasília, o pagamento da máfia italiana para o PCC não acontece com o transporte do dinheiro vivo da Europa até os brasileiros. Em vez disso, os criminosos europeus abrem restaurantes, lojas e outros pequenos comércios no Brasil com capacidade para gerar muitos valores em espécie. Com a sobra lucrativa desses negócios é que o dinheiro da 'Ndrangueta chega à facção brasileira.

O policial afirma que o inverso também ocorre. Segundo Fallica, o PCC tem pequenos restaurantes e estabelecimentos comerciais locais na Europa para gerar dinheiro em espécie e poder quitar eventuais dívidas e transações com os mafiosos italianos. O policial não revelou onde e quais seriam esses mercados legais no Brasil e na Europa dominados pelas organizações criminosas para lavar o dinheiro do narcotráfico.

Ouça também o podcast Ficha Criminal, com as histórias dos criminosos que marcaram época no Brasil. Esse e outros podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts, no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e outras plataformas de áudio.

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