PUBLICIDADE
Topo

Polícia conclui inquérito e indicia agressores de médica no RJ

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

07/07/2020 15h16

Resumo da notícia

  • Indiciados por lesão corporal grave, dois agressores podem pegar até 5 anos de prisão
  • Ao todo, 14 pessoas responderão por infração de medida sanitária em meio à pandemia
  • Médica agredida sofreu duas fraturas no joelho esquerdo

A Polícia Civil encaminhou hoje ao Ministério Público o inquérito sobre as agressões sofridas pela médica Ticyana Azambuja, brutalmente espancada no dia 30 de maio por frequentadores de uma festa clandestina no Grajaú, zona norte do Rio.

Quatro pessoas foram indiciadas pelas agressões, conforme antecipou reportagem do UOL da semana passada. O PM Luiz Eduardo Salgueiro, proprietário do veículo depredado, foi enquadrado por prevaricação —ele é agente da lei e não impediu as agressões.

Indiciados por lesão corporal grave, Rafael Martins Presta e Rafael Henrique Del Ferreira poderão pegar até cinco anos de prisão.

Presta aparece em um vídeo da câmera de segurança do Hospital Italiano aplicando um mata-leão na médica, que desmaia. Ferreira aparece nas imagens usando um martelo para agredir a vítima. Ele também deu um soco por trás em uma testemunha, que estava acionando a polícia pelo celular.

O episódio foi registrado por câmeras de vigilância e por vídeos feitos por moradores. Depois de depredar um veículo estacionado irregularmente na frente da festa, que pertencia ao policial militar de folga, Ticyana foi brutalmente agredida por quatro pessoas, segundo a investigação. Ela sofreu fratura em dois ossos do joelho esquerdo, passou por cirurgia e ainda está afastada do trabalho para se recuperar das lesões.

A Polícia Civil identificou 14 pessoas na festa, que foram indiciadas pelo artigo 268 do Código Penal por infração de medida sanitária preventiva em meio à pandemia.

Quem são os agressores e como deverão ser indiciados

  • Rafael Martins Presta - Lesão corporal grave. Dono da casa que promovia festas clandestinas, ele foi o responsável pelas lesões mais graves. Rafael aplicou um mata-leão em Ticyana, quando ela abordava um motoboy para fugir. A vítima desmaiou e foi jogada no meio da rua. Em seguida, os vídeos mostram Rafael carregando Ticyana às costas e a atirando no chão. Na queda, ela sofreu a fratura no joelho.
  • Rafael Henrique Del Ferreira - Lesão corporal grave. Após retirar o martelo de Ticyana, ele usou o objeto para agredi-la, enquanto ela era carregada por Presta. Ele também aparece no vídeo dando um soco pelas costas em Marco Antônio Guimarães Cardoso, agredido porque estava usando o celular chamar a polícia.
  • Ester Mendes de Araújo - Lesão corporal leve. Ela aparece nas imagens puxando os cabelos de Ticyana enquanto ela era arrastada por Rafael Presta.
  • Luiz Cláudio Balbino dos Santos - Lesão corporal leve. O vídeo mostra Luiz Cláudio agredindo a médica com um tapa no rosto, enquanto ela era carregada. PM
  • Luiz Eduardo dos Santos Salgueiro - Prevaricação. O PM de folga era um dos frequentadores da festa. Era dele o carro depredado, estacionado irregularmente. Imagens mostram que ele arrastou a vítima pelo braço enquanto ela estava desmaiada. Ele acompanhou as agressões de Presta, como mostram os vídeos, mas nada fez para impedir.
  • Marcus Vinicius Alamin Missena - Tentativa de lesão corporal. Ele aparece em um dos vídeos tirando a camisa e partindo para cima do defensor Marco Antônio e sendo contido.

Médica não vai se mudar e ainda lida com as dores

Após a agressão, a médica Ticyana Azambuja chegou a dizer que iria se mudar do apartamento no Grajaú porque tinha medo de sofrer algum tipo de represália dos agressores —o prédio onde ela mora fica em frente à casa de Rafael Presta. Mas ela mudou de ideia e decidiu permanecer no bairro, incentivada pelos próprios moradores.

5.jun.2020 - Médica Ticyana Azambuja fala na janela do seu apartamento sobre as agressões sofridas por frequentadores de uma festa clandestina no Grajaú, zona norte do Rio de Janeiro - Herculano Barreto Filho - Herculano Barreto Filho
5.jun.2020 - Médica Ticyana Azambuja fala na janela do seu apartamento sobre as agressões sofridas por frequentadores de uma festa clandestina no Grajaú, zona norte do Rio de Janeiro
Imagem: Herculano Barreto Filho

"Outro dia, uma vizinha me escreveu dizendo que ora toda noite por mim, porque ela voltou a dormir [após o fim das festas clandestinas em meio à pandemia]. A comunidade me abraçou", disse ao UOL.

Eu estou redimensionando os meus riscos. Tomei uma decisão corajosa de ficar. Estava muito difícil lidar com a ideia de sair daqui. Seria um segundo ato de violência

Ticyana Azambuja, médica agredida

Ticyana foi submetida a uma cirurgia no joelho fraturado e só retirou o gesso na última quinta-feira (25). Ela agora convive com as dores e com as limitações para dobrar o joelho. As sessões de fisioterapia só devem começar no fim do mês. Ainda não há previsão para que ela volte a trabalhar.

Relembre o caso

Ticyana usou um martelo para quebrar o retrovisor e o vidro traseiro de uma Mini Cooper Paceman de 2014 avaliada em R$ 100 mil, que pertencia ao PM de folga Luiz Eduardo e estava estacionada irregularmente na Rua Marechal Jofre, no Grajaú, zona norte do Rio, em frente à festa clandestina, que ocorria ao lado de uma unidade do Corpo de Bombeiros.

Em seguida, a médica saiu correndo e foi perseguida por Rafael Presta e Rafael Ferreira, que a alcançaram quando ela pedia ajuda a um motoboy em frente ao Hospital Italiano. Ferreira retirou o martelo dela. Presta aplicou um mata-leão na médica, que desmaiou e foi arrastada por alguns metros até o meio da rua.

30.mai.2020 - O comerciante Rafael Presta, anfitrião da festa clandestina e aniversariante, carrega a médica Ticyana Azambuja nas costas. Um outro homem de camisa amarela segura o martelo usado por ela para quebrar o retrovisor e o vidro traseiro do carro do PM - Reprodução - Reprodução
30.mai.2020 - O comerciante Rafael Presta, anfitrião da festa clandestina e aniversariante, carrega a médica Ticyana Azambuja nas costas. Rafael Ferreira, de camisa amarela, segura o martelo usado por ela para quebrar o retrovisor e o vidro traseiro do carro do PM
Imagem: Reprodução

Luiz Eduardo, então, apareceu e arrastou Ticyana pelo braço. Mas logo saiu de cena. Presta, então, a carregou às costas. Nesse instante, Ester a puxou pelos cabelos. Luiz Cláudio a agrediu com um tapa no rosto. Ferreira usou o martelo para agredi-la. Em seguida, Presta a atirou no chão, em frente ao carro.

Na queda, Ticyana sofreu duas fraturas no joelho esquerdo. O defensor público Marco Antônio Guimarães Cardoso, que mora na mesma rua, pegou o celular para acionar a polícia. Mas acabou sendo agredido por um soco nas costas dado por Ferreira.

30.mai.2020 - Uma mulher puxa Ticyana pelos cabelos, enquanto ela é carregada por Rafael Presta - Reprodução - Reprodução
30.mai.2020 - Ester puxa Ticyana pelos cabelos, enquanto ela é carregada por Rafael Presta
Imagem: Reprodução

Segundo testemunhas, os agressores se identificavam como policiais, inibindo qualquer tentativa de reação. As agressões foram flagradas por vídeos e fotos feitos por moradores. O UOL também teve acesso às câmeras de segurança do Hospital Italiano, que registraram o começo das agressões. Todo o material foi encaminhado para a Polícia Civil.

A polícia chegou a investigar se a renda do PM Luiz Eduardo, que recebeu renda líquida de R$ 5.700 em maio, era compatível com o veículo. Mas não constatou irregularidade, já que a família conta com renda extra de uma pet shop.

O que dizem os envolvidos

Procurada, a defesa de Rafael Presta e Rafael Ferreira disse que irá aguardar o relatório final da investigação. O representante de Ester Mendes de Araújo disse que ela não irá se pronunciar. A reportagem não localizou Luiz Cláudio Balbino dos Santos e Marcus Vinicius Alamin Missena.

O advogado Roger Doyle Couto Ferreira, que representa Luiz Eduardo dos Santos Salgueiro, negou que o PM tenha presenciado as agressões ou se omitido de agir —o UOL teve acesso a fotos e vídeos que mostram que o policial de folga presenciou, mas não impediu os ataques. Em vídeo publicado pelo UOL, o policial aparece arrastando a médica pelo braço após ela desmaiar ao ser contida por um golpe mata-leão.

Coronavírus