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Segurança pública

Polícia rastreou trajeto de 40 km na fuga após assassinato de bicheiro

18.nov.2020 - Cabo da PM, Rodrigo Silva das Neves teve prisão temporária decretada pela Justiça, suspeito de envolvimento no assassinato do contraventor Fernando Iggnácio, fuzilado no estacionamento de heliporto no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio - Divulgação/Disque Denúncia
18.nov.2020 - Cabo da PM, Rodrigo Silva das Neves teve prisão temporária decretada pela Justiça, suspeito de envolvimento no assassinato do contraventor Fernando Iggnácio, fuzilado no estacionamento de heliporto no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio Imagem: Divulgação/Disque Denúncia

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

18/11/2020 16h50

Os criminosos responsáveis pelo assassinato do contraventor Fernando Iggnácio, fuzilado na tarde de 10 de novembro no estacionamento de um heliporto no Recreio, zona oeste do Rio, percorreram 40 km do local do crime até um condomínio residencial em Campo Grande, residência de Rodrigo Silva das Neves, um PM da ativa suspeito de participar da ação. Iggnácio era genro do bicheiro Castor de Andrade, morto em 1997.

Na corporação há 7 anos, o cabo é lotado no 5º BPM (Praça da Harmonia) e está foragido da Justiça. Ele teve a prisão temporária decretada hoje. O Disque Denúncia divulgou no fim da tarde de hoje um cartaz para pedir informações à população sobre o seu paradeiro. Os investigadores ainda analisam as câmeras de segurança que captaram o deslocamento do grupo para identificar outros três suspeitos.

Segundo a investigação da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), o PM e os seus outros três comparsas ficaram por mais de quatro horas em uma área de mata de 15 mil m², posicionados atrás de um muro e de frente para o veículo de Fernando Iggnácio, à espera da sua chegada. Após abrir fogo contra a vítima, atingida por ao menos cinco tiros de fuzil AK-47 a uma distância de menos de 5 m, eles usaram uma escada para escalar um muro pelos fundos desse terreno e embarcaram em um veículo.

Com o auxílio de câmeras de vigilância, a Polícia Civil rastreou a fuga e todo o trajeto dos criminosos até Campo Grande, na zona oeste do Rio. Com isso, foi possível identificar o imóvel onde estavam escondidas as armas e o veículo usado na fuga.

"Conseguimos imagens de estabelecimentos comerciais e construímos toda a rota", disse o delegado Moyses Santana, durante coletiva hoje à tarde, em uma entrevista coletiva na sede da DHC, na Barra.

Investigadores foram ao esconderijo do grupo ontem à noite, em uma operação secreta para apreender o carro usado na fuga e dois fuzis modelo AK-47, um 7.62 e outro calibre 5.56. Ao menos dois desses fuzis foram utilizados no crime e tinham uma espécie de camuflagem para dificultar a identificação, segundo a polícia.

A esposa do PM, que estava no imóvel onde ocorreu a apreensão, prestou depoimento na delegacia hoje à tarde. Questionado, o delegado disse que a continuidade da investigação segue sob sigilo.

Polícia Civil apresentou 4 fuzis e farda do PM suspeito de participar do assassinato do contraventor Fernando Iggnácio - Reprodução - Reprodução
Polícia Civil apresentou 4 fuzis e farda do PM suspeito de participar do assassinato do contraventor Fernando Iggnácio
Imagem: Reprodução

Os últimos passos do contraventor

Antes de ser morto, Fernando Iggnácio seguiu à risca um hábito adotado sempre que viajava de helicóptero com a esposa Carmem Lúcia de Andrade Iggnácio, filha de Castor de Andrade.

Depois de voltar de Angra dos Reis (RJ), ele desembarcou sozinho, foi conduzido em um veículo elétrico até o estacionamento e deu os últimos passos até o seu carro após percorrer cerca de 100 m, onde foi baleado. Segundo a polícia, ele só era acompanhado por seguranças em Angra nesse trajeto.

Segundo fontes na Polícia Civil, o bicheiro costumava descer do helicóptero da família sozinho e voltar de carro até a área da aterrissagem para buscar a esposa e a bagagem. Ao ouvir os disparos, Carmem Lúcia deixou o local na aeronave.

Carro do contraventor Fernando Iggnácio Miranda atingido pelos tiros, estacionado ao lado da delegacia de homicídios do Rio de Janeiro. O veículo apresenta pelo menos quatro perfurações - Herculano Barreto Filho/UOL - Herculano Barreto Filho/UOL
Carro do contraventor Fernando Iggnácio Miranda atingido pelos tiros, estacionado ao lado da delegacia de homicídios do Rio de Janeiro. O veículo apresenta pelo menos quatro perfurações
Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

Ao menos três veículos foram atingidos pelos tiros. Entre eles, o próprio carro da vítima, que teve com quatro perfurações na lataria. Os disparos danificaram até mesmo o vidro blindado, que ficou trincado.

Foram encontradas cápsulas calibre 7.62 de ao menos duas armas diferentes no local do crime. Os investigadores analisaram imagens captadas por 64 câmeras de vigilância do heliporto. Um homem portando fuzil que usava uma touca foi visto por uma testemunha. Mas não se sabe se ele era o PM identificado ou outro comparsa.

Sob a condição de anonimato, uma testemunha ouvida pelo UOL disse ter escutado ao menos dez disparos. "Foi muito tiro. Mas não consegui ver quem atirou, porque há uma área de mata alta pelos fundos. Parece ter sido ação de quem observou a rotina por aqui", disse a testemunha.

10.nov.2020 - Rota de fuga de assassinos do contraventor Fernando Iggnácio Miranda - Herculano Barreto Filho/UOL - Herculano Barreto Filho/UOL
10.nov.2020 - Rota de fuga de assassinos do contraventor Fernando Iggnácio Miranda
Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

Disputa por território do jogo do bicho deixa mais de 50 mortes

A disputa pelo controle da contravenção na zona oeste do Rio é a principal linha de investigação da morte de Iggnácio. Segundo investigações da Polícia Federal, mais de 50 assassinatos até 2007 são atribuídos à guerra da contravenção.

Em 1998, o assassinato de Paulo Andrade, o Paulinho, escolhido como herdeiro do jogo do bicho, fez com que Fernando Iggnácio, seu cunhado, assumisse o lugar dele na disputa.

Meses depois, a polícia identificou como autor dos disparos o ex-PM Jadir Simeone Duarte. Em depoimento, Duarte acusou Rogério de ser o mandante do crime. O próprio Rogério foi vítima de uma tentativa de assassinato.

O próprio Rogério foi vítima de uma tentativa de assassinato em 2001. Em abril daquele ano, o filho de Rogério de Andrade, com 17 anos na época, morreu em um atentado a bomba na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, quando o carro que dirigia explodiu.

Em 2007, Fernando Iggnácio foi preso pela Polícia Civil do Rio. Meses depois, Rogério Andrade foi pego pela Polícia Federal. Naquele mesmo ano, Rogério Andrade e Fernando Iggnácio foram alvo da operação Gladiador, da PF, que investigou o esquema da dupla e a corrupção de policiais no Rio.

Contraventor foi atingido por tiros de fuzil HK-47

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