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Envenenamento em MG lembra caso Backer; tratamento pode levar a coma

Mulher foi envenenada por marido com cerveja, usando mesma substância que contaminou bebidas da Backer - Pixabay
Mulher foi envenenada por marido com cerveja, usando mesma substância que contaminou bebidas da Backer Imagem: Pixabay

Bruno Torquato

Colaboração para o UOL, em Betim (MG)

22/04/2021 21h41Atualizada em 22/04/2021 21h41

Um caso de envenenamento em Minas Gerais chamou a atenção no início dessa semana por suas semelhanças com o caso Backer, que estourou no início de 2020, e levantou questionamentos sobre o fácil acesso a elementos tóxicos em sites públicos.

Um homem, de 42 anos, foi preso na segunda-feira (19) pela Polícia Civil, em Mateus Leme (MG), após confessar ter envenenado a esposa com o dietilenoglicol misturado em cerveja, mesma substância que intoxicou clientes da empresa de bebidas mineira.

Ele procurou o hospital e a polícia para dizer que estaria arrependido. À polícia, o homem apresentou Nota Fiscal de compra do produto químico, realizada pelo Mercado Livre por aproximadamente R$35. Agora procurado pelo UOL, o site disse para a reportagem que repudia "o uso indevido de sua plataforma".

A delegada responsável pelo caso em Mateus Leme, Lígia Mantovani, disse à imprensa ainda na última segunda-feira que o caso da Backer poderia ter sido inspiração para o suspeito, mas a compra e a venda, realizadas pelo site Mercado Livre, também estão em investigação no inquérito instaurado pela Polícia Civil.

A empresa vendedora seria de São Paulo, mas não teve o nome divulgado.

Como dietilenoglicol reage no organismo

A gravidade da intoxicação por dietilenoglicol é diretamente ligada à quantidade ingerida. É o que explica o nefrologista Vinicius Sardão Colares, vice-presidente da Sociedade Mineira de Nefrologia da Zona da Mata.

"O [possível] óbito está relacionado a quantidade de ingestão. A gente não sabe a dose tóxica, mas os estudos mostram que é uma dose relativamente alta", disse ao UOL. Ele ressaltou que, dos casos graves, cerca de 20% evoluem para óbito.

De acordo com nefrologista, os sintomas de intoxicação com essa substância têm três etapas. A gastrointestinal, com náuseas e vômitos; a renal, com a insuficiência dos órgãos; e a neurológica. Essas alterações ocorrem quando a substância começa a se depositar no organismo. Com isso, explica Vinicius, o objetivo do tratamento é retirar o produto químico do organismo o mais rápido possível.

"É um tratamento que pode ser feito por diálise ou, se for caso mais grave, por meio de uma forma mais complexa com álcool intravenoso, pois ele compete com o dietilenoglicol no organismo", diz Vinicius.

Ele alerta, entretanto, que o tratamento mais complexo precisa ser feito com muito monitoramento e dentro de um ambiente hospitalar, pois pode levar ao coma.

A recomendação dele é que, ao desconfiar de intoxicação, por qualquer substância, é preciso procurar atendimento médico o mais rápido possível para realização de exames neurológicos, nos rins e no fígado.

Mercado Livre se posiciona sobre venda pelo site

A reportagem tentou localizar o anúncio da loja escolhida pelo suspeito de Minas Gerais, mas achou apenas um link de Joinville (SC) comercializando o produto.

Nos comentários, usuários do site se diziam surpresos ao citar que uma outra empresa teria ocultado anúncios de venda. Ao responder, o anunciante garantiu que, no caso de sua loja, "temos todas as licenças para vender. Não nos responsabilizamos por uso indevido". A data da resposta é de hoje.

Já no começo da noite de hoje, após contato do UOL com o Mercado Livre, o anúncio visualizado pela reportagem não estava mais no ar.

O Mercado Livre disse que "tem todo interesse em excluir qualquer anúncio que desrespeite seus Termos e Condições e a legislação em vigor".

Na lista de objetos proibidos para vendas, que constam nos termos e condições da plataforma, o site cita que são vetados "precursores químicos, substâncias controladas e/ou produtos químicos ou industriais cuja venda esteja sujeita a licença de venda controlada".

Ao UOL, o site destacou ainda que possui meios para que os anúncios sejam vistoriados e, em caso de ilegalidade, removidos do ar. Para isso, dizem contar com equipe de especialistas e tecnologia que detectam irregularidades automaticamente, inclusive por imagem, "para baixar preventivamente o produto ilegal de forma proativa".

Apesar disso, a plataforma frisa que não é responsável pelos produtos que estão à venda.

"É importante esclarecer que o Mercado Livre, em sua atuação como plataforma de intermediação, não é responsável pelo conteúdo gerado por terceiros, neste caso o vendedor anunciante, conforme já está consolidado na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) na aplicação do Marco Civil da Internet".

A empresa também destacou que os usuários podem utilizar a opção de denunciar anúncios, disponíveis em todas as publicações.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) disse ao UOL que a comercialização da substância não é regulamentada por ela.

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