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Segurança pública

Operação com 25 mortos no Jacarezinho é a mais letal da história do Rio

Operação no Jacarezinho (RJ) deixa dezenas de mortos

Igor Mello

Do UOL, no Rio

06/05/2021 14h51

A operação da Polícia Civil na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio, já é ação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. A operação registrou ao menos 25 mortos —entre eles, um policial baleado na cabeça. A identidade de 24 mortos não foi divulgada.

O levantamento foi feito pelo Geni (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos) da UFF (Universidade Federal Fluminense) a pedido do UOL. O grupo de pesquisa compila dados de operações policiais no estado ocorridas desde 1989.

Após denúncias de violações durante a operação policial, grupos de defesa dos direitos humanos foram ao Jacarezinho.

Até hoje, a ação formal com maior número de vítimas havia ocorrido em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, quando houve 23 mortos em 1998. No Complexo do Alemão, em 2007, uma operação deixou 19 mortos. A letalidade da operação no Jacarezinho também superou a Chacina de Vigário Geral, em 1993, quando 21 pessoas foram mortas por um grupo de extermínio formado por policiais.

A maior chacina ocorrida no estado do Rio de Janeiro foi a Chacina da Baixada: em 2005, um grupo de policiais que atuavam como uma espécie de grupo de extermínio matou 29 pessoas, incluindo mulheres e crianças, em diversos pontos dos municípios de Nova Iguaçu e Queimados.

A Operação Exceptis, deflagrada hoje pela DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente), contou com o apoio de outras unidades, como a Core (Coordenadoria de Recursos Especiais). Também foram usados blindados e ao menos um helicóptero —no qual foi possível identificar atiradores portando fuzis.

A investigação teve início a partir de informações repassadas à DPCA de que traficantes vêm aliciando crianças e adolescentes para integrar a facção que domina o território, o CV (Comando Vermelho). Esses criminosos exploram práticas como o tráfico de drogas, roubo de cargas, roubos a transeuntes, homicídios e até sequestros de trens da Supervia

O policial civil morto durante a operação foi identificado como André Leonardo de Mello Frias, que atuava na Dcod (Delegacia de Combate às Drogas).

Pesquisador cobra resposta das autoridades

Coordenador do Geni/UFF, o pesquisador Daniel Hirata cobra um posicionamento do secretário de Polícia Civil, Allan Turnowski, diante da alta letalidade e das denúncias de execuções extrajudiciais e outras violações de direitos humanos que começam a ser feitas por moradores da comunidade.

"Isto foi uma operação autorizada pelo governo do Rio de Janeiro e o secretário de Polícia Civil deve uma resposta à população do Rio de Janeiro. Como autoriza uma operação em meio à vigência da ADPF 635, que restringe operações durante a pandemia, com esse nível de letalidade?", questionou.

Diversas fotos e vídeos de corpos de vítimas da operação circulam nas redes sociais. Em uma delas, é possível ver um morto acomodado em uma cadeira de plástico com o dedo na boca.

Representantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, da Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), do IDPN (Instituto de Defesa da População Negra) e o ouvidor da Defensoria Pública do Estado, Guilherme Pimentel, foram à comunidade para averiguar as denúncias. O Nudedh (Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos) da Defensoria Pública também acompanha o caso.

O que diz a Polícia Civil

A Polícia Civil do Rio de Janeiro responsabilizou o que chamou de "ativismo judicial" pela morte do agente André Frias. "O sangue desse policial que faleceu em prol da sociedade de alguma forma está nas mãos dessas pessoas e entidades", disse o delegado Rodrigo Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil.

Questionado pelo UOL se a crítica era direcionada ao STF, que restringiu operações policiais durante a pandemia no Rio, Oliveira negou que se referisse ao Tribunal.

Ao falar sobre a operação policial mais letal do Rio, o delegado Felipe Curi, do DGPE (Departamento Geral de Polícia Especializada), referiu-se a suspeitos mortos como "homicidas" ao citar que foram baleados em troca de tiros com os agentes.

"Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante", disse. "O que causa muita dor na gente é a morte do nosso colega", afirmou.

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