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Segurança pública

Presos no Jacarezinho dizem à Justiça que apanharam para carregar 10 corpos

Igor Mello e Lola Ferreira

Do UOL, no Rio

26/05/2021 13h17

Ao menos dois homens presos em operação do Jacarezinho que deixou 28 mortos no dia 6 deste mês relataram terem sido obrigados por policiais civis a carregar dez corpos em um dos becos da favela.

Os relatos dos presos em audiência de custódia dois dias após a ação (veja o vídeo acima) expõem possível omissão de socorro, coação e desfazimento de cena de crime pelos policiais, segundo avalia a Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ.

A Polícia Civil —que atuou na operação— afirmou anteriormente que 27 pessoas foram retiradas com vida da favela e levadas a unidades de saúde. O UOL relevou contudo que o socorro levou ao menos três horas até o hospital e que quatro pessoas comprovadamente morreram antes de serem retiradas do Jacarezinho.

Na audiência de custódia, um dos homens presos, que era alvo da operação, conta que os policiais obrigaram ele e outro homem a carregarem "uns dez corpos".

Ele 'botou' pra descer num beco assim, tinha vários corpos assim no beco e ele falou: 'Cóe, você vai ser obrigado a levar esses corpos aqui'. Eu falei : 'Que isso, vai complicar levar esses corpos'. Já comecei a chorar, e eles: 'Chora não!', querendo pegar minha cara e tacar nas tripa [sic] do moleque que estava pra fora. Falei: 'Não vou levar esse aí não'. Aí ele começou a me bater, falando que eu era obrigado a levar. E eu falei: 'Não vou levar, não vou levar, não vou meter a mão nisso daí, não'. 'Bora, mete a mão logo!'. Aí começou [sic] várias porradas pra gente meter a mão. Mais de dez corpo [sic] ele fez isso comigo

Relato de preso na operação do Jacarezinho em audiência de custódia

'Houve coação e uso ilegítimo da força', diz OAB

A reportagem acessou o depoimento dele via SEI (Sistema Eletrônico de Informações) do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro). Há também laudos dos exames de corpo de delito, outros depoimentos e documentos sobre os seis presos pela Polícia Civil —três com mandados na Operação Exceptis e três em flagrante.

O registro de ocorrência de parte das prisões em flagrante diz dois deles estavam em uma casa com preso do depoimento já citado. O trio, de acordo com os policiais, portava rádios e drogas, mas nenhuma arma. Durante a audiência, os três negaram serem os donos dos itens.

Um dos presos em flagrante reforça o depoimento acima. "Tive que carregar uns dez corpo [sic] para dentro do caveirão", em referência ao carro blindado da corporação.

Procurada pelo UOL sobre os relatos dos presos, a Polícia Civil não respondeu nenhuma das perguntas enviadas a respeito das possíveis agressões cometidas por policiais ou supostos problemas nos laudos periciais. A corporação limitou-se a dizer —por meio de nota— que "esta versão dos criminosos presos será apurada no inquérito policial, que tem acompanhamento do Ministério Público", sem responder os questionamentos da reportagem.

A advogada Nadine Borges, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, avalia que os relatos dos presos são graves e evidenciam coação.

Eles carregaram corpos mediante uso da força e ameaça, considerando os depoimentos. É coação e uso ilegítimo da força

Nadine Borges, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ

A advogada também questiona a versão da Polícia Civil de socorro prestado na operação: "O depoimento mostra que, além do desfazimento da cena de crime, há um problema com a omissão de socorro. Não existe prestar socorro sem os equipamentos necessários, como ambulâncias."

Agressões

Os dois homens que relataram ter de carregar corpos também sofreram agressões, de acordo com seus depoimentos na audiência de custódia. Um deles relatou que recebeu vários chutes e socos nas costas. Em um momento do depoimento, aponta para uma área da cabeça: "Está até aberta aqui".

O outro diz que foi "agredido muito" com chutes, mas que não conseguiria identificar os policiais porque foi obrigado a ficar de cabeça baixa. As agressões relatadas constam no laudo expedido pelo IML (Instituto Médico-Legal) e há fotografias nítidas de hematomas nos olhos, nádegas e pernas.

Outro preso que tinha mandado expedido pela Justiça relata que caiu da escada quando estava sendo levado por policiais. Em seu laudo consta uma única foto, com baixa qualidade, que mostra um olho roxo.

No laudo de um dos presos em flagrante há duas imagens de baixa qualidade e o relato de que ele foi agredido com socos e chutes. E um terceiro preso em flagrante não teve seu laudo do IML anexado aos documentos no SEI.

Um terceiro homem que tinha mandado expedido para a Exceptis não disse ao IML ter sofrido agressões no momento da prisão, porém relatou na audiência de custódia que foi agredido com um fuzil por um policial.

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