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Segurança pública

Corregedoria da PM de SP investiga violência policial em Paraisópolis

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

28/06/2021 20h20

A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo, órgão responsável por apurar a conduta de agentes da corporação, abriu inquérito para investigar denúncias de abusos policiais na comunidade de Paraisópolis, uma das maiores da capital paulista, localizada na zona sul.

Moradores da favela relatam agressões, ameaças e invasões de propriedades por policiais militares desde a segunda semana de junho, quando a PM deu início a uma operação que tem espalhado medo e atrapalhado a rotina das pessoas que vivem no local, conforme noticiado pelo UOL.

Vídeos gravados por pessoas da comunidade mostram PMs abordando um homem deitado no chão e que grita de dor. Em outra gravação, agentes obrigam três jovens negros a se sentarem no chão. Há a suspeita de que eles sejam menores de idade.

O pedido de investigação foi feito pela Ouvidoria das Polícias de São Paulo. Para o ouvidor Elizeu Soares Lopes, as gravações mostram indícios de abusos policiais.

"Não é possível caracterizar uma situação [de violência] apenas pelas imagens, mas elas apontam indícios de abusos cometidos. Por isso é preciso apurar com base na Corregedoria", disse Lopes ao UOL.

Policiamento intensificado desde o dia 14

Na última quinta-feira (24) à tarde, a reportagem foi até Paraisópolis e, durante cerca de quatro horas, conversou com 12 moradores, que relataram a tensão na comunidade da presença maciça da PM.

Desde o dia 14, a Secretaria da Segurança Pública do governo João Doria (PSDB) aumentou o policiamento na região com a "Operação Saturação". Segundo a pasta, até a última sexta-feira (25), foram apreendidos 293 kg de drogas e quatro armas durante a ação.

De acordo com os moradores, a intensificação da presença da PM aconteceu depois do desaparecimento de duas mulheres numa festa. Elas foram encontradas mortas em uma rodovia na semana passada.

Na comunidade, a reportagem viu carros da Tropa de Choque e da Rota, batalhão de elite da PM, descerem e subirem as ruas da comunidade durante toda a tarde, acompanhados da Rocam, tropa de motocicletas da PM. Era fácil encontrar pelas esquinas pessoas sendo abordadas e revistadas e tendo seus carros inspecionados por policiais.

O problema, relatam os moradores, é quando essas abordagens acontecem em vielas escondidas dentro da comunidade. Nessas situações, segundo os habitantes, abordagens violentas, com direito a socos e ameaças, viraram rotina.

Um trabalhador da comunidade disse que teve sua casa invadida por PMs da Tropa de Choque no dia 18, enquanto estava em seu horário de trabalho. Suas filhas pequenas estudavam na escola.

O homem contou que vizinhos ligaram para ele e avisaram que sua casa estava sendo invadida por policiais. Ele voltou correndo e relatou cenas de destruição: fechaduras arrebentadas, sofás e a cama revirados e até barras de chocolate abertas, quebradas e jogadas no chão.

Uma mãe relatou que, desde semana passada, não leva a filha na escola por medo de tiroteios ou por presenciar cenas de violência durante o caminho. Todas as pessoas ouvidas não quiseram se identificar por medo de represálias.

O líder comunitário Gilson Rodrigues pediu respeito aos moradores e que as pessoas filmem as abordagens e enviem à associação de moradores.

Há relatos de invasões em casas e comércios e de jovens sendo agredidos nas ruas. Nós, moradores de favela, não devemos ser tratados de forma diferente de bairros nobres. Não somos contra o trabalho da polícia, mas repudiamos qualquer forma de agressão. Filmem as abordagens e nos enviem. Vamos denunciar todos os abusos.
Gilson Rodrigues, líder comunitário

Em Paraisópolis, em dezembro de 2019, nove jovens morreram após uma ação da Polícia Militar para dispersar o Baile da DZ7, tradicional festa da comunidade. Outras 12 pessoas ficaram feridas. Na semana passada, nove policiais militares envolvidos na operação foram indiciados pela Polícia Civil por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.

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