PUBLICIDADE
Topo

Segurança pública

'Gatinha da Cracolândia' era meiga e reservada, diz sogra: 'Não desconfiei'

Após ser presa, "Gatinha da cracolândia" inspira perfis falsos nas redes sociais - Instagram/reprodução
Após ser presa, 'Gatinha da cracolândia' inspira perfis falsos nas redes sociais Imagem: Instagram/reprodução

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

27/07/2021 04h00

Lorraine Bauer Romeiro e André Luiz Santos de Almeida vieram de realidades contrastantes em Barueri, região metropolitana de São Paulo. A influenciadora digital de 19 anos, que ficou conhecida como a "gatinha da Cracolândia" após ser presa há cinco dias por suspeita de ligação com o tráfico na maior feira livre de drogas na área central da capital, pertence a uma família de classe média da cidade.

"Claro que a minha família é mais humilde [em comparação à família da Lorraine]. Mas também sempre dei carinho, atenção e puxão de orelha no meu filho quando preciso. O que muda é o status social", afirmou ao UOL a auxiliar de cozinha Karina Pereira, 35, mãe de André Luiz.

Filho único criado no meio evangélico, o companheiro de Lorraine foi preso no fim do mês passado sob a acusação de integrar o mesmo grupo criminoso. Ela, que também foi detida na ocasião, acabou tendo a prisão convertida em domiciliar para cuidar da filha de 1 ano de idade na época.

Após a prisão de André Luiz, Lorraine se mudou provisoriamente para a casa da avó dele com a bebê em um terreno humilde com seis imóveis em Barueri, onde moram os parentes dele. Antes, o casal chegou a morar debaixo do mesmo teto por cerca de cinco meses.

Segundo a família, Lorraine era reservada. Não costumava puxar assunto e ficava a maior parte do tempo mexendo no próprio aparelho celular. À noite, deixava o local com a criança, alegando que iria dormir na casa de uma prima.

Ela [Lorraine] é uma menina meiga, inteligente e carinhosa. Dizia que me amava e me chamava de 'tia'. Era de uma família bem estruturada. Mas o meu filho também tem família. E também foi bem educado. Trabalhei em várias profissões para garantir o sustento dele e não me envergonho. Mas, infelizmente, ele fez escolhas erradas e vai responder por isso."
Karina Pereira, sogra de Lorraine

Mãe solteira, Karina diz que o filho foi criado no meio evangélico. Mas se afastou da religião na adolescência após a morte do pai, que sofreu com problemas de saúde. "A morte do pai deixou um vazio muito grande. É um trauma que ele carrega na vida dele", lamenta a mãe.

Assim como André Luiz, Lorraine também perdeu o pai ainda na infância. Em agosto de 2014, o empresário Ricardo Bauer Romeiro foi morto com um tiro na cabeça em uma tentativa de assalto no centro de Barueri, onde mora a família. Na época, Lorraine tinha 12 anos.

Karina confessa nunca ter suspeitado de um possível envolvimento do casal com atividades criminosas. "Não sei se a mãe a ajudava. Mas ela tem condições, né? Então, não desconfiei de nada. O meu filho sempre trabalhou, fazendo 'bicos' em obras ou entregando panfletos. O meu filho nunca foi marginal", defende.

A família de André Luiz conheceu pessoalmente a mãe de Lorraine após a prisão, quando ela foi ao local para buscar a neta. Foi citada como "pessoa distinta" e "de boa aparência".

No último domingo, Lorraine deixou de ser representada pela advogada Ana Paula Muniz Soares por decisão da família. Em carta à mãe enviada ontem e obtida pelo UOL, ela pediu que a decisão fosse reconsiderada e a defensora, mantida no caso.

Oi, mãe. Eu sei que nesse momento eu não posso decidir nem pedir nada pra você. Mas eu preciso da Ana (...). Ela está me confortando e me ajudando muito. Eu não posso te ver nem a [cita o nome da filha], então pelo menos preciso de alguém como ela. Te amo muito [emoji de coração]. Não esquece de mim."
Trechos da carta escrita por Lorraine para a mãe

Força-tarefa na Cracolândia

Na semana passada, agentes do 77º Distrito Policial (Santa Cecília) cumpriram um mandado de prisão temporária contra Lorraine em uma casa em Barueri, na região metropolitana de São Paulo. De lá, partiram para o centro da capital, onde apreenderam o equivalente a quase R$ 10 mil em drogas em uma mochila escondida em um hotel de dois andares na rua Helvetia, em Santa Cecília.

Em um vídeo obtido pelo UOL, Lorraine aparece sentada na caçamba da viatura e com as mãos para trás, como se estivesse algemada, e indica o local onde escondia os entorpecentes. "É aquele [prédio] laranja ali. Eles sempre entram pra lá e pra cá, moço."

Para acessar a área, foi necessária uma ação em conjunto com cerca de 30 guardas municipais, que conseguiram entrar no hotel de dois andares, onde encontraram crack, cocaína, maconha, ecstasy e lança-perfume. Os agentes ainda apreenderam uma faca, uma balança de precisão e o celular de Lorraine, conforme consta no boletim de ocorrência registrado pelo 77º Distrito Policial.

Lorraine então foi levada a uma sala na delegacia, onde foi ouvida pelo delegado Severino Pereira de Vasconcelos. A conversa não durou dez minutos. "Ela estava tranquila. Demonstrou domínio das emoções. É uma pessoa que não se abala facilmente", contou o delegado.

A jovem de classe média levava uma vida dupla, segundo a investigação. Durante o dia, interagia com 30 mil seguidores no Instagram e se dedicava à vida de influenciadora digital com fotos bem produzidas em um perfil já desativado. À noite, usava roupas largas e capuz para esconder o rosto enquanto vendia drogas na Cracolândia.

Segurança pública