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'Gatinha da Cracolândia' nega ser chefe do tráfico: 'Só entregava pedra'

Lorraine, a "Gatinha da Cracolândia", foi flagrada vendendo drogas com o namorado André - Reprodução
Lorraine, a "Gatinha da Cracolândia", foi flagrada vendendo drogas com o namorado André Imagem: Reprodução

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

25/11/2021 04h00

A influenciadora digital Lorraine Bauer Romeiro, 19, presa há quatro meses ao ser acusada de integrar o tráfico na Cracolândia, confessou envolvimento com a venda de drogas em audiência virtual na última sexta-feira (19). O UOL teve acesso com exclusividade ao depoimento na primeira vez em que a "Gatinha da Cracolândia", como é conhecida, foi ouvida pela Justiça.

Ela ainda disse ter sido ameaçada de morte e acusou a polícia de forjar um flagrante com apreensão de drogas que não pertenciam a ela. Lorraine foi apontada em investigação da Polícia Civil como responsável pela administração de uma das tendas da maior feira livre de venda de drogas na capital paulista, que tinha lucro diário de até R$ 6 mil. Ela nega as acusações.

Em pedido sigiloso à Justiça ao qual a reportagem teve acesso, a defesa dela cita ainda a luta contra a depressão e o afastamento da família com uma herança de R$ 50 mil deixada pelo pai, um empresário da construção civil assassinado há sete anos.

Em audiência virtual na 13ª Vara Criminal do Fórum de Barra Funda, zona oeste de São Paulo, Lorraine admitiu ter repassado crack aos usuários na Cracolândia e confirmou participação na contabilidade do dinheiro obtido com a venda da droga na tenda supostamente administrada por André Luiz Santos de Almeida, ex-namorado dela e também preso sob suspeita de fazer parte do tráfico.

Quando chegava lá [na Cracolândia], já estava tudo pronto. A barraca dele, com as coisas dele. Mas nunca fui por dentro dessas coisas [das informações sobre chegada de drogas ao local] (...). Nas vezes que ajudei ele, ajudei a contar dinheiro. E, às vezes, eu só entregava a pedra nas mãos dos usuários"
Lorraine Bauer Romeiro, em audiência na Justiça

Contudo, a defesa de Lorraine diz que só irá detalhar o envolvimento da jovem com o tráfico em outro processo, na 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores, ainda sem previsão para audiência.

A jovem mudou a versão desde a entrevista dada à TV Record, em setembro deste ano. Na ocasião, disse que era usuária de drogas e negou que vendesse. As duas versões contradizem a Polícia Civil, que aponta Lorraine como responsável por uma das tendas da Cracolândia.

'Quem fazia os negócios era ele', diz sobre ex; defesa de André contesta

Questionada por um promotor na audiência, a influenciadora digital confirmou que frequentava a região. Ela disse ter ido pela primeira vez ao local em maio deste ano —dois meses antes de ser presa.

Acabei me deixando levar. Fui naquele lugar, sim, com o meu ex-namorado. Sou eu mesma nas fotos [imagens anexadas à investigação da Polícia Civil mostram Lorraine em uma das tendas da Cracolândia com André]. Mas eu só ia acompanhar. Quem fazia os negócios era ele"

Em seguida, disse ter se envolvido com o tráfico por influência do então namorado. "No começo, foi só para fazer companhia mesmo, para conhecer. Mas, infelizmente, fui cabeça fraca, né? E acabei me envolvendo também", contou.

Lorraine se emocionou em alguns momentos da audiência. Em um deles, chorou ao falar que não teve mais contato com a filha desde que foi presa. "[Me envolver com o André] foi o maior erro da minha vida. Se pudesse voltar atrás, seria tudo diferente. A minha vida acabou".

A advogada Ana Paula Muniz Soares, que defende o ex-namorado de Lorraine no processo, contesta o posicionamento. "A Lorraine está tentando se esquivar da sua responsabilidade. Não há prova nos processos que aponte o André como o responsável por uma das tendas. Há apenas fotos dele com a Lorraine na Cracolândia. Ele é inocente e isso será comprovado nos autos", argumenta a defensora.

Procurada pelo UOL, a Polícia Civil informou que as provas reunidas pela investigação embasaram o pedido prisão decretado pela Justiça. "A Corregedoria está à disposição para registrar e apurar toda e qualquer denúncia relacionada aos seus agentes", disse.

Lorraine: 'Falaram que iriam me matar se não contasse a verdade'

Lorraine disse ainda ter sido surpreendida por policiais civis na manhã de 22 de julho quando estava com a filha no colo em um conjunto de casas da família do ex-namorado em Barueri, região metropolitana de São Paulo. Na época, já cumpria prisão domiciliar por tráfico.

Eles ficavam gritando: 'Cadê as drogas? Cadê o dinheiro?'. Pedi para ligar pra minha mãe, porque não deixo a minha filha com mais ninguém. Eles não deixaram. [Um policial] puxou o celular da minha mão, tirou a minha filha do meu colo e deu para a avó do André. Aí, me algemaram e me colocaram no porta-malas da viatura"

Em vídeo, Lorraine aparece na caçamba de viatura da Polícia Civil na Cracolândia - Reprodução - Reprodução
Em vídeo, Lorraine aparece na caçamba de viatura da Polícia Civil na Cracolândia
Imagem: Reprodução

Ela informou que ainda havia um veículo descaracterizado da Polícia Civil. Em seguida, revelou que outras duas viaturas chegaram ao local. Foi quando disse ter sido ameaçada de morte.

"Eles falaram que iriam me matar se eu não contasse a verdade. Não conseguia parar de chorar, preocupada com a minha filha. Estava com medo, não sabia o que eles iriam fazer. Até mesmo porque não tinha nenhuma policial feminina lá".

Flagrante foi forjado, acusa influenciadora digital

Questionada na audiência, a influenciadora digital disse ter sido levada de viatura de Barueri até a Cracolândia, na região central de São Paulo, a cerca de 25 km dali.

"Não falei absolutamente nada para eles. Mas continuaram fazendo um monte de pergunta. Não sabia o que falar, não sabia o que responder. Estava com medo. Aí um deles falou: 'Vamos dar uma voltinha para ver se refresca a memória dela'", relembra.

Em seguida, Lorraine contou que a viatura parou próximo à feira livre de drogas no centro da capital paulista. Foi quando disse ter sido retirada do porta-malas e conduzida ao banco traseiro da viatura. "Eles sabiam que iriam achar droga em qualquer um daqueles hotéis".

Ela negou que as drogas apreendidas em uma mochila escondida dentro de uma pensão na Cracolândia fossem dela. E disse só ter tido conhecimento da acusação quando foi chamada para prestar depoimento, já na delegacia.

"O delegado falou do meu mandado de prisão e do flagrante das drogas. Aí, eu falei: 'Senhor, mas que flagrante das drogas?'. Ele falou assim: 'Que você indicou o local onde estavam essas drogas lá na Cracolândia'. Aí foi quando fiquei sabendo que tinham forjado [um flagrante]. Não indiquei lugar nenhum para eles. Eles me tiraram de casa, me deixaram dentro da viatura e depois me levaram para delegacia. Foi isso"

O momento em que Lorraine estava com os agentes na Cracolândia foi registrado em um dos vídeos anexados à investigação. Segundo a Polícia Civil, revela o momento em que ela indicou o paradeiro das drogas.

"Ô, Lorraine. Como é a frente do hotel, meu?", pergunta um dos policiais envolvidos na ação, que registrou o diálogo enquanto estava ao volante.

"Você está gravando, moço?", questiona Lorraine, no banco traseiro da viatura.

"Quero gravar o que você me falou. Qual que é o hotel?", insiste o agente.

"Não sei, é aquele laranja ali. Eles sempre entram para lá e para cá, moço."

Dinheiro apreendido e celular desbloqueado

Lorraine também questiona a apreensão de um valor apreendido que estava em uma bolsa no momento da prisão. Segundo ela, havia R$ 5.000 —o dinheiro seria parte da herança deixada pelo seu pai.

"Posso provar a origem. Saquei da minha conta porque estava em prisão domiciliar e não podia ficar indo ao banco. Era o dinheiro para poder pagar o meu aluguel e fazer as compras para casa", disse.

Ela ainda acusa um dos agentes de tê-la ameaçado para que mostrasse a senha de desbloqueio do seu aparelho celular quando já estava na delegacia, sob custódia da Polícia Civil. "Ele falou que ia me bater se eu não desbloqueasse. Quando tentei pegar o celular, ele falou: 'me mostra como é'. Aí, ele viu o desenho e ficou mexendo no celular", acusa.

Cerca de 20 minutos depois, repórteres começaram a aparecer no local, segundo a versão contada por Lorraine na audiência. "Ele [o policial] até fez um comentário de mau gosto: 'Você é famosinha, né?'. Ficou fazendo brincadeirinha provavelmente porque entrou nas minhas redes sociais e viu que eu tinha diversos seguidores".

Reativado pela família dias após a sua prisão, o perfil de Lorraine no Instagram chegou a contabilizar mais de 50 mil seguidores. Hoje, a página está inativa.

Mulheres do PCC na Cracolândia - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

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