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Moïse: Agressor perguntou de câmeras e ficou aliviado, diz dono de quiosque

Marcela Lemos e Lola Ferreira

Colaboração para o UOL e do UOL, no Rio

03/02/2022 17h39

Carlos Fábio da Silva Muzi, 44, dono do quiosque Tropicália, onde Moïse Kabagambe foi morto a pauladas no Rio de Janeiro, disse em depoimento à Polícia Civil que Fábio Pirineus, o Belo, identificado como um dos agressores do congolês, demonstrou alívio ao ouvir que as câmeras do local não estavam funcionando.

Desconfiado da pergunta, o comerciante disse ter negado que o equipamento estivesse gravando no momento do crime. Segundo o inquérito do caso, ao qual o UOL teve acesso, o comerciante também relatou ter dispensado Moïse cinco dias antes do assassinato e que não devia dinheiro a ele —versão que contraria relato da família do congolês.

Muzi contou que tomou conhecimento da morte de Moïse na noite de 24 de janeiro após telefonema de um funcionário da Barraca do Luiz, que fica perto do Tropicália, na altura do posto 8 da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.

Segundo Muzi, em seguida, recebeu uma mensagem de áudio de Belo questionando se as câmeras do quiosque estavam gravando. Muzi respondeu que não e, posteriormente, afirmou que Belo demonstrou estar aliviado com a resposta.

Belo, 41, é um dos três homens que aparece nas imagens das câmeras de segurança do local desferindo pauladas em Moïse. As imagens foram entregues por Muzi à Polícia Civil, que afirmou que a testemunha não tem relação com crime.

Ida ao quiosque

Em depoimento na terça-feira (1º), o dono do Tropicália confirmou que, após tomar conhecimento do crime, esteve no estabelecimento. No entanto, ele demorou a chegar no local, pois precisou deixar os filhos com outro responsável.

Ao chegar ao local, o corpo de Moïse não estava mais lá. O dono do quiosque disse ter sido informado que o funcionário que passaria a madrugada no local estava na delegacia. Ele disse que esperou o funcionário, identificado como Jailton, retornar para o quiosque para ele retornar para casa.

O quiosque foi aberto normalmente nos dias seguintes ao crime. Em 25 de janeiro, Muzi conta que recebeu familiares de Moïse exaltados. Ele explicou que tentou acalmá-los, alegando que não estava no local na hora do crime.

De acordo com ele, a PM foi acionada pelo funcionário Luiz, responsável pela Barraca do Juninho —que tem o policial militar Aluir Faria e a irmã dele, Viviane Faria, como donos. Muzi afirmou que os ânimos foram controlados.

O quiosque Tropicália foi fechado pela concessionária Orla Rio até a conclusão do inquérito.

Moïse foi dispensado 5 dias antes do crime

Ainda de acordo com o depoimento, por volta de 20h30 do dia do crime, ao deixar o quiosque, Muzi avistou Moïse embriagado no local e o abordou. Ele recomendou que o congolês fosse para casa, pois o rapaz estava alterado.

Segundo o comerciante, os dois se conheciam desde 2019. Segundo Muzi, o congolês costumava aparecer na praia no período de alta temporada para trabalhar como freelancer. Segundo Muzi, Moïse trabalhou no Tropicália nos verões de 2019 e 2020.

Em janeiro de 2021, o quiosque não abriu devido à pandemia do coronavírus. De acordo com Muzi, o congolês se apresentava alguns dias sim e outros não e atuava sem carteira assinada.

Ainda segundo o comerciante, o último dia de trabalho de Moïse no Tropicália foi dia 19 de janeiro —cinco dias antes do assassinato. O congolês foi dispensado do serviço após o dono do quiosque notar que ele estava atendendo os clientes embriagado, relatou Muzi à polícia.

O dono do Tropicália afirmou ter realizado o pagamento de Moïse e que não tinha dívidas com ele —contrariando a versão da família. Parentes do congolês afirmaram que ele havia ido ao local cobrar uma dívida de R$ 200 referente a duas diárias de trabalho.

No dia seguinte, Muzi notou que o congolês estava trabalhando para o quiosque do lado, o Biruta, onde permaneceu prestando serviço até o dia do assassinato, segundo afirmou à polícia.

Moïse nunca havia arrumado briga

O dono do quiosque Tropicália disse ainda que Moïse nunca havia arrumado briga e confusão no estabelecimento tampouco com outros funcionários e clientes. Destacou apenas que era comum avistá-lo consumindo bebida alcoólica durante o serviço.

Ele afirmou ainda que a região do posto 8 da praia da Barra da Tijuca tem sofrido com problemas de segurança e que assaltos se tornaram comuns na região.

Segundo Muzi, vendedores ambulantes costumam ajudar na captura de infratores —o que ocasiona confusão. Esse tipo de ação é contudo de responsabilidade da Polícia Militar.

Quiosque foi comprado em 2019, diz comerciante

Muzi disse em depoimento que adquiriu o Tropicália em janeiro de 2019. No entanto, a regularização da transferência ocorreu somente há seis meses.

Apesar de se declarar dono do local, o quiosque está no nome do sogro Arnaldo Monteiro de Almeida que o ajudou financeiramente com os custos burocráticos e pagamentos de transferência de propriedade.

Ele afirmou que Arnaldo e a mulher o ajudam no quiosque, mas que não tratam da administração.

O estabelecimento não tem funcionários fixos. Ele relatou que todos trabalham de forma "temporária", sem contratos. Ele disse que, no verão, muitas pessoas pedem para trabalhar e que é comum o pagamento em forma de comissão.

De acordo ele, muitos deles moram na praia e são usuários de drogas e álcool.