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Petrópolis: Tio diz que corpo de sobrinho sumiu após ser resgatado da lama

Lucas Rufino, 21, uma das vítimas do temporal Petrópolis em 15 de fevereiro - Arquivo Pessoal
Lucas Rufino, 21, uma das vítimas do temporal Petrópolis em 15 de fevereiro Imagem: Arquivo Pessoal

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio

15/03/2022 04h00

A família de Lucas Rufino, 21, uma das quatro vítimas consideradas desaparecidas após as fortes chuvas que atingiram Petrópolis (RJ), em 15 de fevereiro, diz que o corpo do rapaz não está mais na região do Morro da Oficina, onde o Corpo de Bombeiros ainda faz buscas para encontrá-lo.

De acordo com parentes, o corpo de Lucas foi encontrado pelo tio e vizinhos um dia após a tragédia em meio ao deslizamento de parte de uma encosta. Ricardo Rufino, tio dele, relatou ao UOL que o grupo removeu o rapaz da lama, carregou o corpo e o entregou ao Corpo de Bombeiros.

No entanto, até hoje, a família não conseguiu identificá-lo oficialmente no IML (Instituto Médico-Legal). A tragédia de Petrópolis, que completa hoje um mês, deixou ao menos 233 mortos.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro nega que Lucas Rufino tenha dado entrada na unidade.

Procurada, Polícia Civil diz que "um outro cadáver com características semelhantes às dele [Lucas] e que foi resgatado na mesma localidade pode ser fruto do mal-entendido". A outra vítima citada pela polícia é Gilberto Martins, reconhecido por exame papiloscópico e liberado pela família.

Ricardo Rufino descarta ter confundido as vítimas, que são fisicamente bem diferentes.

"Por mais que eu estivesse no calor da emoção, não teria ocorrido essa confusão. Tinham outras três pessoas comigo. Além disso, o Gilberto e o Lucas são diferentes. O Gilberto tinha tatuagem no pescoço e no braço. Meu sobrinho não tinha tatuagem. O Gilberto era um cara de 1,70 m no máximo e o Lucas tinha 1,92 m. E o rosto dele não estava machucado", afirmou ele.

A reportagem do UOL testemunhou e registrou o momento em que a família disse ter encontrado Lucas no Morro da Oficina.

16.fev.2022 - Momento em que bombeiros transportavam corpo resgatado pelo tio de Lucas e vizinhos - Lola Ferreira/UOL - Lola Ferreira/UOL
16.fev.2022 - Momento em que bombeiros transportavam corpo resgatado pelo tio de Lucas e vizinhos
Imagem: Lola Ferreira/UOL

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro coletou no início do mês amostras de sangue da bermuda usada pelo tio da vítima durante as buscas pelos parentes. A Coordenação de DNA da instituição também coletou material genético do pai do Lucas. A ideia é comparar os materiais genéticos para esclarecer se o corpo localizado era realmente do rapaz, que continua como desaparecido.

"O resultado deve sair no final do mês e iremos divulgar", disse o tio de Lucas Rufino.

Além do filho, pai de Lucas perdeu filha de 6 anos e esposa

Lucas estava em casa com a família quando começou a chover forte em Petrópolis.

Com medo da força da água, o pai dele, Adalto Vieira, levou a esposa, Eliane Regina, e a filha Ana Clara, 6, para um bar que ficava na parte mais baixa do Morro da Oficina. Adalto diz ter acreditado que ali elas estariam seguras.

Quando voltou para buscar Lucas, encontrou o jovem tentando retirar a água que entrava no imóvel. Antes que pudessem deixar o local, uma barreira desceu sobre a casa e carregou o rapaz.

Dos quatro, apenas o pai sobreviveu. A barreira também atingiu o bar onde a mulher e a filha caçula estavam.

No dia seguinte, dois tios de Lucas foram até o Morro da Oficina em busca da família. Ricardo relata que o sobrinho foi o primeiro a ser localizado e retirado da lama.

Após ser removido com ajuda de outras pessoas, o corpo de Lucas foi entregue aos bombeiros, e Ricardo ficou ao lado do veículo até que ele partisse para o IML.

No entanto, no Instituto Médico-Legal, a família foi informada que não havia chegado nenhum corpo com as características descritas.

Agentes da Polícia Civil chegaram a mostrar fotos dos corpos que estavam no IML. Um deles era o de Gilberto. Porém, a família descartou semelhanças. Posteriormente, um exame papiloscópico (reconhecimento por impressões digitais) comprovou de fato, que não se tratava de Lucas.

A Polícia Civil informou que não houve a confirmação da entrada do corpo de Lucas no IML de Petrópolis e que diligências estão sendo realizadas para esclarecer o caso.

Um mês após a tragédia

Além de Lucas, outras três pessoas permanecem desaparecidas.

O Corpo de Bombeiros continua fazendo buscas —as ações estão concentradas nos rios da cidade, para localizar três vítimas, e também no Morro da Oficina, onde Lucas desapareceu.

Das 233 pessoas que morreram em Petrópolis, 138 são mulheres e 95 são homens —entre as vítimas, 44 são menores de idade.

Até o momento, 687 pessoas continuam em 21 abrigos temporários que funcionam em escolas públicas ou em estruturas organizadas de forma voluntária pelas comunidades.

De acordo com a Defesa Civil de Petrópolis, 96% das vistorias realizadas resultaram em interdições nas localidades afetadas pela chuva. "O município soma aproximadamente 5.700 ocorrências [vistorias], mais de 3.000 estão em andamento para a conclusão das análises", informou.

As famílias que perderam ou tiveram os imóveis condenados pela Defesa Civil estão sendo cadastradas para recebimento de Aluguel Social no valor de R$ 1.000. "Através desse benefício, mais de 170 pessoas já foram direcionadas para novos lares", informou a prefeitura.