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"Gol bolsonarista" de Pelé nas redes aparece no pior momento de Russomanno

Celso Arantes Russomanno, ou Edson Russomanno do Nascimento - Reprodução/Redes Sociais
Celso Arantes Russomanno, ou Edson Russomanno do Nascimento Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

23/10/2020 14h21

Meu filho quase engasgou com o purê de batata enquanto o pai assistia, no celular, à versão bolsonarista do gol de Pelé na final da Copa de 70.

Na adaptação dos comandados de Elsinho Mouco, um bonequinho cabeçudo do presidente é quem cruza a bola para o minicraque Celso Russomanno marcar contra os adversários.

Como o aniversariante do dia, que hoje completa 80 anos, CR10 sobe mais alto que o zagueiro para cabecear a bola — no caso, um beque de duas cacholas chamado Bruno Doria.

Por causa do vídeo, não consigo meu celular de volta. O moleque não para de assistir à animação. Pena, para o candidato, que a empolgação não vai se converter em voto. Meu filho só tem sete anos.

Mas não precisa habitar no território infantil para se divertir com o vídeo postado no Facebook do candidato e distribuído pelos grupos de WhatsApp. Não tem como não rir largado quando o narrador diz que Bolsonaro, na ponta-esquerda, como Tostão, cruzou a bola "da direita".

Deve ser o primeiro caso de cruzamento ideológico da história. (Aliás, adoraria saber o que o sábio e combativo Tostão, um dos raros atletas da Copa de 70 a se posicionar contra a ditadura militar, achou da sua versão bolsonarista).

A rota ideológica do cruzamento não é o único erro do vídeo. O tom ufanista da peça é divulgado no momento mais melancólico da campanha até aqui para CR10, um trocadilho com as iniciais de CR7, como é conhecido o craque Cristiano Ronaldo.

No jogo real, Russomanno tem atuado como pereba toda vez que abre a boca. Sob ataque, ele vê o time de Bruno Covas passar à frente pela primeira vez no placar. No último Datafolha, o tucano já aparece com 23% das intenções de voto.

O companheiro de ataque de Bolsonaro perdeu sete pontos desde o começo da campanha na TV. Tinha 27% e hoje soma 20%. Corre o risco agora de ser atropelado pelo ala esquerdo Guilherme Boulos, do PSOL. Ou pelo falso 9 Márcio França, candidato do PSB que joga em qualquer posição desde os tempos de Charles Müller.

Após a divulgação do Datafolha, Russomanno versão minicraque voltou a campo para alardear o resultado de outra pesquisa, a do XP/Ipespe, na qual ainda aparece na liderança e celebra a caminhada rumo ao segundo turno.

Na sexta-feira (23), já sem o parceiro de ataque Jair Bolsonaro em cena, Russomanno usou suas redes para parabenizar Pelé pelos 80 anos e dizer que tem orgulho de, a exemplo do Rei do Futebol, também vestir a camisa 10.

De fato, caso a tendência de queda apontada pelo Datafolha se confirme, Russomanno pode ter em breve algo em comum com o tricampeão do mundo. Depois de liderar as pesquisas nas duas eleições anteriores, terá conseguido um feito pela terceira vez.