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Análise: Santo do trocadilho ruim tira férias na eleição da escatologia

Cagado, candidato a vereador em Mirante da Serra - Reprodução/YouTube
Cagado, candidato a vereador em Mirante da Serra Imagem: Reprodução/YouTube

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

27/10/2020 14h30

Em busca de um novo mandato como vereador em Mirante da Serra, município do interior de Rondônia, Hilton Emerick de Paiva se tornou uma espécie de Buster Keaton da propaganda política em 2020.

Como o comediante que nunca ri, ele aparece sério e sem expressão no vídeo de apoio gravado pelo deputado Lucio Mosquini (MDB-RO) em sua homenagem.

No vídeo, o postulante que leva na cédula o nome "Cagado" é descrito como uma figura lendária, alguém com experiência, lutador e defensor do produtor rural.

Poderia parar aqui, mas Mosquini testa até os limites a capacidade do aliado permanecer sério na própria peça. "Ele está no terceiro mandato e não fez nenhuma cagada como vereador", diz o mui amigo.

Cagado permanece inabalável.

Mosquini dobra a aposta. Pede à população o compromisso de "continuar sendo Cagado" em Mirante.

Nada.

Quase jogando a toalha, Mosquini então desafia o eleitor a, no dia 15 de novembro, "votar Cagado".

Cagado segue com cara de paisagem.

Santo protetor do trocadilho ruim tira férias em ano de eleição.

Com pouco espaço na TV, pouco tempo de campanha, pouco dinheiro para espalhar santinho e muita vocação cívica, candidatos de todo o canto tentam ganhar atenções e votos pelo exotismo.

Isso não é novo, mas em tempos de redes sociais e correntes de WhastApp peças de apoio a candidatos de nomes e apelidos, digamos, pouco ortodoxos fazem a festa nos grupos de amigos e familiares.

Nessas horas a escatologia corre solta. E Cagado está longe de correr sozinho.

Nos cards fartamente distribuídos pelo zap há quem se divirta com as campanhas de candidatos de sobrenome Bosta, Merda, Piroca e até Rei da Xota. Tem caso que o eleitor fica confuso se é anúncio para acompanhante ou candidato a vereador.

Dias atrás o jornal O Tempo fez um levantamento no TSE e pinçou de lá concorrentes do tipo Itamar Boi, Ferreira do Suvacão, Madurão, Agenor Passa Régua, Advogado de Deus, Capitã Cloroquina e Sallim Solução Amor no Coração.

Em muitos casos, sobra aos padrinhos políticos, cada vez mais requisitados, a missão de gravar mensagens curtas, "viralizáveis" e constrangedoras para aliados de todo tipo.

Márcio França, candidato a prefeito em São Paulo, por exemplo, já indicou o Toninho do Diabo como postulante ideal a todo mundo que gosta de mandar os vereadores para o inferno. Também já fez graça com um sósia do goleiro Cássio, que promete defender a meta do cidadão paulistano — isso enquanto o Cássio original vive momento conturbado da carreira no Corinthians.

Nem todos, porém, tem um prefeitável famoso para chamar de seu. Ainda na capital paulista, um dos mistérios da campanha é entender por que o cobrador de transporte coletivo Laércio Menezes Santos, sergipano de 60 anos, decidiu concorrer com o nome sugestivo de "Buscando o imponderável". Talvez o nome artístico seja só metalinguagem. Talvez seja a mensagem em si.

A política parece abrigar todo tipo de trocadilho. Mas filosofia já é demais. Buscando o imponderável estamos todos. Mas nem todos estão prontos para esta conversa.