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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rompida com Bolsonaro, Papa Léguas e Kill Bill, Joice vira candidata comum

17 out. 2020 - Joice Hasselmann (PSL) participa de adesivaço na Praça Charles Miller ao lado do senador Major Olímpio (PSL) - ARNALDO NUNES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
17 out. 2020 - Joice Hasselmann (PSL) participa de adesivaço na Praça Charles Miller ao lado do senador Major Olímpio (PSL) Imagem: ARNALDO NUNES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

04/11/2020 12h59

Joice Hasselmann mudou.

Ok, isso você já sabe desde que ela deixou o jornalismo e virou biógrafa do Sergio Moro.

E depois virou animadora de protestos.

E entrou (oficialmente) para a política.

E virou deputada.

E articulou em São Paulo o voto Bolso Doria.

E se tornou líder do governo Bolsonaro.

E depois rompeu com o governo Bolsonaro.

E também com Doria.

E passou a atacar os dois.

Metaformose é com ela, mas quem mudou agora é a candidata a prefeita de São Paulo, que em sua estreia na TV fez cosplay de Beatrix Kiddo, de Kill Bill, de Jack Sparrow, de Piratas do Caribe, e encheu a tela com referências como Tio Patinhas, Papa Léguas, Dick Vigarista e Peppa Pig.

Três semanas depois, ainda sem decolar nas pesquisas (tem 2% no último Ibope), a candidata do PSL deu uma guinada na propaganda, limpou os cookies, os cache e agora fala diretamente com o eleitor, sem efeitos especiais, bombas explodindo, porcos dançantes nem cabeças cortadas.

Olhando para a câmera, dedos em riste, Joice pede agora a atenção do espectador como se anunciasse uma promoção. Ao estilo "o gerente ficou maluco", promete cortar em 20% o valor do IPTU em São Paulo, congelar o imposto de 2022 a 2023 e prorrogar e parcelar sem juros as dívidas referentes a 2020 para todo mundo que precisou fechar o comércio durante a pandemia. Ciro Gomes, presidenciável de 2018 que prometia limpar nossos nomes do SPC, já pode cobrar royalties.

O corte proposto por Joice deve custar em torno de R$ 2 bilhões por ano, mas a candidata já tem até de onde compensar o cobertor curto: combatendo as máfias que "corroem o nosso dinheiro", entre elas a "máfia dos transportes".

No anúncio, a ex-Kill Bill não usou uma mísera lâmina de barbear. Dá para confiar?

Joice, que prometia fazer da campanha na TV uma desfile de clipes da MTV dos anos 90, se dobrou ao velho manual e já coloca no ar até um "fala povo", com apoiadores anunciando seu voto para essa mulher de coragem.

Em um ponto ao menos a candidata não arredou pé. Tem usado até o último fio de nailón a bandeira da Lava Jato em campanha, tendo prometido, inclusive, entregar ao povo a versão paulistana da força-tarefa. Lembrando que ela é candidata a prefeita, não a procuradora da República.

Com cerca de 1 minuto de propaganda, Joice apostava na popularidade nas redes para alavancar a candidatura em forma de memes. Começou a campanha com Índice de Popularidade Digital (IPD) de 48,5, de acordo com o ranking elaborado pela consultoria Quaest e publicado pela Folha, e está hoje com 35,5 —menos da metade de Guilherme Boulos (PSOL), que tem 81,6, e atrás de rivais como Bruno Covas (PSDB), Arthur do Val (Patriota) e Celso Russomanno (Republicanos).

Como diria Caetano, algo se perdeu, algo se quebrou, está se quebrando.

Deputada federal mais votada em 2018, com mais de um milhão de votos, Joice chega a 2020 sob rejeição (recíproca, aliás) da esquerda e ampla desconfiança dos grupos conservadores, com quem tenta fincar posição após abraçar e se tornar inimiga do bolsonarismo.

Como a coluna do centro anda congestionada, talvez seja tarde demais para desfilar a esta altura como uma candidata comum, que ouve a população e tem alguma proposta para o eleitor. A culpa não é do Papa Léguas nem do Tio Patinhas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL