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OPINIÃO

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Apagão no Amapá invade campanha e pode mudar os planos dos Alcolumbre

Publicação de Patrícia Ferraz, candidata à Prefeitura de Macapá - Reprodução/Redes Sociais
Publicação de Patrícia Ferraz, candidata à Prefeitura de Macapá Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

09/11/2020 16h21

O apagão em uma subestação de energia elétrica em Macapá (AP), que deixou 90% da população do estado literalmente no escuro na semana passada, chegou à propaganda política.

A queda de energia, que ainda não foi totalmente restabelecida, afetou o sistema hidráulico e deixou boa parte dos amapaenses sem água encanada, sem refrigeração, sem internet ou serviços de telefonia, sem poder abastecer em bombas de gasolina e sem a possibilidade de sacar dinheiro dos caixas eletrônicos. O caos, enfim.

O apagão já afeta também a estratégia dos candidatos à prefeitura da capital, um dos locais mais sentiram os estragos.

Quarta colocada na última pesquisa Ibope, com 11% das intenções de voto, a candidata Patrícia Ferraz, do Podemos, por exemplo, correu para gravar a sua propaganda durante o breu. Com uma estética "jornalismo verdade" e música de suspense ao fundo, ela fez plantão em frente a um centro de combate à covid-19 onde funcionários foram dispensados e que, sem um gerador como garantia, foi fechado por falta de eletricidade.

A situação levou a candidata a incluir a palavra "energia" na lista de promessas de campanha ao lado de iniciativas para saúde, educação e saneamento.

"Moramos na linha do Equador e não temos placa de energia solar nas unidades básicas de saúde para momentos como este", diz ela, em tom sério, e sem tirar a máscara anticoronavírus.

Em sua página no Instagram, Patrícia passou os últimos dias postando vídeos dos prejuízos, sobretudo aos comerciantes, que, sem energia para manter os refrigeradores, viram boa parte do estoque apodrecer.

"Apagaram as luzes, não a nossa memória" e "O melhor transformador é o seu voto" são alguns dos slogans adotados desde o início da tragédia.

Quem também colocou o apagão no centro da campanha foi o candidato do Cidadania, Dr. Furlan.

Com cards e slogans do tipo "Essa conta você não paga", o atual deputado estadual promete tomar providências contra a empresa privada de energia, o governo do estado e a Aneel, entre as quais um projeto para isentar a população de pagar taxa de energia em novembro.

As críticas aos atuais gestores do estado e do município são acompanhados por imagens de mercados funcionando à base de velas e chamando a atenção para a ausência de iniciativas das autoridades.

A coisa chegou em um nível que o candidato chegou a repostar em seus stories a mensagem de uma eleitora dizendo que não sabe quem é o candidato apoiado pelo atual prefeito, mas sabe que "seu irmão é um bosta".

O irmão, no caso, é o presidente do Senado, David Alcolumbre (DEM-AP), que tenta emplacar em Macapá a candidatura do seu suplente de senador, Josiel Alcolumbre.

O baque acontece no momento em que o irmão do presidente do Senado vinha numa curva ascendente nas pesquisas.

O candidato do DEM, que é jornalista e empresário, tinha 31% das intenções de voto em um levantamento divulgado pelo Ibope em 28 de outubro. Quase o dobro dos 16% que marcava duas semanas antes, e a uma distância segura do segundo colocado, o ex-prefeito, ex-governador e ex-senador João Capiberibe (PSB), com 15%.

Curiosidade: Capi, como é conhecido, fez apenas uma postagem sobre o apagão em suas redes — uma foto tremida de uma mulher com um balde de água na cabeça e uma legenda contida, pedindo que providências sejam tomadas.

Josiel, porém, evita tocar no assunto.

Com o apoio do atual prefeito, Clésio Luis, do governador do Amapá, Waldez Góes, da cúpula do Congresso e com um arco de 11 partidos aliados, entre eles PSDB, PP, PDT e Republicanos, em Macapá todo mundo imaginava que só um estrago de proporções equatoriais poderia tirar o favoritismo de Josiel Alcolumbre. Até que, no dia 3 de novembro, aconteceu o apagão.

Tudo isso a menos de 15 dias da votação e em meio à crise do coronavírus. Até o momento, porém, o vídeo-denúncia dos opositores com mais acesso no Instagram teve cerca de 4 mil visualizações, resultado da dificuldade da população para, sem energia, assistir à propaganda na TV ou acessar as redes dos candidatos.

Ainda assim, e mesmo com a energia restabelecida nas próximas horas, o apagão não deve deixar tão cedo o palanque em Macapá. Ao menos os virtuais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL