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Duelo no Recife antecipa disputa da esquerda por 2022

Marilia Arraes, candidata à Prefeitura do Recife pelo PT - Reprodução/Facebook
Marilia Arraes, candidata à Prefeitura do Recife pelo PT Imagem: Reprodução/Facebook

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

20/11/2020 04h00

O segundo turno da eleição no Recife coloca frente a frente os dois grandes grupos da esquerda no país, que neste ano estão rachados e têm na capital pernambucana uma disputa que ajudará a definir o cenário em 2022.

No caso do PT, Recife se tornou a principal aposta após o partido ter resultados pífios em grandes capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Também viu candidatos tidos como competitivos ficarem fora do segundo turno, como em Fortaleza.

Para o PSB, a eleição do Recife sempre foi uma prioridade, já que a direção do partido tem comando pernambucano. O partido governa a cidade há oito anos e o estado há ainda mais tempo: 14 anos. Para vencer na capital, a legenda investiu R$ 7,5 milhões no primeiro turno na candidatura de João Campos. Foi a maior doação de um partido a um candidato nas eleições 2020.

Muito mais que uma disputa de primos pelo espólio de Miguel Arraes (1916-2005), o vitorioso mostrará a força de seu grupo e enfraquecerá o adversário em 2022.

A eleição do Recife terminou por se transformar em uma medição de forças. Isso poderá afetar o debate em torno das candidaturas colocadas para 2022 no plano nacional
Túlio Velho Barreto, cientista político

O estado de Lula e Túlio Gadelha rifado

João Campos traz na chapa uma vice do PDT. Isabella Roldão foi indicada após um acordo nacional fechado de última hora entre os trabalhistas e PSB, já visando uma aliança em 2022 em torno de Ciro Gomes (PDT) —e, portanto, contra o PT.

João Campos - Divulgação - Divulgação
João Campos é o candidato do PSB no Recife
Imagem: Divulgação
Para tanto, o PDT precisou rifar o deputado federal Túlio Gadelha, que alimentou até a véspera da convenção trabalhista a certeza de que teria sua candidatura ratificada. Túlio reclamou da atitude da direção e foi contra o acordo. De nada adiantou.

Do lado petista, é o lulismo quem estará à prova em seu estado natal. Desde a reta final do primeiro turno, o ex-presidente Lula mostrou interesse especial pela disputa recifense e prometeu, inclusive, estar na posse de Marilia, caso ela seja eleita.

A aposta do PT foi tão alta que o partido decidiu anular a decisão do diretório municipal, que queria apoiar João Campos na disputa. Com apoio de Lula, o PT nacional viu competitividade em Marilia e bancou a disputa, causando críticas de membros petistas no estado.

Para Túlio Velho Barreto, o partido busca mudar. Recife e São Paulo seriam exemplos do que viria em 2022.

"De fato, pode estar se configurando um cenário que coloque o PT e o PSOL de um lado, já que essas legendas estão coligadas no Recife e se aproximaram agora em São Paulo contra o PSDB, e o PSB com o PDT de outro lado, todos com candidaturas próprias. Isso não seria de todo estranho, considerando o afastamento dessas legendas, sobretudo do PSB em relação ao PT no plano nacional, a partir da ascensão de Eduardo Campos à direção nacional da legenda", diz.

Disputa acirrada e fervente

No primeiro turno, o resultado das urnas mostrou que a disputa deve ser acirrada: Campos venceu Marilia por menos de dois pontos percentuais de diferença.

Agora, as primeiras pesquisas apontam uma vantagem numérica de Marilia (45% x 39% pelo Ibope e 41% a 34% no Datafolha).

As forças também parecem mais equilibradas no segundo turno.

João Campos leva vantagem por ter mais partidos na aliança e os apoios do governador Paulo Câmara (PSB) e do prefeito Geraldo Julio (PSB). Já Marilia recebeu apoios importantes de partidos que são rivais do PT.

Foi o caso do ex-senador Armando Monteiro Neto, que é filiado ao PTB, comandado por Roberto Jefferson. Outro apoio surpreendente veio do Podemos, que lançou a candidata Delegada Patrícia com apoio de Jair Bolsonaro. A Delegada Patrícia e Mendonça Filho (DEM) anunciaram que ficarão neutros na disputa.

Sem adversários à direita, o tom subiu. Na segunda-feira, Marilia disse em entrevista que João Campos era imaturo e "manchava a imagem da família".

No mesmo dia, João atacou Marilia pela gestão do partido (que governou o Recife entre 2001 e 2012). Alimentar o antipetismo parece ser uma das estratégias. "O Recife lembra o que foi o PT e suas arengas administrando o Recife."

Segundo Velho Barreto, uma vitória daria fôlego para o PT ter candidato próprio em Pernambuco. Hoje apoia e integra o governo estadual de Paulo Câmara (PSB).

Já uma derrota poderá ser encarada como um problema para aglutinar partidos de esquerda numa eventual candidatura.

"Se vencer, o PT se cacifa para a disputa e, quem sabe, deixe de ser um partido satélite do PSB no plano estadual. No âmbito nacional, o PT sabe que precisa ter uma vitrine", diz.

O cientista político só pondera que a disputa também vai sofrer influência de arranjos políticos da centro-direita e da direita. A crise sanitária e a recuperação econômia também serão decisivas, embora imprevisíveis.