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Racha partidário pode ditar rumo da política externa da Venezuela, diz analista

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

06/03/2013 06h00

A pacificação de conflitos internos no partido do presidente Hugo Chávez é que vai traçar os rumos da política externa da Venezuela depois da morte de seu mandatário, confirmada em Caracas na tarde dessa terça-feira (5), em função de um câncer.

A avaliação é do coordenador do Curso de Relações Internacionais da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Paulo Pereira, segundo o qual os rachas entre oposição e situação no Partido Socialista Unido da Venezuela, ao qual Chávez pertencia, ditarão ainda os rumos de um chavismo não encerrado, na avaliação do estudioso, e agora transferido às mãos do vice empossado na Presidência, Nicolás Maduro.

“A posição da Venezuela nas relações internacionais neste momento não será derivada apenas da relação com os norte-americanos: será também reflexo de dilemas internos que surgirem dos embates dentro do próprio partido chavista sobre a sucessão de Chávez”, considerou.

Acirramento na relação com EUA

Para o analista, o fato de Maduro ter expulsado dois adidos da embaixada norte-americana “pode ter sido, talvez”, um acirramento na posição Venezuela em relação aos EUA. “Essas medidas já são um indicativo dele de capitalizar essa herança chavista que traz consigo a ideia de revolução bolivariana, de luta contra o imperialismo”, avalia, para completar: “Só que a politica externa em parte será também reflexo dessa dinâmica doméstica”.

O estudioso lembrou que Maduro, homem de confiança de Chávez, não tem boa penetração em grupos militares que são pilares importantes dentro do próprio partido --ainda que a indicação dele pelo então presidente, no final do ano passado, já tenha sido uma estratégia de se apaziguarem os ânimos entre oposição e situação.

“É inegável que esse embate não foi resolvido e que, com a morte de uma liderança como Chávez, outras vozes se levantarão dentro do partido. Afinal de contas, nenhum partido é homogêneo”.

Conforme Pereira, o conflito interno no partido só deve ser apaziguado “por meio de alianças, ponderações, trocas, cooperações”. “Mesmo porque, a oposição vai batalhar para tentar diminuir a expressão do Maduro como represente legitimo do Chávez e indicar que a morte do líder seria o apontamento de uma mudança”, define.

Legado de Chávez

A exemplo de outras correntes de análise, o especialista também nega que a morte do presidente venezuelano represente o fim do chavismo.

“Porque, como líder carismático, Chávez conduziu a política doméstica e internacional do país e fez com que a Venezuela se tornasse um ator relevante tanto para os que gostavam, quanto para os que não gostavam de Chávez”.

Como legado do agora ex-presidente, o analista destaca ações de governo voltadas ao desenvolvimento econômico e social “que causaram impacto grande na população”. “Não é à toa que ele tinha um apoio grande do venezuelano: não bastasse os debates políticos internos muito complicados que estabeleceu, conseguiu o plebiscito que fez a reforma da constituinte e o que decidiu sua manutenção no poder, como presidente, após o fim de dois mandatos”, declarou. “Mas toda figura política que tem a dimensão que ele teve é cercada de controvérsia”, complementou.

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