Estilo "reality show" de Trump assusta americanos com multiplicação de demissões

Eduardo Graça

Especial para o UOL, de Nova York

  • Philip Sears/Reuters

"You're fired!", ou, você está na rua, em bom português. A frase de efeito que marcou o reality show de sucesso de Donald Trump na rede NBC entre 2004 e 2015 reverbera agora em alto e bom som na Casa Branca.

A controversa demissão, na última terça-feira, do diretor do FBI, James Comey, que tem cargo equivalente ao de diretor da Polícia Federal no Brasil, pelo presidente que tomou posse há pouco mais de cem dias, jogou de vez os holofotes sobre o número significativo de auxiliares em postos importantes sumariamente dispensados pelo outrora apresentador de "O Aprendiz".

As demissões são especialmente sensíveis pela concentração de indivíduos nas áreas de Justiça e Segurança Nacional, ligados às investigações de ingerência do governo russo nas eleições presidenciais do ano passado.

Os demitidos

Em março, Trump demitiu o advogado-geral de Nova York, Preet Bharara, que, como Comey, fora herdado da administração Barack Obama. Bharara se recusou a entregar o cargo, depois de Trump pedir a todos os comandantes regionais do Ministério Público que fizessem o mesmo, medida anteriormente tomada por Bill Clinton quando chegou a Washington em 1993, após 12 anos de governos republicanos.

JIM WATSON/AFP
James Comey, ex-diretor do FBI

Os senões são, assim como no caso de Comey agora, o momento escolhido por Trump para a iniciativa e as implicações em investigação que poderia virar a mesa da dinâmica até agora observada, ou seja, levar à demissão pessoas próximas ou até mesmo o próximo presidente, em uma ainda distante e hipotética possibilidade de instauração de processo de impeachment. No caso de Bharara, caberia a ele investigar, por exemplo, eventuais conflitos de interesse entre a Fundação Trump e o governo.

O timing da demissão de Bharara, revelada pelo próprio pelo via Twitter - "não deixei o cargo coisa nenhuma, fui demitido" - foi percebida por analistas de todos os flancos políticos como parte da uma queda-de-braço da Casa Branca com a burocracia do Departamento de Justiça, pouco inclinada a defender atos executivos capciosos de Trump, como o que proibiu cidadãos de países da Ásia e África de população majoritariamente muçulmana de entrarem nos Estados Unidos. Até ser derrubada pela Justiça, a decisão unilateral impediu até mesmo pessoas com dupla cidadania ou visto permanente de trabalho de voltar às cidades em que vivem nos Estados Unidos, gerando protestos em todo o país.

Público X Privado

Curiosamente, durante a corrida eleitoral, o "New York Times", atento às bravatas dos dois principais candidatos à sucessão de Obama, a democrata Hillary Clinton e o republicano Donald Trump, publicou uma análise detalhada sobre o que o novo presidente poderia ou não fazer ao assumir o cargo mais importante do planeta.

O texto do constitucionalista Eric Posen, uma das estrelas da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, termina justamente afirmando que eventuais decisões unilaterais seriam evitadas mais pelo caráter do funcionalismo público de carreira americano do que pelo equilíbrio de poderes, alicerce central da democracia ianque.

Como se sabe, as eleições também garantiram maioria nas duas casas do Legislativo para o partido de Trump e a principal vitória dos primeiros três meses e meio do governo republicano foi a nomeação de um novo ministro para a Suprema Corte, Neil M. Gorsuch, que jogou à direita o pêndulo ideológico da instância máxima do Poder Judiciário americano.

"A maioria dos funcionários públicos da burocracia americana tem um senso de profissionalismo apurado e é dedicada à missão de administrar com zelo as agências públicas em que trabalham", aponta Posen, que segue: "Eles não aceitam facilmente ordens arbitrárias de cima para baixo e podem vazar informações para a imprensa, atrasar o andamento de certas medidas. Também é mais complicado de demiti-los do que no setor privado".

Carlos Barria/ Reuters
O general Michael Flynn


A diferença entre se administrar uma empresa e a máquina pública não impediu Trump de seguir afastando, mesmo ignorando, de acordo com fontes da própria Casa Branca, o conselho de seus auxiliares mais próximos, figuras como a ex-sub advogada-geral da União, Sally Yates, a chefe do estafe da Casa Branca, Angella Reid, e, embora na ponta do lápis ele tenha sido "convidado a deixar o governo", como Bharara, e oficialmente tenha pedido demissão, o conselheiro-chefe de Segurança Nacional, Mike Flynn, fritado logo após assumir o cargo, em fevereiro.

O general de reserva é, no entanto, o único da lista dos demitidos a ter sido nomeado por Trump e não por Obama. O democrata, aliás, em uma conversa durante o período de transição, aconselhou seu sucessor a não dar um cargo de confiança a Flynn, uma figura polêmica dentro e fora do Pentágono, justamente por conta de suas ligações com altos oficiais russos, inclusive o embaixador de Moscou em Washington, Sergey Kislyak.

Nunca antes na história dos EUA

Não há registro na história americana recente de primeiro mandatário que tenha demitido tantas figuras de proa do governo em tão pouco tempo. Mas também não há, de acordo com o próprio Congressional Research Service, o órgão de pesquisas do Legislativo, para além de eventual acusação e investigação de ato arbitrário gerado por perseguição política, legislação que proíba demissões, pelo presidente, de detentores de "cargos de confiança direta".

Cabe ao presidente fazer as indicações, inclusive da maioria dos ministros, e o Senado aprová-los em votação simples. Especialistas como Scott Bomboy, do National Constitucion Center, lembram que a demissão "é prerrogativa do presidente". De acordo com a Constituição, frisa Bomboy, "depois de aprovado pelo Congresso, o indivíduo trabalha ao bel-prazer do chefe do executivo, que não precisa sequer dar uma satisfação oficial para a demissão".

O que não elimina a controvérsia. Na longa história do FBI, apenas um outro presidente, novamente Bill Clinton, demitiu um diretor da agência. William Sessions foi sacado depois de o Departamento de Justiça apresentar um extenso relatório de 161 páginas – a pedido da Casa Branca – com destaques para diversos pecadilhos éticos do funcionário.

Não foi o caso de Comey. Filiado ao Partido Republicano, mesmo assim ele teria irritado Trump em diversas ocasiões, a mais séria quando depôs, na semana passada, no Congresso, e não refutou de maneira peremptória a insinuação de democratas de que ele teria influenciado diretamente as eleições de 2016, prejudicando Hillary Clonton e beneficiando Trump.

Foi dele a decisão, poucos dias antes do pleito, de enviar carta ao Congresso anunciando que a agência havia reiniciado as investigações relativas aos e-mails privados trocados por Hillary quando ela era secretária de Estado de Obama. Na ocasião, a governista liderava com folga todas as pesquisas de opinião. Nos dias imediatamente seguintes ao anúncio, Trump recuperou os pontos perdidos.

Os e-mails de Hillary

Ironicamente, foi justamente esta a justificativa pública dada pela Casa Branca para a demissão de Comey: a falta de confiança do presidente por conta da maneira como o diretor do FBI geriu o episódio dos e-mails de Hillary.

Pelo Twitter, Trump debochou da reação dos democratas, que imediatamente apontaram uma relação direta entre a recusa de Comey de arquivar a investigação sobre a atividade de hackers russos nos EUA com o mais recente "you are fired!" da era Trump. Para o presidente, "eles antes atacavam Comey a todo custo e agora o transformaram em funcionário ideal".

Os republicanos, com o senador Mitch McConnell, líder do governo no Capitólio, à frente, lembraram que além da prerrogativa do presidente da República de demitir qualquer auxiliar que ele considere não estar exercendo a função corretamente, no caso de Comey hà a carta escrita pelo segundo nome no Departamento de Justiça, o recém-nomeado advogado-geral Rod Rosenstein, recomendando a demissão do diretor do FBI, em uma espécie de versão redux do episódio de 1993 com Bill Clinton.

Mas o ultra-consevador McConnell deixou escapar que a prioridade de Trump, exatamente como em suas empresas, é trabalhar com funcionários "leais" a ele. E que Comey trabalhava abertamente contra a nova administração.

John Duricka/AP
Archibald Cox foi demitido foi Richard Nixon no episódio conhecido como "Massacre da Noite de Sábado"

"Russiagate"

Os democratas se apressaram em estabelecer um paralelo com outro presidente, Richard Nixon, que em outubro de 1973 demitiu, no auge do Watergate, o promotor especial designado a apurar as gravações ilegais no escritório do Partido Democrata durante as eleições presidenciais do ano anterior. Na ocasião, como o então advogado-geral se recusou a cumprir a ordem presidencial, o republicano o demitiu também, no que passou à narrativa política americana com o sugestivo – e trumpiano - nome de "Massacre da Noite de Sábado".

A crise política gerada pelo estilo "Aprendiz" de Trump não parece ter data para terminar. A exoneração de Comey aumentou o desejo do Senado, que investiga, em sua própria comissão parlamentar de inquérito, o "Russiagate", de apertar o cerco contra os hackers, com a intimação feita ao ex-conselheiro Mike Flynn para depor nos próximos dias.

E enquanto busca um novo nome para comandar o FBI, Trump voltou ao Twitter na sexta de manhã disparando uma série de mensagens com endereço certo: Comey. O presidente, em tom ameaçador, aconselhou seu ex-comandado a não "vazar nada negativo na imprensa". Também ameaçou a mídia de cancelar qualquer briefing com repórteres daqui para a frente no caso de algo ser publicado.

O resultado imediato foi a especulação, por parte da mesma imprensa, de que existem gravações comprometedoras de Trump em poder de Comey. Aguardam-se ansiosamente as cenas – com prováveis novas demissões – dos próximos capítulos.

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