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Afegão relata momentos de medo, caos e alívio ao deixar Cabul em voo lotado

Imagem do avião americano que decolou do Afeganistão com mais de 600 pessoas - Reprodução/Instagram
Imagem do avião americano que decolou do Afeganistão com mais de 600 pessoas Imagem: Reprodução/Instagram

Do UOL, em São Paulo

18/08/2021 09h52

O jornalista afegão Ramin Rahman descreveu, em uma coluna publicada no jornal The Guardian, os momentos de medo com a tomada de poder do Taleban, de caos no aeroporto de Cabul na tentativa de deixar o país e de alívio ao conseguir chegar ao Qatar. Ramin estava no voo americano com mais de 600 pessoas a bordo.

"Foi caótico, desconfortável e estressante", disse Ramin, que foi ao aeroporto depois de ser alertado por um amigo que o governo alemão preparava um avião de evacuação e ele tinha possibilidade de conseguir embarcar, uma vez que já havia trabalhado para jornais alemães e tinha aberto uma solicitação de visto.

O jornalista de 27 anos conta que arrumou suas coisas rapidamente e partiu em direção para o aeroporto. Naquele momento seu sentimento era de medo. "Como jornalista progressista com tatuagens, sou praticamente a antítese do que o Taleban representa", diz na coluna.

Ao chegar no aeroporto, Ramin disse que encontrou um cenário assustador e o medo de ser recusado aumentou. "Quando cheguei ao terminal internacional, fiquei chocado com o que vi e comecei a me sentir desesperado. Havia milhares de pessoas: mulheres e homens com seus bebês chorando, lutando para decidir o que fazer", disse.

Informado pelo amigo que o avião alemão só iria partir no dia seguinte, o jornalista então começou a sua luta para conseguir um lugar em outro voo. Foi quando ele mergulhou no caos.

"Por volta das 20h30 ou 21h, alguém gritou que o Taleban estava dentro do aeroporto. As pessoas começaram a gritar e correr para a pista. O aeroporto estava um caos total, sem ninguém para controlar a situação. Eu ouvi disparos do lado de fora da porta do aeroporto. Fiquei pensando que o Taleban havia chegado", relata.

Foi quando o jornalista viu tropas americanas levando um grupo de pessoas para um setor militar da pista. Ele se juntou a uma multidão na tentativa de ingressar ao grupo, que começou a entrar no avião.

"Fui levado às pressas para o avião, que tinha centenas de pessoas a bordo. Não havia espaço para sentar - todos estavam de pé. As pessoas estavam se agarrando umas às outras e aos filhos. Eu não conseguia respirar", diz.

Segundo Ramin, com a superlotação, os pilotos americanos começaram a pedir que algumas pessoas deixassem o avião. Foi quando o jornalista diz ter decidido descer do avião. "A cena toda era tão desesperadora, triste e assustadora. Olhei para as mães com recém-nascidos ao meu redor e me senti muito culpado".

Porém, quando começou o movimento para desembarcar, ele disse que um dos soldados pediu para todos pararem, uma vez que foram detectadas ameaças externas. "Então, de repente, os americanos disseram àqueles que estavam parados na porta para entrar no avião. Essa era a única chance. Corremos para dentro do avião e eles fecharam as portas", disse.

Depois de cerca de uma hora, Ramin relata que o avião começou a se movimentar em dos momentos mais felizes de sua vida. "Todo mundo estava batendo palmas e torcendo. Houve um sentimento de gratidão pelo piloto que decolou. Havia um sentimento geral no ar de que provavelmente teríamos morrido se aquele avião não viesse", disse

Segundo ele, o voo foi desafiador e não houve comida, água e espaço para respirar por horas até a aterrissagem no Qatar. "Quando chegamos, senti várias emoções simultâneas - felicidade, tristeza, confusão, cansaço e frustração"

Apesar do alívio ao conseguir deixar o país para ter a oportunidade de uma iniciar outro momento da vida, ele relata sentimentos contrastantes. "Estou triste por ter deixado tudo. Estou triste pelo Afeganistão. Mas estou tão feliz por estar vivo", disse.

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