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O pequeno sapo brasileiro que não sabe pular e fascina os cientistas

Sapo da espécie Brachycephalus, também conhecido como Sapo-abóbora - Sandra Goutte/Divulgação
Sapo da espécie Brachycephalus, também conhecido como Sapo-abóbora Imagem: Sandra Goutte/Divulgação

Colaboração para o UOL, em São Paulo

07/07/2022 12h34Atualizada em 08/07/2022 08h27

Um pequeno sapo deixou cientistas intrigados com sua incapacidade de pular e seu jeito desajeitado de pousar. Os espécimes da família Brachycephalus, também conhecidos como sapos-abóbora, são anfíbios cor de laranja e brilhantes. Eles se tornaram objeto de estudo do biólogo Richard Essner, da Southern Illinois University (EUA), que gravou vídeos com sucessivos fracassos em dar saltos longos (veja abaixo).

De acordo com Essner, os animais desta espécie sempre se lançam no ar, mas não possuem os mecanismos internos de equilíbrio necessários para corrigir a postura no meio do salto. Então, em vez de pousar de pé, prontos para o próximo salto, eles giram fora de controle e atingem o chão de costas ou de cabeça. As descobertas dele e de sua equipe de pesquisadores foram publicadas na revista Science Advances.

Os sapos-abóbora são uma espécie de anfíbio miniaturizado nativo dos cumes das montanhas do Brasil, onde, na maior parte do tempo, movem-se lentamente pelo chão da floresta da Mata Atlântica, se alimentando de insetos. A maioria tem pouco menos de um centímetro de comprimento, seus braços e pernas não são mais grossos que um palito de dente.

Por outro lado, os pesquisadores suspeitam que sua incapacidade de dar um salto não é consequência de seus pequenos músculos. Segundo Essner, o obstáculo para esse movimento pode estar relacionado às funcionalidades das orelhas extremamente minúsculas, localizadas nas costas desses sapos.

"Os ouvidos internos, também chamados de canais auditivos semicirculares, são usados nquanto se preparam para o pouso", explicou.

Os biólogos analisaram mais de 100 sapos-abóbora e outros sapos semelhantes e descobriram que os alaranjados têm os menores canais auditivos semicirculares já registrados para vertebrados adultos.

"Acreditamos que esses animais não são tão sensíveis para lidar com essa função, porque seus canais semicirculares ficaram muito pequenos. Mas, isso pode estar ligado à incapacidade deles de controlar a postura e acabarem caindo para trás nos saltos, dando cambalhotas com bastante frequência".

Essner chamou essas quedas e tombos de "aterrissagens descontroladas". "Eles são realmente os piores [em saltos] que eu já vi", disse "Vi muitos sapos pulando e, no final, eles realizam uma performance espetacular", brincou.

Outros motivos

De acordo com Lea Randall, ecologista do Zoológico de Calgary e do Wilder Institute, especializada em anfíbios e répteis, os pousos descontrolados dos sapos-abóbora também podem ser o resultado de uma combinação de outros fatores.

"Este tipo de sapo tem menos dedos do que outras espécies, resultando em pés mais estreitos, e eles também têm membros posteriores curtos. Ambas as características podem torná-los mais propensos a rolar e guinar no meio do salto e pousar desajeitadamente".

Para Lea, dificilmente outros vertebrados miniaturizados teriam semelhantes deficiências de mobilidade. "Algumas implicações mais amplas são que os vertebrados podem não conseguir ficar menores do que isso e ainda reter certas funções importantes", disse ela.

Por outro lado, o estudo de Essner concluiu que, apesar do pouso estranho, os sapos-abóbora não sofrem lesões ou outros danos sérios ao corpo após as tentativas de salto.

"Para eles, ser pequeno pode ser vantajoso. No caso deles, eles caem sempre e realmente não se machucam. Então isso provavelmente não é um grande problema", disse o pesquisador. "A maior preocupação para eles seria a vulnerabilidade, já que eles não podem pular novamente para escapar imediatamente de uma ameaça, como outros sapos fazem."

Mesmo assim, os sapos-abóbora têm seus próprios sistemas de defesa. Alguns deles são bastante venenosos, e suas cores laranja brilhantes servem de alerta aos predadores.

Há outros benefícios em ser pequeno também. Segundo Essner, o tamanho dos sapos-abóbora os ajuda a alcançar locais remotos ou específicos em busca de alimentos, sem precisar competir com animais maiores.

"Por serem tão pequenos, provavelmente têm acesso a pequenos invertebrados como fonte de alimento que outros sapos podem perder ou não. Para um sapo minúsculo como este, até uma formiga é uma refeição que vale a pena".

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