Objetivo em comum não é o forte quando se fala em solução para a Síria

Alain Frachon

  • Alexei Druzhinin, RIA-Novosti, Kremlin Pool Photo/AP

    21.out.2015 - O presidente russo, Vladimir Putin (à direita), cumprimenta o dirigente da Síria, Bashar al-Assad, em reunião no Kremlin, em Moscou (Rússia)

    21.out.2015 - O presidente russo, Vladimir Putin (à direita), cumprimenta o dirigente da Síria, Bashar al-Assad, em reunião no Kremlin, em Moscou (Rússia)

Os cessar-fogo são como crianças, raramente nascem em um campo de margaridas. O que deve acontecer na Síria no sábado (27) não é fruto do acaso, e sim reflexo da situação local.

A intervenção direta dos russos desde setembro de 2015 confirmou aquilo que é hoje um dos parâmetros-chave dessa guerra que completa cinco anos: não haverá uma derrota "militar" do regime de Bashar al-Assad.

Co-padrinhos no acordo do cessar-fogo, os Estados Unidos tendem a concordar. A verdadeira questão é saber se a cessação das hostilidades entre o regime e o amplo espectro da rebelião pode resultar em uma negociação. A sequência ideal seria se o cessar-fogo se mantivesse, se as negociações de paz começassem e esboçassem uma solução política. De tempos em tempos, é preciso de fato especular cenários positivos.

Quais são as condições para o retorno da diplomacia?

Diplomatas e ex-diplomatas trabalharam no assunto, no dia 18 de fevereiro, na Unesco, durante uma conferência organizada por Daniel Rondeau, escritor e ex-embaixador, e por David Malone, reitor da universidade das Nações Unidas. Dois dos principais negociadores do acordo sobre o programa nuclear de Teerã, um francês e um iraniano, aprenderam as lições desse "sucesso da diplomacia".

Foi preciso tempo, com anos de negociações. Foi preciso um contexto político e jurídico, com as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Foi preciso definir um objetivo comum, que seriam a natureza e o controle do programa nuclear, e a retirada progressiva das sanções. E, provavelmente o mais importante, houve no mais alto nível a vontade política de encontrar o ponto de equilíbrio entre os limites de todos, ou seja, aceitar dos dois lados um acordo que não seja o "ideal".

Improvável cacofonia

Nenhuma dessas condições existe na questão síria, a começar pela existência de um objetivo em comum. É absurdo imaginar que as muitas partes envolvidas se entenderão quanto à prioridade a se atribuir à luta contra a organização Estado Islâmico (EI). É verdade que as duas grandes forças jihadistas em campo, que são o EI e a Frente Al-Nusra, braço sírio da Al Qaeda, estão excluídas do acordo de cessar-fogo, continuando a ser alvos. Mas, para além disso, as ambições de cada um são diferentes, compondo uma improvável cacofonia.

Apoiado pelos russos, pelos iranianos, pelo Hezbollah libanês, por milícias xiitas iraquianas e afegãs, Bashar al-Assad agora controla quase 80% da Síria "útil". Ele não será derrotado por meio de armas e acredita que pode vencer militarmente. Seu objetivo não é a negociação. Sob determinadas condições, os movimentos rebeldes, exceto pelo EI e pela Al Qaeda, concordam em negociar, mas não com um homem que matou quase 200 mil sírios e destruiu seu país.

Vladimir Putin realizou suas ambições na Síria. A Rússia impediu uma "mudança de regime" por meio da força e assim reafirmou o princípio de soberania dos Estados. Ela garantiu a sobrevivência de seu grande aliado árabe e restaurou seu status como ator indispensável nas crises do Oriente Médio. Seus bombardeiros têm atacado qualquer oposição armada síria e, por enquanto, têm poupado o EI. A ideia é conseguir uma postura estratégica que é tanto a do Kremlin quanto a de Damasco: entre o regime de Bashar al-Assad e o Estado Islâmico, não deve haver nada. Cabe aos ocidentais escolherem seu lado.

O Irã quer prioritariamente a sobrevivência política do regime sírio, um de seus pontos de apoio no mundo árabe. A melhor força em campo contra o EI, que são os curdos da Síria, apoiados por Washington e por Moscou, têm por objetivo número um conseguirem para si um território autônomo ao longo da Turquia. Esta pretende, antes de tudo, impedir que os curdos da Síria se instalem ao longo de suas próprias zonas curdas. A Arábia Saudita só tem uma obsessão estratégica: conter aquilo que ela chama de expansionismo iraniano na região. Moscou frustrou as veleidades de Ancara e de Riad: turcos e sauditas, que mantêm "suas" facções da rebelião síria, queriam a queda de Bashar al-Assad.

Aliados da Turquia e da Arábia Saudita, os Estados Unidos querem primeiramente combater o EI e estão fazendo a maior parte dos bombardeios contra os jihadistas. "A posição oficial deles continua sendo que Assad deve deixar o poder", escreve o "New York Times", "mas eles não dizem quando". O destino do dirigente sírio não é prioridade para eles.

Em suma, ninguém tem a mesma agenda. Como imaginar um formato de negociação que leve em conta esse imbróglio? Na Unesco, o ex-super sherpa do palácio do Eliseu, Jean-David Levitte, com seus 42 anos de experiência diplomática, sugeriu que se retomasse o formato iraniano, com cinco membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha.

Os 5+1 teriam uma missão especial: colocar em torno da mesa de negociações as três potências regionais (Irã, Arábia Saudita e Turquia), que são padrinhos dos grupos em conflito locais, e imaginar o futuro político da Síria. Os 5+1 podem influenciar Teerã, Riad e Ancara, que por sua vez podem influenciar as facções em guerra.

É uma iniciativa lógica, contanto que não ignore uma das características da época, como observou o analista político Bertrand Badie: o fim das relações de vassalagem. Os "pequenos" têm mais autonomia em relação aos "grandes" do que se imagina. Isso vale tanto para Damasco diante de Moscou, quanto para Riad e Ancara diante de Washington.

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