Ambíguo, teórico jihadista revela bastidores da disputa entre EI e Al Qaeda

Hélène Sallon

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    Abu Mohammed al-Maqdissi, teórico da Al-Qaeda, que condena as ações do EI

    Abu Mohammed al-Maqdissi, teórico da Al-Qaeda, que condena as ações do EI

O pregador jordaniano, simpatizante da Al Qaeda, refuta os métodos da organização Estado Islâmico ao mesmo tempo em que espera recuperar seus adeptos

Um largo sorriso se abre no rosto de Abu Mohammed al-Maqdissi quando ele nos recebe no apartamento de sua família com vista para Rousseifeh, uma cidade pobre do subúrbio norte de Amã, na Jordânia. De estatura imponente, o homem não aparenta seus 57 anos.

Sua longa barba esparsa e algumas rugas na testa não chegam a envelhecê-lo. O olhar é franco, até mesmo risonho. Com sua família fora por ocasião da Festa do Sacrifício, é ele quem serve o café com cardamomo, os bolos de tâmaras feitos por sua mulher e os chocolates—"suíços", ele específica—antes de se sentar.

Com seu 1,90 m de altura largados no sofá florido da sala, e o computador sobre seus joelhos, ele recebe os visitantes com um prazer sincero. Diz algumas frases em inglês, e depois pede licença para continuar em árabe. "As raras ocasiões para praticar eram as visitas do Comitê Internacional da Cruz Vermelha na prisão", ele conta. Seu tom alegre quase permite esquecer as ambiguidades de sua figura.

Desde que ele foi libertado no início de 2015, o pregador palestino-jordaniano tem vivido quase recluso no meio de seus livros de religião e de suvenires trazidos por seus discípulos do Iêmen, do Iraque e da Chechênia. Quando ele não está na prisão —onde passou 15 dos últimos 23 anos--, ele recebe pessoas em sua casa quase ininterruptamente. Seu vizinho e acólito, Abu Qatada al-Filistini, ex-representante de Osama Bin Laden na Europa, o visita quase todos os dias.

As horas passam e seu pensamento corre, aguçado, muitas vezes complexo, às vezes equivocado, em um fluxo ininterrupto de anedotas e confidências. Como anfitrião atento, às vezes ele vem se sentar muito próximo segurando uma das obras que ele escreveu ou seu computador aberto em uma conversa no Twitter para fundamentar sua argumentação. Ele gosta de se abrir, de agradar, de argumentar e de convencer.

Jihad pela pregação

AP Photo/via IntelCenter
Abu Mussab al Zarqawi, ex-líder da Al-Qaeda, morto em 2006; seu herdeiro formaria o EI

Seu universo se estende para bem além das quatro paredes de sua sala. Através das redes sociais e de serviços de mensagens instantâneas protegidas, no fórum de seu website, Tribuna do Monoteísmo e da Jihad, ele mantém contato permanente com centenas de discípulos, teóricos e líderes da corrente salafista jihadista que o procuram, em busca de conselhos ou querendo polemizar.

Amigo do líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, ele tem entre seus discípulos líderes e teólogos da rede jihadista, desde a Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) até Abu Sayyaf na Indonésia, passando pela Al Qaeda na Península Arábica (AQPA) ou ainda os talibãs afegãos. 

Desde que ele entrou para o círculo fechado dos pensadores do salafismo jihadista no final dos anos 1980, ele se destacou como o mais influente de sua geração. "Ele continua sendo o jihadista mais importante do mundo, tendo estabelecido os princípios do novo jihadismo", explica o especialista jordaniano Hassan Abu Haniyeh.

Desde o vilarejo palestino de Barqa, onde ele nasceu em 1959 com o nome de Assem Mohammed Taher al-Barkawi, até o Kuwait, onde ele cresceu antes de ir estudar na Arábia Saudita, sua visão de mundo se forjou em uma síntese entre o pensamento do egípcio Sayyid Qotb, primeiro teórico da jihad, e dos teólogos wahhabitas. Ele criou as bases de uma "jihad de dawa", que pretende conquistar as pessoas através da pregação, voltada antes de tudo para o inimigo próximo: Israel, mas também os países muçulmanos que fracassaram em governar segundo a lei islâmica.

Ele também deve sua reputação, acima de tudo, àquele que foi seu discípulo antes de se tornar o emir da Al-Qaeda no Iraque: Abu Mussab al-Zarqawi. Os dois se conheceram no final dos anos 1980 nos campos de treinamento da Al-Qaeda em Peshawar, no Paquistão, a partir dos quais Osama Bin Laden conduzia a "guerra santa" contra a União Soviética, que havia invadido o Afeganistão em 1979.

Originário da cidade pobre de Zarka, perto de Rousseifeh, pouco educado e querendo deixar para trás seu passado de delinquente através da jihad, Abu Mussab al-Zarqawi encontrou um mentor em Maqdissi. Para o intelectual, que veio ao Paquistão para testar seu poder de pregação junto aos jovens candidatos à jihad, al-Zarqawi tinha essa aptidão para a ação que lhe faltava.

EI existe há mais de 10 anos e foi rejeitado pela Al Qaeda

De volta à Jordânia, em 1992, os dois homens formaram, juntamente com jihadistas que voltavam do Afeganistão, o grupo Bayat al-Islam, mas foram presos por terem planejado atentados contra o reino hachemita e um posto fronteiriço israelense.

Suas diferenças vieram se manifestar na prisão. "Maqdissi tinha a reputação de ser gentil com os guardas, enquanto al-Zarqawi era duro. Os outros prisioneiros preferiram al-Zarqawi e o nomearam emir do grupo em seu lugar. As coisas ficaram ainda mais claras quando al-Zarqawi foi a Peshawar depois de sua libertação, em 1999," conta Hassan Abu Haniyeh. "Al-Zarqawi encontrou ali um novo mentor, Abu Abdallah al-Muhajer, e sua ideologia se desenvolveu. Muhajer o convenceu a adotar tudo aquilo que Maqdissi rejeitava, como os atentados suicidas e a luta contra os xiitas."

Al-Zarqawi assumiu a liderança da Al Qaeda no Iraque, pouco depois da invasão americana de 2003, e se lançou em uma campanha sangrenta de atentados anti-xiitas. Em 2005 Abu Mohammed al-Maqdissi formulou, em tom de aconselhamento,  críticas contra os excessos e os erros de sua jihad: a excomunhão de muçulmanos, o massacre de xiitas, sua paixão pelo degolamento e pelos atentados contra os civis, as mulheres e as crianças.

Essas críticas suscitaram incompreensão entre os combatentes jihadistas. Al-Zarqawi renegou seu "antigo xeque". Só restava à Al-Qaeda tolerar os excessos de seu emir no Iraque e Maqdissi se calou, em nome da unidade da corrente jihadista.

"A disputa deles não tem por objeto os princípios fundamentais, mas sim a aplicação. Al-Zarqawi acha que se você tem a força, é preciso utilizá-la com o intuito de crescer. Maqdissi acredita que é preciso chamar as pessoas para você e, uma vez que se tem a força do número, podemos combater seus opositores através das armas", ressalta Hassan Abu Haniyeh.

A ruptura foi ainda mais marcada com o herdeiro de al-Zarqawi, Abu Bakr al-Baghdadi, líder da organização Estado Islâmico (EI), que, depois de não ter conseguido assumir o controle da filial síria da Al-Qaeda em 2013, provocou a ruptura com a organização e desafiou sua hegemonia sobre o jihadismo internacional.

Os desvios do "califa"

Furqan Media/EPA/EFE
Abu Bakr al-Baghdadi, o califa do Estado Islâmico, não reconhecido pela Al-Qaeda

Em junho de 2014, pouco após a conquista de Mossul, Baghdadi proclamou o califado nos territórios que ele conquistou entre a Síria e o Iraque. Maqdissi permaneceu fiel a Ayman al-Zawahiri, o líder da Al Qaeda e herdeiro de Bin Laden, assim como a maioria dos líderes e teóricos jihadistas em todo o mundo.

Ele acusou o "califa" de Mossul de subverter "o projeto islâmico" e de criar a "fitna" (divisão) entre a corrente salafista jihadista. Ele tem feito várias críticas sobre os "desvios" do EI, que leva ao extremo os métodos brutais de al-Zarqawi. Mas, mesmo entre seus próximos, algumas pessoas optaram por aderir ao EI, como seu irmão Salaheddine ou seu discípulo, o bareinita Turki al-Binali, que alguns já apelidavam de "o pequeno Maqdissi".

Abu Mohammed al-Maqdissi hoje vê sua autoridade moral contestada pela ascensão do EI. "Se o Estado Islâmico vencer, ele não terá mais um papel na rede jihadista", prevê o especialista francês Romain Caillet. "Há dois anos, Maqdissi observa, impotente, jihadistas experientes e novos convertidos entrarem para o califado."

"O Estado Islâmico pega esses jovens através da emoção: aqueles que não têm paciência de ler livros, que querem algo de imediato", ele lamenta. "Isso é especialmente verdade no Ocidente, onde eles não leem livros onde falamos sobre os erros do Estado Islâmico. Esses recém-chegados ao islamismo, ou convertidos, assistem a vídeos e são atraídos pelos combates do EI. Eles querem lutar contra o ateísmo e os Estados Unidos. Eles mergulham de cabeça, tomados pela emoção."

Sua jihad de pregação não atrai mais, em comparação com a jihad da ação, da excomunhão, violenta, cega e sectária do EI. "O problema é que muitos de nossos irmãos não são convencidos pela jihad de pregação", ele diz. "Eles sentem uma atração pelas armas, eles querem ação."

Abu Mohammed al-Maqdissi definitivamente perdeu toda sua influência sobre os partidários do EI desde que ele foi instrumentalizado pelas autoridades jordanianas. Diante do EI que ameaçava suas fronteiras, o reino hachemita decidiu apostar no jihadismo "soft" de Abu Mohammed al-Maqdissi e de Abu Qatada al-Filistini, para conter a influência do novo grupo sobre os 8 mil jihadistas jordanianos e semear a discórdia entre seus líderes.

Quando o EI anunciou, no dia 24 de dezembro de 2014, a captura, perto de Raqqa, na Síria, do piloto jordaniano Moaz al-Kassasbeh em missão para a coalizão internacional, o reino se colocou nas mãos de Maqdissi, apesar de sua hostilidade fundamental em relação à monarquia hachemita.

Ruptura com o EI

Reprodução/AP
Abu Mohammed al-Maqdissi criticou uso de tortura por parte do Estado Islâmico

A partir da prisão, para onde ele havia sido enviado dois meses antes por uma fatwa contra a "cruzada contra o islamismo e os muçulmanos na Síria e no Iraque" da coalizão, Abu Mohammed al-Maqdissi enviou cartas a oficiais do EI, incluindo o líder, Abu Bakr al-Baghdadi. Nas cartas ele sugeria a troca do piloto por Sajida al-Richawi, uma iraquiana condenada à morte por sua participação nos atentados perpetrados em novembro de 2005 em Amã pela Al-Qaeda no Iraque.

Através de um intermediário, os líderes do EI o enganaram, garantindo-lhe que o piloto continuava vivo. Como prova de vida, o teórico recebeu o vídeo da execução do piloto com fogo. Para se vingar, a Jordânia executou a prisioneira e um outro islamita radical iraquiano, Ziad al-Karbuli.

A ruptura com o EI foi consumada. No dia 6 de fevereiro de 2015, Abu Mohammed al-Maqdissi apareceu livre nos estúdios da emissora de TV jordaniana Al-Roya para condenar os líderes do EI. Seus atos "deturpam a jihad e pintam de sangue a religião", ele acusou então.

As pessoas não viam um julgamento, só viam decapitações e imolações, sendo que o Profeta proibia a tortura de pessoas com fogo. "Para o EI, a jihad não passa de 'massacre e matança', métodos estranhos ao salafismo jihadista," ele afirmava, antes de questionar: "Ao queimar Moaz, vocês abateram a coalizão? Não, ela está abatendo vocês ainda mais forte."

O grupo jihadista não demorou a responder. No número seguinte de sua publicação mensal online "Dabiq", a foto de Abu Mohammed al-Maqdissi aparecia na capa, com o título: "Os líderes dos desgarrados", acompanhado de uma condenação à morte. A acusação feita contra ele de ser um "agente dos mukhabarat" (serviços de inteligência jordanianos) correu nos meios jihadistas: "Como assim? Eu estava preso! Não sei o que há de errado com eles", ele se defende.

Na luta de hoje por influência entre a Al Qaeda e o EI pelo controle da esfera jihadista, alguns já anunciam o fim da era Al Qaeda. "Ela não tem um discurso adaptado à época. Os jihadistas querem instaurar o Estado Islâmico e estar com os vencedores", acredita o pesquisador jordaniano Marwan Chehadeh.

"Achava Bin Laden maravilhoso", diz ex-radical islâmico arrependido

Abu Mohammed al-Maqdissi admite que, desde a luta iniciada contra a Al Qaeda após os atentados do 11 de Setembro de 2001, em Nova York, a rede fundada por Bin Laden "não tem os mesmos recursos. Ela perdeu muitos líderes, não há mais um comando central nem comunicação centralizada."

Mas ele contesta o título de nova organização mãe da jihad dado ao EI. "O Estado Islâmico opera como um filtro junto àqueles que, transformados por suas emoções ou pela vontade de imitar al-Zarqawi, não são comprometidos com a religião e mancham a jihad. Aqueles que têm uma educação religiosa permanecem conosco."

O "conosco" de Abu Mohammed al-Maqdissi é a corrente salafista jihadista. A singularidade é seu lema. "Nós não somos ligados à Al-Qaeda, não importa que ela seja mais ou menos forte. O importante é a ideia, o salafismo jihadista", ele diz. Ele na verdade nunca jurou obediência à Al-Qaeda. Sua proximidade com Zawahiri é grande, mas suas relações com Osama Bin Laden eram repletas de desconfiança. O fundador saudita da Al-Qaeda o havia impedido de ensinar em seus campos, por considerá-lo radical demais, depois que ele declarou a família real saudita apóstata e alvo de jihad.

Já Maqdissi não parou de criticar o foco crescente da Al-Qaeda sobre o inimigo distante. "Em vez de atacar os Estados Unidos ou o Ocidente, é preciso combater Israel e os regimes déspotas do Oriente Médio. Se eles tivessem me perguntado sobre os atentados do 11 de Setembro, eu teria lhes dito para que não os cometessem", ele alega.

Mas ele nunca condenou claramente esses ataques nem aqueles perpetrados em nome do EI na França e outros lugares. "Por diversas vezes eu disse que era contra o assassinato de mulheres, de crianças e de civis, que não são combatentes", ele se limita a lembrar. Hassan Abu Haniyeh, que o conhece bem, explica: "Maqdissi não aprovou os atentados do 11 de Setembro, mas uma vez perpetrados, ele não ia condená-los. No fundo, ele apoia esses atentados, mas isso não entra na teoria que ele desenvolve."

Posição ambígua

REUTERS/Sean Adair
Al-Maqdissi não aprovou atentados do 11 de Setembro, mas também não condenou

Esse desejo de sempre se colocar como unificador da corrente jihadista leva Abu Mohammed al-Maqdissi a adotar uma posição ambígua em relação ao EI, embora ele execre seus líderes. Na disputa entre Abu Bakr al-Baghdadi e Abu Mohammed al-Julani sobre o controle do braço sírio da Al Qaeda, a Frente Al-Nusra, em 2013, o teórico havia se esforçado para atuar como reconciliador.

Ele se manteve fiel à Al Qaeda sem condenar o EI e o califado proclamado por Al-Baghdadi. Junto de seus simpatizantes, ele pediu pelo fim das guerras internas e pela união por Ayman al-Zawahiri, em nome da singularidade da corrente salafista jihadista.

Quando a coalizão internacional contra o EI entrou em ação, liderada pelos Estados Unidos em setembro de 2014, Abu Mohammed al-Maqdissi chegou a tomar partido publicamente do EI, dizendo desejar sua vitória diante dos dirigentes idólatras, do Ocidente e dos xiitas.

Um ano e meio após o caso Kassasbeh, Maqdissi não perdeu nada de seu amargor em relação aos líderes do EI —"Eles não são justos e mentem"--, mas continua se recusando a declarar a organização "herética", como fizeram Abu Qatada al-Filistini e Ayman al-Zawahiri. "Não paro de condenar os atos do EI e seus erros", ele diz, antes de acrescentar: "Não deixo minha animosidade pessoal guiar meu julgamento. Eles têm entre eles pessoas que são piores que khawarij ("hereges"), como seus líderes e seus legisladores. Mas outros não partilham de sua ideologia do takfir ("excomunhão")."

"Pervertidos", mais do que "hereges", é assim que Maqdissi classifica os simpatizantes do EI, deixando a porta aberta para o arrependimento. "Abu Mohammed al-Maqdissi ainda tem muitos intermediários no Estado Islâmico. Ele poderia ser um dos elementos para tentar iniciar um diálogo", acredita Dominique Thomas, autor de "Générations Djihadistes. Al-Qaida vs L'Etat Islamique. Histoire d'une lutte fratricide" ("Gerações Jihadistas: Al-Qaeda versus Estado Islâmico, a História de uma Luta Fratricida", Ed. Michalon, não lançado no Brasil).

Será que as perdas registradas no Iraque e na Síria levarão o EI a uma reconciliação? "Agora que seus líderes estão mortos e que só restaram oficiais de segundo escalão, o grupo vai recuar e se contrair. Tem muita gente começando a desertar. Eles não sabem aonde ir, e os outros grupos têm medo demais de pegá-los. Para a liderança, isso será difícil de considerar", prevê Maqdissi. Pessoas de seu círculo garantem que partidários do EI que querem desertar para a Frente Al-Nusra já o estão contatando para que ele interceda a favor deles.

Tradutor: UOL

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